Dispositivo desenvolvido por startup paulista monitorou o “relógio biológico” dos astronautas na missão Artemis II; a Astronomia do portal, que acompanhou cada passo da cápsula Orion, detalha como a inovação nacional conquistou o espaço.
A jornada da missão Artemis II, da Nasa, não foi apenas um marco histórico para a exploração espacial, mas um momento de consagração para a ciência brasileira. Enquanto o mundo acompanhava a trajetória da cápsula Orion — cobertura que o portal AT Notícias realizou diariamente, desde o lançamento até o retorno seguro em 10 de abril de 2026 — um dispositivo de alta precisão trabalhava silenciosamente no pulso dos astronautas para garantir sua saúde e prontidão.
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O engenheiro mecatrônico Rodrigo Trevisan Okamoto, da startup paulista Condor Instruments, recebeu a confirmação oficial apenas no dia do lançamento. “O comunicado da Nasa foi repentino e nos pegou de surpresa. E só após a conclusão da missão também soubemos que os astronautas já utilizavam o equipamento em testes nos últimos dois anos”, revela o engenheiro.
O desafio de dormir entre as estrelas
No espaço, o conceito de “dia” e “noite” desaparece. Na Estação Espacial Internacional (ISS), por exemplo, os astronautas testemunham 16 alvoreceres e entardeceres a cada 24 horas. Essa confusão visual desregula o ciclo circadiano — o nosso relógio biológico interno.
Para enfrentar esse desafio, a startup desenvolveu o actígrafo, um dispositivo que vai muito além de um relógio comum. Ele monitora a frequência dos movimentos, a temperatura da pele e a exposição à luz em diferentes faixas espectrais.
O professor Mario Pedrazzoli Neto, da USP, especialista em cronobiologia que coordenou os estudos de base, explica a gravidade do problema: “No espaço, essa referência se perde, pois os astronautas podem permanecer em claridade ou escuridão constantes. Por esses fatores e outros ainda sob investigação, como o efeito da gravidade, os astronautas tendem a apresentar privação de sono. No espaço, o repouso é inerentemente desregulado”.
Inovação brasileira no espaço profundo
A tecnologia da Condor Instruments destacou-se no mercado global por medir a luz melanópica (espectro azul-ciano), que é a principal responsável por avisar ao cérebro que é hora de estar alerta. Os dados coletados durante os 406.777 km de distância da Terra atingidos pela Orion ajudarão a Nasa a projetar naves mais seguras para missões de longa duração.
O comandante da missão, Reid Wiseman, destacou a utilidade prática do aparelho: “O uso desse dispositivo nos últimos dois anos nos permitia recuperar o foco sempre que nos distraíamos”. Além de monitorar, o dispositivo serviu como uma ferramenta de autogestão para a tripulação enfrentar o isolamento e o estresse do espaço profundo.
Da pesquisa acadêmica ao mercado global
O sucesso do actígrafo brasileiro é fruto de uma “jornada de paciência estratégica”, como define a FAPESP. O projeto começou como uma necessidade de pesquisa na USP e Unifesp, evoluindo para um produto comercial de precisão extrema graças ao apoio do programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE).
Hoje, a startup exporta 80% de sua produção para mais de 40 países. Para Rodolfo Azevedo, da FAPESP, este é o exemplo real de soberania tecnológica: “O apoio do programa permitiu transformar um protótipo acadêmico em um produto comercial de precisão extrema. A inovação disruptiva exige investimento contínuo para que possamos colher frutos que elevam o nome do Brasil no cenário internacional”.
Com o olhar agora voltado para o pouso lunar previsto para 2028, a parceria entre a ciência paulista e a agência espacial norte-americana promete continuar escrevendo capítulos importantes da história aeroespacial.
Assista ao vídeo e veja como o Actígrafo é feito
Conteúdo baseado em reportagem de Elton Alisson para a Pesquisa para Inovação da FAPESP.
O texto original pode ser consultado no portal da instituição.
Destaque – Imagem: aloart / G.I.




