Direita, esquerda; esquerda, direita; virar à esquerda, virar à direita, em frente… ao centro…


Aprender a marchar é uma das primeiras coisas que se aprende como militar. O recruta chega cheio de dúvidas, mas logo aprende a marchar porque essa é uma questão fundamental: obedecer às ordens de comando. Na dianteira, geralmente o sargento, às vezes de bom humor e noutras meio mal-humorado; se estiver com o humor totalmente alterado, é melhor não errar na marcha ou interrompê-la. E assim o recruta segue nos ensinamentos até se tornar um soldado, um simples soldado.

A marcha faz parte da disciplina militar e raramente o recruta escapa do aprendizado nesse âmbito. Transferindo a marcha como uma metáfora à lida da grande massa popular brasileira, que, apesar do esforço, raramente escapa ao desemprego, endividamento, à insegurança e outras dificuldades diárias. O mesmo não acontece na política, em que as regras são facilmente desrespeitadas e nem sempre seguidas.

A classe política brasileira, mais recentemente sob forte judicialização, ainda está longe de promover o bem-estar social. A publicidade do comportamento de políticos em destaque no cenário nacional demonstra o contínuo desrespeito às regras, interferências nos assuntos privados de maneira estabanada e a hipocrisia. Leia-se a busca de recursos para o filme Dark Horse junto ao banqueiro Vorcaro — envolvido em fraudes bilionárias —, mudança das regras trabalhistas, como a jornada 6x1 e a NR-1 para obter vantagens eleitoreiras, ou as afirmações de que o povo paulistano é o mais feliz da América Latina, enquanto a cidade de São Paulo ocupa a 161ª posição em âmbito mundial na mesma pesquisa.

Boa índole, personalidade fraca

O político de boa índole pode até não cometer delitos, mas convive lado a lado com eles. Esse comportamento caracteriza falta de coragem moral combinada com uma fraqueza de personalidade. Pode, no máximo, tentar contornar os erros, a corrupção, os desvios de verbas públicas, mas fecha os olhos aos atos dos colegas para continuar no poder. Quando os escândalos chegam à imprensa, muitas vezes não têm mais volta. Grande parte da oposição que trava batalhas contra o atual governo votou a favor do fim da jornada 6x1 para não perder votos, confirmando as jogadas no tabuleiro de xadrez governamental que os levaram a isso. Corretos foram aqueles que mantiveram suas posições e votaram contra a medida populista e atabalhoada, que está levando confusão a diversos setores da economia, que já anda combalida.

A falta de moral, que emerge dos ‘palácios’, impede que qualquer um fale contra o outro. O corporativismo que protege as mentiras, a difusão de ilusões, do protelamento da justiça, integra o dia a dia da insignificância de homens públicos que assumem cargos nessa máquina gigantesca para cometer abusos. Agem em conluio com o sistema falho que rege as vidas da coletividade, o povo propriamente dito, e mantêm a maior parte do país nessa pobreza que não acaba nunca.

A base popular manipulada de acordo com a necessidade

Os brasileiros não vivem guerras armadas, não se matam por causa de petróleo, não distinguem credos ou raças. Todavia, convivem e elegem repetidamente um dos mais rasos sistemas políticos do planeta, que os coloca entre as piores nações para se viver, onde mulheres são mortas por capricho e crianças são vendidas para exploração sexual, só para citar exemplos.

Os dias amanhecem e todos recomeçam suas vidas. A cada dois anos, temos eleições e não progredimos em quase nada. Pergunte a uma família de três pessoas — marido, mulher e uma criança — que vive com a renda de 1 a 3 salários mínimos o que essa família acha da sua situação financeira. Por que tomamos essa base? Por ser a faixa na qual se encontra a maior parte da população brasileira, segundo o IBGE.

Essa base é formada pelos mais pobres que pagam aluguel, alugam carros para trabalhar como Uber porque não encontram trabalho compatível com suas aptidões e, no final do mês, o quanto ganham vai quase todo para as locadoras. São aquelas pessoas que fazem docinhos para vender aos amigos, para completar a renda. São os universitários sem recursos que, com um esforço sobre-humano, chegaram às faculdades, mas não têm dinheiro para bancar o lanche e o transporte. São as pessoas que ficam mais de meio dia para serem atendidas nas instituições públicas a fim de marcar ou fazer um exame.

A marcha do povo sem saber aonde vai chegar. Imagem: aloart / IA image

Um sistema feito para continuar como está

Enquanto tudo isso acontece todos os dias, vemos a classe política, que conta com inúmeros privilégios criados para si, propagando benefícios populistas ao povo — como a redução da jornada de trabalho (6x1) ou a responsabilização das empresas pelo estado psicológico dos funcionários (NR-1). Essa cortina de fumaça em anos eleitorais tenta desviar a atenção do que realmente preocupa os brasileiros: a fome, pobreza, miséria, insegurança e a vida em uma corda bamba. Ao mesmo tempo, esconde o que interessa aos políticos: o voto.

No afã de se manterem no poder, em época de eleições, legisladores concedem aumentos ao funcionalismo público que se alastram a todos os níveis, pois o benefício a uma classe servidora desencadeia uma série de outros benefícios e aumentos a outros e assim por diante. Essa grande massa de beneficiários ajudará a eleger ou reeleger numa troca infinita de toma lá dá cá.

O tema segurança entrou na pauta das campanhas políticas. Afinal, não passa despercebido o faturamento do crime organizado, que movimentou 61,5 bilhões só com a atividade de combustíveis, de acordo com levantamento do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025, divulgado esta semana.

Para mostrar que se interessam, políticos de vários matizes agora falam em insegurança; já falaram sobre pets. Para a campanha eleitoral de Lula, o tema virou prioridade. Será que ele vai conseguir debelar a bandidagem que continua agindo, mesmo sob o engodo das sirenes? Afinal, de promessas vazias e engodos, o marketing político está repleto.

No Brasil, figuras públicas, apesar de crimes comprovados, não saem de cena. Em favor de pessoas comprovadamente corruptas, membros da Justiça desmantelaram a Operação Lava Jato, que provou a existência de um esquema gigantesco de corrupção nos meandros governamentais. Agora em cena, as ‘aventuras’ de Daniel Vorcaro, do Banco Master — um banqueiro nos bastidores da política nacional. Na teia de negociações, vemos o poder financeiro e político inocentar corruptos e prender os seus detratores. Assim como quem manda porque pode e obedece quem marcha, na justiça, quanto a políticos e suas desventuras, tudo pode ser protelado até segunda ordem.

Classe pobre paga a conta, sempre

Para quem está acostumado a almoçar um pastel da feira livre, que custa de R$ 12 a R$ 15 (já está caro!), pois é a única ‘verba’ possível para chegar ao final do dia trabalhando, os números a seguir podem espantar quando se trata das verbas que cada partido vai receber do Tesouro Nacional — cujos valores são obtidos principalmente por meio dos impostos pagos pela população —, para gastar na busca dos votos neste ano eleitoral.

Enquanto o povo marcha e se ilude com benefícios que lhe entregam com uma das mãos e lhe retiram em dobro com a outra, apenas para exemplificar o que isso significa, os gastos do Supremo Tribunal Federal – STF em 2026 alcançarão R$ 1,047 bilhão; para manter a estrutura do Tribunal Superior Eleitoral – TSE, serão gastos mais R$ 1 bilhão.

Marchando o eleitor para a direita, esquerda ou ao centro, o Tesouro Nacional repassará ao TSE, que por sua vez, vai transferir aos respectivos partidos políticos brasileiros a cifra bilionária de R$ 4,9 bilhões, ou seja, quase R$ 5 bilhões serão gastos — fora doações e etc., etc. Essa cifra espetacular foi definida no Orçamento de 2026 após aprovação da Comissão Mista de Orçamento (CMO) e sanção da Presidência da República e integra as regras de financiamento público administradas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

O financiamento público para a máquina partidária captar os votos da população é obtido principalmente por meio de impostos, para manter ou eleger pessoas que até agora trouxeram o país ao patamar em que ele se encontra, dispensando comentários.

Direita, esquerda; esquerda, direita; ao centro; marchem. Como se comprova a cada eleição, os mandatos políticos se mantêm à custa de trocas, favores e cifras no comando do labirinto da política. Mandando, manipulando e iludindo, os eleitores continuam sustentando o sistema que vai se mantendo, perpetuando-se.

Nesse labirinto não existe lado ou ideal, patriotismo; o importante é manter-se no poder, custe o que custar. Quem desafia o sistema se arrisca a ser enviado ao esquecimento, às prisões. Pela direita, ao centro ou à esquerda, o povo continua marchando sem saber aonde vai chegar.


Gerson Soares – Jornalista e escritor


 


Destaque – Imagem: aloart / G.I.


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