Na Vila Gomes Cardim, Chácara Santo Antônio e proximidades do metrô Carrão, furtos de fiação na madrugada expõem o contraste entre o barulho das sirenes e a impunidade desses e outros crimes


A cena repete-se todas as noites na região do Tatuapé. O som agudo e intermitente das sirenes adaptadas a motocicletas corta a madrugada, atormentando o descanso de quem precisa trabalhar ou estudar no dia seguinte. Prometida como um reforço na proteção, a atividade dos guardas noturnos na Vila Gomes Cardim, na Chácara Santo Antônio e nos arredores do metrô Carrão tem gerado o efeito oposto: estresse crônico para a vizinhança e ineficiência no combate ao crime.

Imagens obtidas pela reportagem na manhã de domingo (5) mostram que a fiação pública foi novamente furtada na Rua Henrique Dumont. O crime ocorreu exatamente durante o período das supostas rondas de vigilância e bem em frente a uma residência que contribui mensalmente com o serviço de segurança privada.

A impunidade de criminosos que agem na fiação elétrica, em invasões domiciliares e em roubos de veículos levanta um questionamento inevitável entre os moradores: qual é a real eficácia de vigias que circulam desarmados, sozinhos e que nunca são visados pelos criminosos locais?

O título desta reportagem — mais uma das que repetidamente são produzidas por este veículo para evidenciar fatos — também está sendo utilizado por uma das mais conhecidas empresas de vendas de serviços de monitoramento e segurança eletrônica de São Paulo.

O impacto na saúde pública e o cerceamento do sossego

Longe de trazer tranquilidade, as rondas promovidas por empresas clandestinas submetem os paulistanos a um estado de alerta psicológico constante. O barulho das sirenes a cada meia hora prejudica especialmente pessoas convalescentes, idosos, bebês e portadores de condições neurológicas específicas, como o transtorno do espectro autista (TEA), para quem a poluição sonora contínua eleva drasticamente os níveis de estresse.

De acordo com relatos locais, o comércio dessa atividade ilegal expande-se na esteira do medo. Moradores afirmam sentir-se constrangidos a pagar as mensalidades cobradas por lideranças do setor — que chegam a estampar seus nomes em placas distribuídas pelas fachadas das residências — sob o receio de perderem uma suposta escolta ao retornarem para casa tarde da noite.

Cobranças à SSP e o silêncio institucional

A persistência do problema expõe a falta de respostas eficazes do 30º DP (Tatuapé) e do Conselho Comunitário de Segurança (Conseg) da região. Diante do aumento da criminalidade na madrugada e do abuso sonoro, os levantamentos e as denúncias públicas sobre as atividades clandestinas foram encaminhados diretamente ao gabinete do Secretário de Segurança Pública de São Paulo, o delegado Osvaldo Nico Gonçalves.

A resposta institucional, contudo, limitou-se a intermediações evasivas por parte da FSB, agência de comunicação terceirizada responsável pela reputação da pasta. Questionada pela reportagem sobre as investigações em curso, a assessoria demonstrou desconhecimento sobre a pauta exaustivamente documentada e enviada ao secretário.

Com a segurança pública ocupando o centro dos debates políticos e eleitorais, a população aguarda esclarecimentos técnicos sobre os seguintes pontos enviados à Secretaria de Segurança:

• Ilegalidade do modus operandi: O uso de sirenes e de sinalizadores do tipo giroflex por segurança privada é proibido por lei. Por que o uso desses equipamentos continua ocorrendo nas ruas da região sem a devida apreensão dos veículos e autuação dos envolvidos?

• Sensação de segurança: Apesar dos investimentos públicos na valorização das carreiras policiais, na compra de armamentos e de viaturas, o que justifica o fato de o cidadão comum ainda recorrer a motociclistas informais por medo de transitar no próprio bairro?

• Acolhimento nas delegacias: Moradores relatam desatenção e recusa de boletins de ocorrência por poluição sonora ou constrangimento ilegal envolvendo os vigias. Existe alguma diretriz para que a Polícia Civil atenda e investigue com maior rigor os chamados pequenos delitos nos bairros?

Enquanto as respostas oficiais não chegam, os moradores da Vila Gomes Cardim, da Chácara Santo Antônio e das adjacências do metrô Carrão seguem divididos entre o pagamento por um serviço sem garantias legais e as noites em claro provocadas pelo barulho das motocicletas.

O espaço segue aberto para as respostas da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo e demais interessados, que serão incluídas assim que recebidas.

 

 


Destaque – Fiação furtada na Rua Henrique Dumont, ‘outra vez e novamente’, durante a madrugada deste domingo (5), enquanto o suposto vigia é pago por alguns moradores para fazer barulho. Foto: aloimage


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