Em audiência na CMSP, oposição e especialistas propuseram plano 622 vezes mais barato para substituir túnel na vila mariana; viabilidade da proposta ainda não foi demonstrada.
No dia 26 de março último, o debate sobre o Complexo Viário Sena Madureira ganhava um novo capítulo na Câmara Municipal de São Paulo (CMSP). Em audiência pública da Comissão de Trânsito, parlamentares e técnicos apresentaram um estudo que contesta o investimento de R$ 622 milhões da Prefeitura, sugerindo intervenções alternativas com custo significativamente menor e focadas em soluções de superfície.
O embate de visões
A audiência, conduzida pela vereadora Renata Falzoni (PSB), expôs o conflito entre o modelo de obras para automóveis e a tendência de mobilidade ativa. Para a parlamentar, o túnel ignora as necessidades modernas de deslocamento urbano.
“A solução é você promover a caminhabilidade e pedalar, que é a mobilidade ativa, combinada com o transporte coletivo. O túnel vai na contramão total”, afirmou Falzoni. Ela alertou ainda para o efeito de atração de novos veículos: “Coloque ruas, viadutos, pontes e túneis e os carros virão. E, com isso, mais congestionamento”.
O presidente da Comissão, Nabil Bonduki (PT), reforçou a necessidade de interromper os trabalhos: “Temos que ter todas as frentes para parar essa obra, para garantir que isso possa ser uma conquista para a cidade, para que a gente interrompa a obra”.
A alternativa técnica
O ponto central da reunião foi a exposição do engenheiro Alexandre Zum Winkel. Ele detalhou como uma reorganização semafórica e geométrica, baseada em dados de fluxo nos horários de pico, poderia resolver o gargalo por cerca de R$ 1 milhão.
“Fizemos uma estimativa de custos, em que a obra civil seria em torno de R$ 30 mil, sinalização horizontal e vertical em R$ 200 mil, e a sinalização semafórica em R$ 500 mil”, explicou Winkel. Segundo o vereador Toninho Vespoli (PSOL), a proposta “mexe no fluxo local e daria para ter a mesma melhoria ou até melhor do que o túnel”.
A voz de quem reclama
Moradores e lideranças locais também manifestaram indignação com a falta de diálogo da gestão municipal. Marina Bragante (REDE) ressaltou que “em todas as audiências públicas, o público sempre se manifesta contra”.
Para Eduardo Canejo, liderança da comunidade Souza Ramos, o projeto carece de sentido prático: “Não há motivo algum para ser favorável. Não resolve o que se propõe e não tem cabimento gastar milhões para algo que não vai ser solucionado”.
Por fim, Denise Delfim, da Associação de Moradores da Vila Mariana, trouxe o alerta ambiental sobre a microbacia do Sapateiro: “Estão impermeabilizando o solo e a água não tem para onde ir. Quando construírem esse túnel, vai virar um piscinão. É uma irresponsabilidade fazer um trabalho desse sem um estudo sério”.
Novo inquérito norteia a obra paulistana
Essa nova intervenção chega à atualidade no formato de um inquérito civil instaurado pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP). O processo pretende investigar possíveis irregularidades e impactos urbanísticos relacionados à construção do Túnel Sena Madureira, na Vila Mariana, zona sul da capital paulista.
A representação foi feita pelos vereadores Nabil Bonduki (PT), Marina Bragante (PSB), Renata Falzoni (PSB) e Toninho Vespoli (PSOL) e aceita pela promotora Denise Elisabeth Herrera, da 8ª Promotoria de Habitação e Urbanismo.
A oposição não apresentou publicamente o estudo que reduz de R$ 622 milhões para R$ 1 milhão os custos da obra. A proposta da Prefeitura foi apresentada e está em licitação. O executivo municipal ainda não havia se manifestada a respeito do inquérito até o final desta reportagem.
Destaque – Audiência na Comissão de Trânsito da CMSP. Foto: Richard Lourenço / Rede Câmara SP



