Aumento da frequência de desastres na criosfera do Himalaia acende alerta sobre a urgência de cooperação regional e políticas públicas transfronteiriças.


A proliferação de eventos extremos ligados ao aquecimento global voltou a mostrar suas consequências na cordilheira do Hindu Kush Himalaia. Uma inundação repentina de grandes proporções provocada pelo colapso de uma estrutura glacial atingiu a fronteira entre o Nepal e o Tibete, gerando estado de calamidade nas bacias dos rios Bhote Koshi e Trishuli. A tragédia destruiu infraestruturas locais, afetou os distritos nepaleses de Dhading, Chitwan e Gorkha e forçou a evacuação imediata da cidade de Gyirong, no lado tibetano.

A Polícia do Nepal e um contingente de mais de 5 mil militares realizam operações de resgate com o apoio de helicópteros. O trabalho de socorro enfrenta severas dificuldades devido ao terreno montanhoso acidentado e à espessa camada de lama e rochas arrastada pelo fluxo torrencial. Os vídeos vistos nesta página têm imagens fortes e foram originalmente divulgados nas redes sociais do órgão governamental nepalês.

O impacto da crise climática na criosfera do Himalaia

O desastre traz novamente para o centro do debate a velocidade das transformações na criosfera — o conjunto das partes congeladas do planeta, que engloba geleiras, calotas polares, neve e o solo congelado (permafrost). A região do Hindu Kush Himalaia vem sofrendo com a degradação acelerada de suas reservas de gelo devido ao aumento das temperaturas globais.

Especialistas do Centro Internacional para o Desenvolvimento Integrado de Montanhas (ICIMOD) destacam que o ritmo do aquecimento global na região de alta montanha supera a capacidade de adaptação e resposta das comunidades locais.

“A crescente frequência de riscos na criosfera está se tornando mais visível do que nunca. O ritmo das mudanças é tão rápido que os esforços atuais estão tendo dificuldades para acompanhar”, disse o especialista sênior em Criosfera do ICIMOD, Mohd Farooq Azam. “O desastre de hoje no Lhende Khola ressalta a necessidade de uma colaboração regional mais forte, com os governos tomando medidas coordenadas para responder a riscos transfronteiriços”, alertou para o cenário.

Embora os cientistas ressaltem que análises específicas de atribuição climática para este evento individual ainda estejam em andamento, o padrão de instabilidade nas encostas e geleiras é condizente com as projeções dos modelos de emergência climática para a cordilheira.

Dinâmica do colapso e risco de novas enchentes

Análises preliminares indicam que o evento foi desencadeado por uma volumosa avalanche de gelo e rochas que atingiu o leito do rio Lende Khola, afluente do Bhote Koshi. O impacto gerou uma onda de choque hidráulica de velocidade e magnitude excepcionais.

Dados das estações de monitoramento apontam que o nível do rio Trishuli subiu nove metros em apenas 30 minutos na localidade de Galchchi, e sete metros no mesmo intervalo em Malekhu. A força da água destruiu equipamentos hidrológicos e causou danos a usinas hidrelétricas da região.

Cientistas e autoridades monitoram a possível formação de uma barragem natural de detritos num trecho estreito do rio. O represamento eleva o risco de uma segunda inundação de grandes proporções caso a água acumulada rompa a barreira. O chefe de Riscos Climáticos e Ambientais do ICIMOD, Qianggong Zhang, enfatizou o perigo:

“O mesmo local devastado pela enchente de Rasuwa no ano passado está novamente sob ameaça”, afirmou Qianggong Zhang. “Uma avalanche de gelo no rio Lhende Khola é a causa suspeita. Com um bloqueio ainda presente rio acima, na fronteira entre o Nepal e a China, as autoridades alertam que uma segunda enchente é iminente.”

Paralelamente, registradores sísmicos em Gyirong e Zhangmu captaram sinais anômalos no momento do colapso, que seguem em investigação para determinar a relação entre a movimentação de massa e a atividade do solo.

Integrantes do 2º Encontro de Parlamentares do Hindu Kush Himalaia fazem minuto de silêncio pelas vítimas do desastre em Rasuwa. Foto: ICIMOD

Resposta política e governança ambiental regional

A dimensão climática do desastre dominou a abertura do 2º Encontro de Parlamentares do Hindu Kush Himalaia, realizado em Thimphu, no Butão. Representantes de oito países membros (Afeganistão, Bangladesh, Butão, China, Índia, Mianmar, Nepal e Paquistão) prestaram um minuto de silêncio pelas vítimas de Rasuwa e debateram a urgência de transformar compromissos ambientais em leis e orçamentos de adaptação.

Durante o pronunciamento de abertura do evento, o vice-presidente da Assembleia Nacional do Butão, Sangay Khandu, reforçou que a resiliência frente às mudanças climáticas precisa sair do papel:

“A resiliência não pode mais residir apenas no raciocínio científico, nos discursos de ministros, funcionários do governo ou parlamentares. Ela não pode se basear somente nos compromissos que assumimos no cenário global”, destacou. “A resiliência deve ser cuidadosamente integrada ao tecido de nossas leis, nossos orçamentos, nossas instituições e nossas ações concretas. São os parlamentares que têm o poder de garanti-la.”

Para estruturar o enfrentamento aos riscos crescentes, o ICIMOD apresentou recentemente uma estratégia regional para a criosfera do Hindu Kush Himalaia, voltada à criação de um sistema contínuo de monitoramento de bacias glaciais, neve e permafrost em toda a cordilheira.

 

No dia 3 de agosto, o ICIMOD havia apresentado uma estratégia regional da criosfera para o Hindu Kush Himalaia. O estudo visa criar uma estrutura de monitoramento contínuo da bacia de geleiras, neve e permafrost para a região. Foto: ICIMOD

 


Destaque – Onda avassaladora desce pelo vale do rio Bhote Koshi, na fronteira entre o Nepal e o Tibete. Imagem: Reprodução de vídeo


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