Pesquisa com participação da Universidade de São Paulo aponta múltiplas ondas migratórias e destaca diversidade genética ainda pouco conhecida


O estudo The evolutionary history and unique genetic diversity of Indigenous Americans publicado na revista Nature identificou uma diversidade genética ampla e até então pouco conhecida entre povos indígenas das Américas. A análise de 128 genomas indica que o povoamento do continente foi mais complexo do que modelos anteriores sugeriam, com pelo menos três ondas migratórias em direção à América do Sul.

A pesquisa reuniu dados de populações indígenas de oito países da América Latina: Argentina, Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, México, Paraguai e Peru.

O trabalho contou com a participação da geneticista Tábita Hünemeier, da USP, e combinou diferentes métodos para reconstruir a história evolutiva dessas populações, indicando que fatores como migração, isolamento geográfico e interações culturais moldaram a diversidade genética ao longo do tempo.

“Muitas perguntas que estão respondidas para outros continentes ainda não foram respondidas para a América”, afirma a pesquisadora. “Tenho pensado no quão importantes são esses estudos para essas comunidades. Primeiro, porque isso traz uma imensa visibilidade para elas, e, segundo, porque no momento em que os estudos genéticos se estabelecem, é possível trazer soluções para essas pessoas do ponto de vista de saúde, por exemplo. Se não existem estudos sobre alguns povos, essa parte da população está sendo negligenciada.”

 

Níveis do mar da Beríngia (azul) e elevações da terra (marrom) medidos em metros desde 21.000 anos atrás até o presente – Foto: NOAA / Wikimedia Commons

 

Diversidade genética e novas rotas migratórias

Apesar dos avanços, há limitações na comparação com DNA antigo. “Usando dois conjuntos de dados, o nosso, que é o de populações indígenas atuais, e o antigo, que é anterior à chegada dos europeus, fizemos comparações. Só que claro, tem um buraco aí entre os dois, porque o nosso é genoma completo de alta fidelidade e o genoma antigo é encontrado em fragmentos. Então, no DNA contemporâneo, conseguimos identificar algumas mutações, mas nos antigos é mais difícil porque é um material desgastado. Mesmo assim, tentamos fazer as aproximações da melhor maneira possível”, explica.

Os achados reforçam que a diversidade indígena não pode ser explicada apenas pela geografia e envolvem também fatores históricos e culturais.

“Isso é uma coisa importante de destacar: que esse é um estudo feito por grupos de pesquisadores do sul e das regiões de onde as populações são oriundas. Além disso, analisamos essa diversidade dentro de um contexto antropológico, cultural e linguístico. Não foi um estudo genético ‘esvaziado’, sem levar em conta todos os outros processos humanos que têm impacto na evolução e diversificação dos povos.”

O estudo também contribui para o debate sobre o povoamento do continente.

“Eu acredito que o estudo atual seja muito importante para dar um contexto no debate sobre o povoamento da América. Conseguimos compreender melhor as ondas migratórias, que agora entendemos como sendo três; e vimos a afinidade dos povos americanos com as populações da australásia (sub-região do continente Oceania, que abrange a Austrália e Nova Zelândia, por exemplo), o que surpreende nessa discussão, detalha Tábita Hünemeier.

Parceria com indígenas e impacto para a ciência e a saúde

A pesquisadora critica visões simplificadas sobre a diversidade na América.

“Existe um pensamento muito eurocêntrico de que a América é ‘simples’, que por ser mais recente, tem pouca diversidade. Claro, tem menos diversidade que a África, porque foi o último continente a ser povoado, mas ainda assim tem uma pluralidade enorme. Temos 15 mil anos de história, isso não é pouco. Os povos são diversos e têm uma história evolutiva única que tem que ser considerada.”

Além do avanço científico, o estudo também pode gerar impactos práticos.

“Antes, ouvia-se que os dados genéticos não possibilitam ver toda essa estrutura ou os processos que aconteceram aqui. Na verdade, é possível sim, mas a partir de uma perspectiva diferente, porque a maioria dos marcadores utilizados na análise do DNA em estudos de genética de populações são desenhados para estudar a população europeia. É evidente que não é a mesma coisa. A novidade é que agora temos um banco de dados para contra-argumentar isso”, afirma a pesquisadora.

Para ela, o trabalho ainda abre novas frentes de pesquisa.

“A partir daqui, a gente tem muito para responder. Esse estudo responde a muitas questões, mas abre ainda mais perguntas, e eu acho que isso é o mais interessante”.


A pesquisa contou com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo (Fapesp), da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Cnpq), do Programa de Bolsas de Ciência e Inovação (Eutopia-SIF) – cofinanciado pela União Europeia através do programa Marie Skłodowska-Curie (Cofund) –, do Acordo da Fundação Nacional de Ciência Suíça sobre Linguagem em Evolução do NCCR (Suíça), do Instituto Nacional de Ciências Médicas Gerais do Artigo Institutos Nacionais de Saúde (Estados Unidos da América) e da Sociedade Max Planck (Alemanha). O estudo teve a colaboração de diversos indivíduos e comunidades indígenas da Argentina, Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, México, Paraguai e Peru, e foi conduzido em colaboração com V. Acuña Alonzo e G. Macín.


Destaque – Pesquisa foi feita a partir de parceria entre pesquisadores e comunidades, gerando devolutivas acessíveis para os povos estudados. Na imagem, representação de povos nativos de diversos países americanos. Foto: G. Mülzel/Wikimedia Commons


Tábita Hünemeier – Professora do Instituto de Biociências (IB) da USP, que atua na área de genética de populações humanas. O texto foi originalmente publicado no Jornal da USP.

 


Destaque – Imagem: aloart / G.I.


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