Pesquisa da Faculdade de Medicina da USP indica que o isolamento e o preconceito antecipam o contato com álcool e drogas no Brasil; mulheres bissexuais registram os maiores índices de consumo.
O comportamento de risco na juventude é frequentemente associado à curiosidade, mas um novo estudo da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) revela que, para uma parcela da população, esse contato é uma resposta a fatores sociais e estruturais. A pesquisa, publicada no periódico internacional Review of Psychiatry, demonstra que jovens brasileiros da comunidade LGBTQIAPN+ iniciam o consumo de substâncias psicoativas mais cedo e de forma mais frequente do que jovens cisgêneros heterossexuais, apontando o estigma social como um componente central desse cenário.
Os dados, colhidos com quase 1.500 jovens em São Paulo e Porto Alegre, mostram um contraste nítido no cronograma dessas experiências. Enquanto o grupo heterossexual costuma ter o primeiro contato com substâncias entre os 13 e 17 anos, jovens da comunidade LGBTQIAPN+ — com destaque para aqueles designados mulheres ao nascer — antecipam essa fase para o intervalo entre 10 e 15 anos. No detalhamento estatístico da USP, o consumo de tabaco atinge 48% desse público (contra 37% dos demais), a cannabis chega a 40% (contra 27%) e a cocaína a 7,4% (contra 3,6%). O uso de álcool é o único que se mantém elevado em ambos os grupos, acima dos 80%.
A análise do comportamento revela que a orientação sexual é um fator determinante na vulnerabilidade, com as mulheres bissexuais apresentando as maiores taxas de consumo. Para os pesquisadores, esses índices refletem a pressão de crescer em ambientes onde a aceitação nem sempre é a regra. O psiquiatra Caio Petrus Monteiro Figueiredo, autor do estudo, explica que “Experiências de preconceito, rejeição e isolamento social aumentam o sofrimento psicológico, reduzem a busca por redes de apoio e serviços de saúde mental e podem acabar levando ao uso de drogas como ‘forma de enfrentamento’ entre jovens LGBTQIAPN+”.
A pesquisa destaca que o uso de substâncias acaba funcionando como uma ferramenta paliativa contra o sofrimento emocional causado pela exclusão. Diante desse quadro, Figueiredo, que atua como psiquiatra assistente no Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, defende a urgência de estratégias de prevenção que considerem a diversidade sexual e de gênero. Para o especialista, as ações devem ir além do ambiente clínico e alcançar escolas e comunidades de forma integrada.
O objetivo do estudo é que esses dados fundamentem políticas públicas mais humanas, capazes de olhar com cuidado para populações marginalizadas. O autor reforça a importância de transformar o conhecimento acadêmico em suporte real para quem está na ponta do atendimento. “O que mais me alegra neste trabalho é conseguir ligar a pesquisa com o que vejo na prática, na enfermaria e no consultório”, afirma Figueiredo, que conclui sua visão sobre o papel da ciência: “Acredito na ciência que se traduz em transformação clínica e social”.
O artigo de Caio Petrus Monteiro Figueiredo, intitulado Patterns of substance use and initiation among LGBTQIAPN+ youth in Brazil: Evidence from a population-based cohort, com tradução para o português como Disparidades no uso de substâncias entre jovens brasileiros: Um estudo das influências de gênero e orientação sexual, foi publicado no último dia 17 de abril no periódico International Review of Psychiatry. Em junho do ano passado, o psiquiatra apresentou o estudo no Brain Congress 2025 e foi agraciado com o Prêmio Jovem Pesquisador, oferecido pela organização do evento. Além do orientador do doutorado, que teve bolsa do CISM – Centro de Pesquisa e Inovação em Saúde Mental, o também psiquiatra Arthur Caye, gerente de pesquisa do centro, outros pesquisadores do CISM aparecem entre os autores do paper: Pedro Mario Pan, coorientador do estudo; o coordenador do CISM Euripedes Constantino Miguel; o vice-coodenador Luis Augusto Rohde, e Giovanni Abrahão Salum, que também é pesquisador da Brazilian High-Risk Cohort for Mental Health Conditions (BHRC).
Destaque – Figueiredo defende a urgência de estratégias de prevenção que considerem a diversidade sexual e de gênero. Imagem: aloart / G. I.



