O assunto que é tabu nos meios policiais, provoca reações que divergem totalmente da responsabilidade esperada dos órgãos de segurança pública e resvala na imagem do maior estado da união.
A segurança nos bairros da capital paulista é a principal prioridade da população, segundo os dados da pesquisa “Viver em São Paulo: Qualidade de Vida 2026”. Essa estatística é uma das mais relevantes do amplo levantamento realizado pela Ipsos/Ipec (leia os detalhes).
A Ipsos (Institut Public de Sondage d’Opinion Secteur) é uma das maiores empresas de pesquisa de mercado e opinião pública do mundo. Fundada na França em 1975, atua em cerca de 90 países, inclusive no Brasil. Já o Ipec (Inteligência em Pesquisa e Consultoria Estratégica) é um instituto brasileiro especializado em pesquisas de mercado, opinião pública e política.
Ligações interrompidas bruscamente
Nossa reportagem entrou em contato, na manhã desta terça-feira (19), com a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP) para cobrar o posicionamento oficial sobre o esquema dos vigias noturnos, que opera em várias regiões da capital. O telefonema questionava a falta de resposta da secretaria sobre uma demanda enviada no último dia 1º. A ligação foi atendida por um funcionário que se identificou como Augusto. Porém, questionado quanto a ausência de retorno sobre a atividade clandestina, a ligação foi cortada inesperadamente. Minutos depois, ao checarmos com outro setor do órgão, descobrimos que não há nenhum assessor cadastrado com esse nome.
Há alguns meses, tentamos contato com o 30º Distrito Policial (DP) — unidade que abrange especificamente a região do Tatuapé, zona leste da cidade, onde o problema se manifesta de forma crônica — para falar com o então delegado titular Marcos Kasseb. Ao mencionarmos a poluição sonora e a perturbação do sossego durante o telefonema — além de fatos totalmente alheios à vigilância regular da Polícia Militar e às investigações da Polícia Civil vinculadas àquele distrito —, a ligação também foi interrompida. O caso já havia sido levado ao Conselho de Segurança (Conseg) Tatuapé, que também não se manifesta.
Diversos bairros paulistanos convivem diariamente com um grupo que se traveste de segurança particular, mas que, na verdade, utiliza motos com sirenes barulhentas. De acordo com o depoimento de uma moradora, os vigias fazem pequenos favores cotidianos, como buscar remédios na farmácia para idosos “uma vez ou outra”, que passam a pagar uma cota mensal para ostentar a placa da empresa na fachada. Por trás dessa capa humanitária, existe um forte interesse financeiro. Testemunhos de moradores apontam que os próprios vigias os incentivam a ligar para o celular deles antes de chegarem em suas casas, o serviço é pago.
O avanço do esquema nas ruas
Na região da Vila Gomes Cardim e Chácara Santo Antônio, o responsável pelo esquema recruta terceiros para exercer a atividade nas ruas. Recentemente, a moto passou a utilizar, durante a madrugada, um tipo de sirene que imita quase com exatidão os sinais sonoros das viaturas oficiais da Polícia Militar e da Polícia Civil — um claro aperfeiçoamento de uma atividade exercida em total desacordo com a lei. Sob essa pressão psicológica, os moradores terminam induzidos ou coagidos a pagar pelo serviço. Nas entrevistas realizadas, as pessoas afirmam abertamente que pagam porque o Estado não cumpre o seu papel ou porque simplesmente perderam a confiança na segurança pública oficial.
Várias casas nas imediações da estação Carrão do metrô começaram a exibir placas de vigilância com design semelhante às que já existem na Vila Gomes Cardim e na Chácara Santo Antônio. Coincidentemente, os arredores da estação registram uma alta incidência de furtos, inclusive de automóveis.

Placas fixadas em diversas fachadas na região da Chácara Santo Antônio, no Tatuapé, entre as ruas Novas Jerusalém e Antônio de Barros, mas existem várias outras. Fotos: aloimage
Como essas localidades específicas estão sob a jurisdição do 30º DP, as placas com o nome desse distrito policial chegaram a ser fotografadas por peritos da própria Polícia Civil e constam em um inquérito. O ex-delegado titular da unidade, William Wong, ordenou a retirada dos materiais das fachadas em 2023, mas eles continuam visíveis em diversas residências — algumas das quais fotografadas por nossa equipe. Em depoimentos no inquérito, a justificativa apresentada pelos vigias é de que eles “mantêm contato” com o distrito.
Ao serem abordados, no entanto, um deles sequer possuía a credencial exigida por lei, enquanto o outro apresentou um documento vencido há anos.
Impunidade e legislação falha
A legislação sobre segurança particular não concede permissão para o uso de sirenes, e os guardas de rua não podem exigir ou coagir as pessoas a lhes pagar. Testemunhos gravados pela nossa reportagem confirmam que não é isso o que acontece; muito pelo contrário, usam placas com alusão a uma possível parceria com o 30º DP.
Apesar do acúmulo de depoimentos comprometedores, imagens, laudos periciais e denúncias frequentes na mídia e nas redes sociais, a atividade explora brechas jurídicas que garantem uma impunidade surreal em toda a capital:
• O Psiu Silêncio Urbano (156) da Prefeitura não fiscaliza condutas de pessoas físicas individualmente, e a Guarda Civil Metropolitana (GCM) afirma não ter atribuição para atuar nesses casos.
• A Polícia Militar adota uma postura omissa. Durante o trabalho de campo, nossa equipe já presenciou uma viatura parada e próximo ao local o vigia utilizava a sirene — o nível de ruído já foi comprovado em laudo pericial divulgado.
• A Polícia Civil e o Conselho de Segurança do Tatuapé evitam dar esclarecimentos oficiais. Nas delegacias, os moradores costumam ouvir respostas evasivas, como “se eles tocam é porque as pessoas pagam” ou “isso é só com processo” — discursos distantes da real função investigativa e de polícia judiciária.
• Os reclamantes enfrentam uma via-crúcis: precisam reunir provas, gravar vídeos e contratar perícias por conta própria, elementos que ainda correm o risco de ser desconsiderados por promotores de justiça, como já mostramos em reportagens anteriores sobre o longo embate contra a poluição sonora noturna.
• O Ministério Público de São Paulo não toma iniciativas de ofício e não responde aos questionamentos da reportagem. Embora tenha publicado uma cartilha contra a poluição sonora, o órgão não incluiu no documento essa atividade específica, que viola diretamente o artigo 42 da Lei das Contravenções Penais e a legislação ambiental.
• A CET, mesmo informada sobre as infrações diárias de trânsito, declarou em resposta oficial que não possui obrigação legal de fiscalizar a atividade. Com isso, ignora o tráfego na contramão e o uso de dispositivos sonoros proibidos nas vias públicas.
Esquema clandestino consolidado?
Pior do que essa situação vexaminosa que se esconde da prevaricação transformando em erro administrativo a inépcia investigativa — mais uma das brechas para não investigar essa atividade perniciosa —, consolidou-se a instituição de um esquema clandestino impune. Enquanto a população clama por segurança e fica à mercê dessa ilegalidade, a responsabilidade por essa total inércia recai sobre o governo paulista, ao qual os principais órgãos de segurança estão subordinados.
O resultado é uma atividade que opera com requintes de impunidade diante dos olhos e ouvidos de todos, e pleno conhecimento das autoridades policiais. Tudo isso continua ocorrendo a despeito dos vultosos investimentos recentes na valorização das carreiras e dos salários das polícias paulistas.
O estado mais rico e avançado do país permanece refém de motociclistas que dominam as madrugadas com sirenes ilegais e cobram proteção aos moradores, enquanto a população clama por segurança e pelo direito básico ao sossego e ao descanso noturno.
Todas as reportagens sobre o tema podem ser lidas na página especial: Poluição Sonora dos vigias noturnos. Detalhes desta nova série de reportagens também pode ser acompanhada nas seções de Segurança e Tatuapé.
Destaque – Montagem mostra as imagens feitas para outra reportagem especial em abril do ano passado: apesar das provas e denúncias nada muda. Imagens: aloart / G. I.



