Entre mitos e “curas milagrosas”, redes sociais desafiam a medicina: a facilidade de buscar sintomas e tratamentos na internet transformou a forma como os brasileiros lidam com a própria saúde — mas também abriu espaço para conteúdos que podem influenciar decisões médicas importantes, nem sempre com base científica.


Mais da metade dos brasileiros recorre à internet para buscar informações sobre saúde. É o que mostra a pesquisa “Percepção da população brasileira sobre doenças crônicas”, realizada pelo Datafolha em parceria com o Instituto Butantan.

Segundo o levantamento, 53% da população utiliza redes sociais e plataformas digitais para pesquisar sobre doenças, sintomas e tratamentos. Entre os jovens, esse percentual sobe para 66%.

Apesar do avanço do ambiente digital, médicos, hospitais e unidades de saúde seguem como fontes relevantes de informação. Ainda assim, especialistas alertam que o fácil acesso a conteúdos online tem ampliado a exposição à desinformação.

Internet cresce como fonte de saúde, mas checagem ainda é baixa

O uso da internet para temas de saúde ocorre em um cenário em que nem todos os usuários verificam a veracidade das informações.

De acordo com a pesquisa TIC Domicílios, do Cetic.br, apenas 52% dos brasileiros dizem checar se o conteúdo encontrado online é verdadeiro.

O comportamento varia conforme a escolaridade: entre pessoas com ensino superior, 80% afirmam verificar as informações. Já entre aqueles com ensino fundamental, o índice cai para 31%.

Desinformação pode prejudicar adesão a tratamentos

A circulação de conteúdos sem comprovação científica nas redes sociais tem sido apontada como um dos principais desafios para profissionais de saúde.

Informações que prometem resultados rápidos — como dietas extremas ou soluções “milagrosas” — tendem a ganhar mais visibilidade e engajamento. Esse tipo de conteúdo se apoia em um fenômeno conhecido como cognitive ease, que descreve a preferência do cérebro por informações simples e de fácil acesso.

Segundo especialistas, quando há conflito entre o que o paciente vê na internet e a orientação médica, há maior risco de abandono ou resistência ao tratamento.

Anvisa intensifica combate a produtos irregulares

O avanço da desinformação também está ligado à oferta de produtos sem comprovação científica.

Nos últimos anos, a Anvisa tem ampliado a fiscalização e proibido a comercialização de itens considerados irregulares. Entre eles estão os chamados “chips da beleza”, além de diversas pomadas capilares que foram retiradas do mercado após relatos de efeitos adversos.

Mesmo com as proibições, produtos semelhantes continuam sendo divulgados nas redes sociais.

Queda na vacinação preocupa, mas índices começam a reagir

A desinformação também teve impacto na cobertura vacinal no país.

Dados do Ministério da Saúde indicam que, em 2023, nenhuma vacina do calendário nacional atingiu a meta em todos os estados.

A partir de 2024, no entanto, houve melhora nos índices, com aumento da cobertura vacinal após ações coordenadas pelo Programa Nacional de Imunizações.

Pesquisa mostra equívocos sobre doenças crônicas

O levantamento do Datafolha também identificou percepções incorretas da população sobre algumas doenças.

No caso da obesidade, parte dos entrevistados ainda associa a condição exclusivamente à falta de força de vontade. Já em relação ao Alzheimer, há quem considere a doença uma consequência natural do envelhecimento ou restrita à perda de memória.

De acordo com o Ministério da Saúde, o Alzheimer é uma doença neurodegenerativa que afeta diversas funções cognitivas e comportamentais.

Periferias têm maior exposição à desinformação

A vulnerabilidade à desinformação varia entre diferentes grupos sociais.

Estudo do Data Favela aponta que moradores de periferias e favelas estão mais expostos a conteúdos enganosos, influenciados por fatores como renda, escolaridade e acesso à informação.

Especialistas destacam que a alfabetização em saúde — capacidade de compreender e avaliar informações médicas — é um dos principais fatores de proteção.

Governo e instituições lançam ações contra fake news em saúde

Para enfrentar o problema, o governo federal lançou iniciativas de combate à desinformação, como o programa “Saúde com Ciência”, coordenado pelo Ministério da Saúde em parceria com outros órgãos.

Instituições como a Fiocruz e a Universidade Federal Fluminense também desenvolveram materiais voltados a profissionais de saúde.

No cenário internacional, o World Economic Forum classifica a desinformação como um dos principais riscos globais da atualidade.


Fonte: Rede D’Or


Destaque – Imagem: aloart / G.I.


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