Como a captura acidental de águas-vivas pode ser uma valiosa fonte de colágeno para cosméticos e biotecnologia.
Redação | AT & ASP News / com as informações da Frontiers
As coautoras de um novo artigo da revista Frontiers in Marine Science que investigou se as medusas capturadas acidentalmente por pescadores artesanais na Espanha poderiam ser transformadas em um recurso valioso em vez de serem tratadas como lixo, responderam algumas questões sobre suas pesquisas.
A equipe trabalhou lado a lado com os pescadores para entender melhor suas percepções sobre a captura acidental de medusas, identificar quais espécies são capturadas com mais frequência e avaliar se uma delas, a Rhizostoma pulmo, poderia servir como uma fonte sustentável de colágeno de alta qualidade.

Área de estudo. (A) Costa mediterrânea ocidental da Espanha. (B) Comunidades de pesca artesanal incluídas no estudo. Os pontos azuis indicam comunidades localizadas na Catalunha (Port de la Selva e Roses) e os pontos cinzentos indicam comunidades localizadas na Comunidade Valenciana (Jávea e Moraira).
Por que a pesquisa é importante?
A Dra. Ainara Ballesteros é pesquisadora de pós-doutorado Juan de la Cierva — um dos mais prestigiados da Espanha — no Instituto de Pesquisa em Meio Ambiente e Ciências Marinhas da Universidade Católica de Valência, onde lidera um grupo de pesquisa focado em biologia de medusas, aquicultura e uso sustentável de recursos marinhos. Seu trabalho se concentra no desenvolvimento de soluções inovadoras baseadas na ciência marinha, particularmente por meio do estudo de organismos subutilizados como fontes de compostos de alto valor agregado dentro da bioeconomia circular e estratégias de zero resíduos.
Ao ser questionada sobre a pesquisa em que está trabalhando atualmente e por que ela é importante, a coautora fez suas considerações.
“Nossa pesquisa atual se concentra no uso sustentável de recursos biológicos marinhos, particularmente espécies que são frequentemente negligenciadas, subutilizadas ou consideradas problemáticas. Este trabalho está alinhado com as atuais políticas e estratégias de bioeconomia circular e zero resíduos, que visam reduzir o desperdício e dar novo valor a materiais que tradicionalmente eram descartados”, respondeu a Ballesteros.
A pergunta foi estendida a Raquel Torres, doutoranda do mesmo instituto que a acompanha neste trabalho e está desenvolvendo sua tese de doutorado nessa linha de pesquisa, focada na valorização de águas-vivas, na colaboração com o setor pesqueiro e na gestão sustentável dos recursos marinhos.
Segundo informou Raquel Torres, a pesquisa é importante porque mostra que os desafios ambientais podem, às vezes, se transformar em oportunidades quando abordados de forma criativa e colaborativa.
“A captura acidental de águas-vivas é frequentemente vista como um incômodo para os pescadores, pois danifica as redes, aumenta a carga de trabalho e pode reduzir o valor das capturas comerciais. No entanto, as águas-vivas também são ricas em colágeno, um biomaterial amplamente utilizado em cosméticos, medicina, tecnologia de alimentos e engenharia de tecidos. Ao demonstrarmos que a captura acidental de águas-vivas pode fornecer colágeno sem comprometer a qualidade, propomos uma solução de bioeconomia circular: reduzir o desperdício, criar novas oportunidades econômicas e apoiar a pesca artesanal simultaneamente”, completou Torres.
Trabalho com os pescadores
Outras questões que chamam atenção são quanto à colaboração com os pescadores, se os pesquisadores se surpreenderam com alguma das atitudes deles em relação à reciclagem de águas-vivas capturadas acidentalmente e quais oportunidades e dificuldades eles identificaram.
“A colaboração com os pescadores foi uma das partes mais valiosas do projeto. O conhecimento prático que eles têm do mar, das mudanças sazonais, dos equipamentos de pesca e do comportamento das espécies é incrivelmente valioso e muitas vezes subestimado.
Ficamos particularmente impressionados com o alto nível de envolvimento deles. Muitos relataram quase diariamente as capturas — ou as não capturas. Eles também compartilharam fotografias e observações diretamente do mar. Isso foi especialmente importante, pois os dados sobre as não capturas são extremamente valiosos para a compreensão dos padrões de presença e distribuição. Tudo isso demonstrou uma clara disposição para colaborar e um genuíno comprometimento com o projeto.
Ficamos também positivamente surpreendidos com a abertura e o interesse demonstrados por muitos pescadores. A maioria dos participantes reconheceu o potencial de transformar a captura acidental de águas-vivas em algo útil, especialmente se isso pudesse gerar renda adicional e reduzir o desperdício.
Ao mesmo tempo, eles foram realistas quanto às barreiras. Destacaram a falta de infraestrutura, a demanda de mercado limitada, a ausência de incentivos claros e a necessidade de treinamento específico. Em outras palavras, estavam dispostos a participar, mas precisavam de sistemas que tornassem a participação realmente viável”, relatou Torres.
Resultados
Conforme os pesquisadores, o principal resultado foi muito encorajador: o colágeno obtido de medusas capturadas acidentalmente apresentou as mesmas características estruturais principais e qualidade muito semelhante ao colágeno de espécimes coletados cuidadosamente. Em outras palavras, apesar de ser considerado um material descartado, a captura acidental não danificou significativamente o colágeno. Isso corrobora a viabilidade do uso da biomassa de medusas capturadas acidentalmente como matéria-prima sustentável e demonstra seu significativo valor biotecnológico.
Possibilidades práticas
De acordo com a pesquisadora Raquel Torres, o colágeno de água-viva tem uma ampla gama de aplicações possíveis. “Pode ser usado em cosméticos, por exemplo, em produtos para cuidados com a pele; em áreas biomédicas, como curativos, estruturas para regeneração de tecidos ou sistemas de liberação de fármacos; e potencialmente em produtos nutracêuticos ou alimentícios.”

Imagens. (D) Espécime de Rhizostoma pulmo capturado incidentalmente. Figura (E) Colágeno de R. pulmo liofilizado.
Para ela, uma das áreas mais empolgantes é a medicina regenerativa. “O colágeno marinho está atraindo atenção como uma alternativa ao colágeno de mamíferos, pois pode reduzir as preocupações relacionadas a doenças zoonóticas, restrições religiosas ou preferências do consumidor.”
Por sua vez, a doutora Airnara Ballesteros abordou a ideia de que as medusas são apenas organismos nocivos, sem nenhum valor positivo. Conforme a pesquisadora, embora as proliferações possam criar desafios, as medusas são componentes naturais dos ecossistemas marinhos e também podem fornecer serviços ecossistêmicos e biomateriais úteis.
“Outro equívoco comum é que os resíduos são automaticamente de baixa qualidade. Nossos resultados mostram que, com o manuseio adequado e a validação científica, a biomassa capturada acidentalmente pode se tornar um recurso valioso. Por fim, algumas pessoas presumem que sustentabilidade e rentabilidade são incompatíveis. Modelos inovadores de economia circular podem ajudar a apoiar tanto os objetivos ambientais quanto os meios de subsistência costeiros.”
Fonte: Frontiers
Destaque – Uma água-viva barril, Rhizostoma pulmo, debaixo d’água no mar Mediterrâneo, Ilhas Medes, Costa Brava, Espanha. Foto: Damocean / Getty Images





