Em entrevista ao Jornal da USP, Aluisio Segurado fala sobre a ocupação da Reitoria e das demandas do movimento estudantil


O reitor da USP, Aluisio Augusto Cotrim Segurado, concedeu a entrevista durante a tarde desta sexta-feira (8), falando a respeito dos últimos acontecimentos. Na quinta-feira (7), os estudantes invadiram e ocuparam o prédio da Reitoria, impedindo o acesso dos trabalhadores e o funcionamento das atividades administrativas da Universidade.

A gestão, ao lado da vice-reitora, Liedi Bernucci, completou 100 dias esta semana. Na entrevista foram abordados os temas citados pelos estudantes, sobre os investimentos da Universidade nas ações de permanência estudantil e a respeito da Gratificação por Atividades Complementares Estratégicas (Gace) concedida aos docentes.

Na avaliação de segurado, a ocupação é um ato de violência e agressão ao patrimônio público. Ele citou a derrubada do portão da entrada do principal prédio da Reitoria e das portas de vidro do hall de entrada do prédio, mencionando a paralisação de atividades da Administração Central. “A Universidade está sofrendo prejuízos com a interrupção de várias de suas atividades essenciais, tanto administrativas quanto acadêmicas.”

Segundo o entrevistado, a quase totalidade das Unidades se manifestou em repúdio ao ato estudantil.

Ao ser questionado sobre a extensão do movimento de paralisação dos estudantes nos campi da universidade, Segurado informou que a USP atua em sete diferentes campi. “Atualmente, nós temos uma paralisação parcial de algumas unidades no campus do Butantã, no campus USP Leste e na área da saúde, em Pinheiros. Temos, também, paralisação parcial no campus de São Carlos. Nas demais unidades, localizadas nos campi de Lorena, Bauru, Piracicaba, Pirassununga e Ribeirão Preto, as atividades seguem normais.”

Negociações com os estudantes

“Negociação deve ser consenso entre as partes, não imposição. Não cabe mais negociação quando uma das partes entende que ela só termina com o atendimento total de todas as demandas. A ocupação neste momento impede o funcionamento dos próprios grupos de trabalho, que já poderiam estar avançando na busca de soluções para algumas dessas demandas”, argumentou.

Sobre a previsão de nova rodada de negociação, o reitor afirmou ao jornal que, no dia 14 de abril, foram mais de 20 horas de negociações com a participação de 25 representantes dos estudantes.

“Foram várias horas debatendo todas as suas demandas, que organizamos em três naturezas. Primeiro, demandas pertinentes às questões estudantis e que poderiam já ser equacionadas, e foram.”

O segundo ponto abrange estudos e avaliações orçamentárias para implementação que podem envolver as Pró-Reitorias. Para isso foram criados grupos de trabalho.

“E, na verdade, a ocupação neste momento impede o funcionamento desses próprios grupos, que já poderiam estar avançando no atendimento ou na busca de soluções para algumas das demandas”, observou.

Quanto ao terceiro ponto, trata-se das demandas julgadas pela reitoria como inaceitáveis. “Cito aqui a reivindicação referente ao aumento dos valores dos auxílios de permanência estudantil. A USP tem o maior programa de apoio à permanência estudantil do Brasil e investe mais de R$ 460 milhões por ano em programas de apoio à permanência estudantil, tanto em auxílios financeiros para estudantes em vulnerabilidade socioeconômica quanto em programas de bolsas ligados a ensino, pesquisa, inovação, cultura, extensão, inclusão e pertencimento.”

Propostas

De acordo com Aluisio Segurado, foi apresentada a proposta de R$ 912 na modalidade integral (valor financeiro máximo mensal) para 2026. Todavia, os estudantes reivindicaram o valor de um salário mínimo paulista, administrativamente incompatível com o orçamento da Universidade, conforme o entrevistado.

“Essa reivindicação já lhes foi apresentada como impossível de ser atendida. No entanto, parece que a negociação, para eles, só se encerraria com o atendimento integral de todas as reivindicações formuladas”, enfatizou.

A reitoria explica que a Universidade atribui enorme importância aos programas de bolsas de inserção acadêmica. “Além do auxílio financeiro por vulnerabilidade socioeconômica, temos diversos programas de bolsas de ensino, pesquisa, cultura e extensão, que variam de R$ 745 a R$ 2.100 e podem ser acumulados com o auxílio”.

Qualidade da alimentação

A entrevista segue quanto ao item que toca ao ‘bolso’ da instituição. O movimento estudantil argumenta que a USP teria hoje cerca de R$ 10 bilhões em caixa e que, portanto, não seria difícil equivaler o auxílio permanência ao salário mínimo paulista.

Segurado expõe que a cifra é destinada a outras áreas da Universidade, enquanto a permanência estudantil possui um orçamento de 460 milhões por ano. “É importante que os estudantes compreendam que o orçamento da instituição precisa atender ao conjunto da missão universitária, e não apenas às demandas estudantis.”

Quanto às demandas apresentadas pelos estudantes nas questões relacionadas à qualidade da alimentação, o reitor disse que “a alimentação saudável de toda a comunidade acadêmica é uma prioridade para a Reitoria”. Segundo ele, as questões pontuais estão sendo tratadas diretamente com as empresas responsáveis pelo serviço.

O reitor cita laudos da Vigilância Sanitária e disse que “a Universidade seguirá trabalhando para garantir a qualidade e o valor nutricional da alimentação oferecida aos estudantes e ampliamos o número de refeições em alguns restaurantes, passando a oferecer café da manhã, almoço e jantar de segunda a sábado, atendendo a uma reivindicação antiga dos estudantes”.

Crusp (Conjunto Residencial da USP)

Outra reivindicação do movimento estudantil refere-se ao estado de conservação do Crusp. O entrevistado afirmou que os problemas já existiam. Segundo ele, desde o início da atual gestão, em janeiro deste ano, um grupo de trabalho específico vem atuando em questões de manutenção predial, reforma de espaços, ampliação do acesso à internet e melhorias nos elevadores, entre outras demandas.

“Durante as negociações com os estudantes, outras solicitações foram incorporadas, como a instalação de filtros de água em todos os andares dos blocos. Essas demandas foram acolhidas pela comissão de negociação e estão sendo encaminhadas pelos grupos responsáveis, incluindo os processos de contratação necessários para execução dos serviços.”

A última questão referiu-se à aprovação da Gratificação por Atividades Complementares Estratégicas (Gace) para docentes, seguida de um montante financeiro de igual valor aos servidores técnico-administrativos. Esse fato teria sido o estopim para as reivindicações estudantis.

“É preciso separar as coisas e entender o planejamento da Universidade. A valorização das carreiras dos nossos docentes e dos nossos servidores técnico-administrativos são pautas que já estavam sendo trabalhadas há anos. São medidas fundamentais para a manutenção da excelência e da qualidade da instituição. Além disso, por conta das restrições impostas pela lei eleitoral, essas melhorias e reajustes só poderão ser efetivamente implementados no próximo ano.”

Referindo-se ao investimento de R$ 460 milhões da USP na permanência estudantil, o reitor Aluisio Segurado conclui:

“Para se ter uma dimensão do que isso representa, esse montante é o dobro do valor total que está projetado para o pagamento das gratificações de todos os servidores e docentes da Universidade. Portanto, o investimento no aluno não só é prioridade, como é, em termos orçamentários, significativamente superior ao que está sendo destinado à valorização das carreiras no momento.”


Com as informações de Michel Sitnik | Jornal da USP


Destaque – O reitor Aluisio Augusto Cotrim Segurado – Foto: Marcos Santos / USP Imagens


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