Evento mostra por que o futuro da educação ainda é humano.
O segundo dia da Bett Brasil 2026, no Expo Center Norte em São Paulo, consolidou a visão de que a tecnologia deve ser uma aliada, e não substituta, do educador. Com o lançamento inédito do relatório da OCDE sobre IA generativa na educação, traduzido pelo Instituto Salto, o evento trouxe diretrizes cruciais para gestores e professores. Entre debates sobre saúde mental, o impacto das apostas online (Bets) e o protagonismo docente, especialistas como Leandro Karnal e Walter Longo reforçaram que a transformação educacional depende de uma mediação humana qualificada.
A 31ª edição da Bett Brasil foi aberta no dia 5 de maio de 2026, com o tema “Inteligências Individuais, Coletivas e Artificiais: todas em nós, agora! Quando elas dialogam, a educação se transforma”, no Expo Center Norte na capital paulista. Nesta quarta-feira (6), o maior evento de Inovação e Tecnologia para a Educação da América Latina trouxe uma mensagem clara para educadores, gestores e especialistas: em meio ao avanço acelerado da inteligência artificial, o fator humano nunca foi tão decisivo para o futuro da educação.
Um dos momentos mais relevantes da programação foi o lançamento do relatório da OCDE – Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico. Agora, o Brasil passa a ter acesso gratuito, em português, ao principal documento internacional sobre inteligência artificial generativa na educação.
Durante o Summit IA na Educação, o Instituto Salto apresentou a tradução integral da OCDE Digital Education Outlook 2026: Exploring Effective Uses of Generative AI in Education. A obra reúne, em 13 capítulos com evidências comparadas, estudos de caso e entrevistas com pesquisadores e gestores de diferentes países sobre o uso da IA generativa na educação.
Relatório da OCDE: Guia inédito sobre IA generativa chega ao Brasil
A apresentação do material foi conduzida por Rafael Parente, diretor-executivo do Instituto Salto, e Lúcia Dellagnelo, diretora-adjunta de Educação e Habilidades da OCDE e doutora por Harvard.
“A escola brasileira já está atravessada pela inteligência artificial. O que faltava era uma base pública, rigorosa e acessível, em português, para orientar decisões responsáveis de gestores e lideranças educacionais”, destaca Parente.
Lúcia Dellagnelo destacou que o uso de ferramentas de IA generativa, por si só, não garante aprendizagem — e pode, inclusive, comprometer a compreensão quando utilizadas sem intencionalidade pedagógica. “Utilizar IA generativa para realizar tarefas não é o mesmo que aprender com ela. O ganho educacional acontece quando há mediação qualificada e desenho pedagógico adequado, conduzido pelo professor”, explica.
Segundo ela, ferramentas de uso geral podem trazer oportunidades importantes, como abordagens mais conversacionais, flexíveis e adaptáveis a diferentes disciplinas. No entanto, ainda apresentam desafios relevantes, como erros ocasionais (as chamadas “alucinações”) e a necessidade de tornar as experiências mais engajadoras para promover aprendizagem real.
Entre as principais lições destacadas pelo relatório, está a importância de manter o professor no centro do processo educativo. “Algoritmos podem sugerir caminhos, mas são os educadores que precisam decidir. Nenhum plano de aula com IA substitui o julgamento profissional docente”, reforça Lúcia.
A obra está disponível sob licença aberta CC BY 4.0, e o download pode ser feito por meio deste link. A ideia do estudo é que, a partir dele, sejam criadas políticas públicas para o uso responsável da IA, o investimento na formação de professores, o avanço em regulação para proteção de dados e o estímulo à pesquisa sobre os impactos da tecnologia na aprendizagem.
“Estamos entrando em uma fase de ‘educação aumentada por IA’. Isso significa que a tecnologia deixa de ser acessório e passa a integrar a estrutura do ensino, exigindo revisão de currículo, avaliação e práticas pedagógicas”, completou Rafael Parente.
O papel do professor na era da “educação aumentada”
Participaram da plenária principal do Congresso de Educação Básica o historiador Leandro Karnal e Leo Chaves, fundador da EAI Educa.
Deslocando o olhar para as competências socioemocionais, Karnal observa: “Quando eu recuso a tecnologia, eu recuso a ferramenta. Recusar a IA é rejeitar uma ferramenta poderosa de auxílio e inteligência. É preciso se reinventar. Esse é o desafio neste momento. Não é a IA que vai nos salvar, vão ser os professores. Eles são a maior tecnologia educacional que temos”, declarou.
Por sua vez, Leo Chaves complementou: “O poder de liderança e influência que os professores têm de exercer na sociedade é insubstituível”.
Desafios da hiperconectividade: Saúde mental e o impacto das apostas online
No Fórum de Gestores, a palestra “Entre Likes e Leis” trouxe à tona um dos temas mais sensíveis da atualidade: os impactos da hiperconectividade na adolescência, com a participação de Caio Lo Bianco, CEO do LIV, e da juíza Vanessa Cavalieri, que discutiram o uso excessivo de telas, cidadania digital, legislação e os efeitos das plataformas na saúde mental dos jovens, incluindo as novas diretrizes previstas na Lei nº 15.211/2025, que estabelece limites para atuação das plataformas digitais com menores.
A discussão também avançou para um tema que tem preocupado educadores, famílias e formuladores de políticas públicas: o crescimento das apostas online entre jovens, as famosas bets. Os especialistas destacaram que a lógica de gamificação dessas plataformas, associada à sensação de recompensa imediata, tem ampliado o risco de dependência, um comportamento que já é classificado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como transtorno relacionado a jogos.
Dados recentes reforçam a dimensão do problema. Segundo levantamento da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES), 34% dos jovens entre 18 e 35 anos que planejavam ingressar no ensino superior em 2025 adiaram a matrícula por conta de gastos com apostas — o que representa quase 1 milhão de pessoas fora das universidades.
Encerrando os destaques do dia, o empresário Walter Longo trouxe uma reflexão provocadora sobre o avanço da inteligência artificial durante uma roda de conversa. Em uma abordagem mais humanística e menos alarmista, ele convidou o público a olhar para a tecnologia não como ameaça, mas como expansão das capacidades humanas.
“A inteligência artificial não é o fim da inteligência humana, é o começo da nossa versão ampliada. O desafio não é competir com a máquina, mas entender como ela pode potencializar aquilo que nos torna humanos, por meio da nossa criatividade, nossa ética e nossa capacidade de fazer perguntas melhores”, afirmou.
Para Longo, o momento exige menos medo e mais lucidez. Segundo ele, o papel da educação é justamente preparar indivíduos para esse novo cenário, em que tecnologia e pensamento crítico caminham juntos. “A revolução já começou, e ela pede uma mudança de mentalidade. Não se trata de substituir pessoas, mas de ampliar possibilidades, permitindo, necessariamente, pela forma como educamos e pensamos”, concluiu.
Inscrições para visitas
Além da programação que deve atingir mais de 144 horas de conteúdo, a Bett Brasil 2026 está reunindo durante estes dias mais de 330 marcas nacionais e internacionais em sua área de exposição, apresentando soluções, tecnologias e serviços para todos os níveis de ensino.
A programação segue até o dia 8 de maio, das 9h às 19h, com visitação gratuita, em que as inscrições podem ser feitas no site oficial do evento.
Destaque – Foto: Bett Brasil




