Projeto reúne pesquisadores de vários continentes e revela novas formas de entender e proteger ecossistemas marinhos


Compreender o estado dos ecossistemas do oceano profundo — e como eles podem evoluir — é um dos maiores desafios da ciência marinha atual. Um esforço internacional liderado por pesquisadores europeus mostra que a resposta pode estar na colaboração em escala global.

O projeto iAtlantic reuniu especialistas de diferentes países para estudar o Atlântico com tecnologias avançadas de monitoramento, ampliando significativamente a capacidade de observação dos ambientes marinhos profundos.

Cooperação internacional como base da ciência oceânica

Para os cientistas envolvidos, estudar o oceano profundo exige uma abordagem que ultrapassa fronteiras.

“Se você quer entender como os ecossistemas de águas profundas estão conectados, então trabalhar internacionalmente é essencial”, afirmou Murray Roberts, coordenador do projeto. “O compartilhamento de expertise, equipamentos, infraestrutura, dados e pessoal esteve no centro da abordagem do iAtlantic.”

Além da Europa, o projeto contou com a participação de países como Canadá, Brasil, África do Sul e Estados Unidos, cobrindo uma vasta área do Atlântico — do sul da Argentina até a Islândia.

Uma década de pesquisas no fundo do mar

O iAtlantic é resultado de quase dez anos de colaboração transatlântica, dando continuidade ao projeto anterior ATLAS, que já havia revelado 12 espécies até então desconhecidas pela ciência.

“Neste projeto, tivemos acesso a equipamentos marítimos do nosso parceiro americano, a Universidade da Carolina do Norte, que pudemos instalar em um navio canadense”, explica Roberts. “Isso nos proporcionou dados valiosos durante um ano sobre os ecossistemas de esponjas de águas profundas no Ártico.”

Os resultados dessas iniciativas também contribuíram para acordos internacionais, como o tratado da ONU para proteção da biodiversidade em áreas fora das jurisdições nacionais.

Infraestrutura compartilhada e custos elevados

Um dos desafios centrais da pesquisa em águas profundas é o custo.

“Um componente-chave dos nossos parceiros dos Estados Unidos, além da expertise científica, foi o tempo de uso de navios”, afirma Roberts. “Navios são realmente caros. Uma única expedição offshore de um mês, com equipamentos de ponta, pode custar cerca de 1 milhão de euros.”

A cooperação permitiu otimizar recursos existentes, combinando infraestrutura de diferentes países com conhecimento científico especializado.

Missões, dados e novas descobertas

O projeto concentrou esforços em 12 áreas estratégicas do Atlântico, consideradas essenciais para a conservação. Mais de 80 missões internacionais foram realizadas, coletando dados, amostras e conduzindo experimentos remotos no fundo do mar.

Essas iniciativas culminaram no maior simpósio já realizado sobre a implementação do tratado internacional de biodiversidade oceânica, consolidando uma agenda global de pesquisa e conservação.

Integração entre disciplinas e políticas públicas

Além das descobertas científicas, o projeto também avançou na integração entre diferentes áreas do conhecimento.

“A colaboração entre países e disciplinas é crítica”, destaca Roberts. “Se biólogos querem entender onde espécies como corais e esponjas de águas profundas crescem, precisam trabalhar com físicos e modeladores oceânicos para compreender como o alimento chega até elas e como as correntes transportam suas larvas.”

Segundo ele, o projeto ajudou a “quebrar silos” entre áreas científicas — um passo essencial para o desenvolvimento de áreas marinhas protegidas ecologicamente conectadas.

Um modelo para o futuro da pesquisa oceânica

Um dos principais legados do iAtlantic foi a criação de um modelo de cooperação científica para o Atlântico, destacando que a colaboração internacional e o financiamento conjunto são fundamentais para políticas eficazes de conservação.

Os resultados também contribuíram para iniciativas globais como a All-Atlantic Ocean Research and Innovation Alliance, que busca fortalecer a cooperação contínua entre Europa, Estados Unidos e outros países.


Fonte: iAtlantic / Cordis


Destaque – Imagem: aloart / G.I.


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