Rede financiada pela União Europeia desenvolve soluções centradas no ser humano para enfrentar escassez de mão de obra e mudanças demográficas no setor industrial


O envelhecimento da força de trabalho na Europa está redesenhando o futuro da indústria. Segundo dados do continente, o número de trabalhadores com 55 anos ou mais passou de 23,8 milhões em 2010 para quase 40 milhões em 2025. Ao mesmo tempo, a taxa de vagas segue elevada, em 2,1%, enquanto a entrada de jovens no mercado não acompanha o ritmo das aposentadorias.

“O envelhecimento se tornou urgente na Europa porque a força de trabalho está ficando mais velha rapidamente, enquanto a entrada de trabalhadores jovens não cresce no mesmo ritmo”, afirma Daria Battini, professora da Universidade de Pádua e coordenadora do projeto europeu MAIA.

O impacto é mais evidente em setores como a indústria manufatureira, onde tarefas físicas repetitivas aumentam o risco de fadiga e desgaste entre trabalhadores mais experientes. Diante disso, a questão central deixou de ser se as fábricas precisam mudar — e passou a ser como fazer essa adaptação.

 

No Brasil, de acordo com dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatistica – IBGE em dezembro de 2025, a população idosa de 60 anos ou mais de idade cresceu de 22 milhões para 34,1 milhões, entre 2012 e 2024, um aumento percentual de 53,3%. O nível de ocupação desse grupo foi de 24,4%, sendo de 34,2% entre os homens e de 16,7% entre as mulheres. Ou seja, cerca de 1 a cada 4 pessoas idosas estava ocupada em 2024. Imagem: aloart / G.I.

 

De substituição de trabalhadores a apoio tecnológico

O projeto MAIA (Models and methods for an active ageing workforce), financiado pelo programa Marie Skłodowska-Curie Actions, reúne 14 universidades de Europa, Estados Unidos, Japão, Canadá, Nova Zelândia e Hong Kong. O objetivo é redesenhar o ambiente de trabalho para manter profissionais experientes produtivos e engajados.

Em vez de tratar o envelhecimento como limitação, a iniciativa propõe encará-lo como um desafio de design. “Na abordagem do MAIA, ‘envelhecimento ativo’ significa projetar o trabalho de forma que os funcionários experientes possam permanecer produtivos, seguros e engajados — sem fingir que todos têm as mesmas capacidades”, explica Battini.

Na prática, isso envolve o uso de robôs colaborativos para tarefas pesadas, exoesqueletos para reduzir esforço físico e ferramentas de realidade virtual para treinamento e simulação de processos industriais. O foco não é substituir trabalhadores, mas reduzir sobrecarga e risco.

“Em vez de ‘substituir o trabalhador’, o objetivo é ‘remover o esforço e a complexidade desnecessários’, para que pessoas qualificadas possam se concentrar em tarefas de maior valor agregado”, diz Battini.

Preservação do conhecimento e inovação industrial

Outro desafio apontado pelo projeto é a perda de conhecimento técnico quando profissionais experientes se aposentam. Para o MAIA, a retenção desse saber é estratégica para a competitividade das empresas.

“A ideia é transformar o conhecimento tácito em práticas transferíveis, para que as empresas não precisem recomeçar do zero quando trabalhadores qualificados se aposentam”, afirma Battini.

Algumas empresas já começaram a aplicar esses conceitos. Na Itália, a fabricante de bombas DAB Pumps adotou diretrizes inspiradas no projeto e na norma internacional ISO 25550:2022, voltada à inclusão etária no ambiente de trabalho.

Fábricas mais adaptadas à diversidade etária

O desafio demográfico não é exclusivo da Europa. Países como Japão e Estados Unidos enfrentam tendências semelhantes, o que levou o MAIA a estruturar uma rede global de pesquisa.

A perspectiva futura não aponta para menos trabalhadores mais velhos, mas para ambientes de trabalho mais personalizados, com tecnologias assistivas, inteligência artificial para compartilhamento de conhecimento e estações de trabalho adaptadas às capacidades individuais.

A conclusão do projeto reforça uma mudança de paradigma: competitividade industrial não depende apenas de máquinas mais inteligentes, mas de sistemas que valorizem a experiência humana e adaptem o trabalho ao envelhecimento da sociedade.


Fonte: Cordis | EU


Destaque – Imagem: aloart / G. I.


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