No Brasil, dados apontam que até 50% da população apresenta deficiência de ferro, a principal causa da doença que impacta o transporte de oxigênio no organismo
O mês de junho é marcado pela campanha Junho Laranja, uma iniciativa dedicada à conscientização sobre a anemia e a leucemia. Apesar de ser uma das condições de saúde mais comuns no planeta, a anemia ainda é cercada por dúvidas e informações equivocadas que podem atrasar o diagnóstico e o início do tratamento adequado.
Os dados epidemiológicos revelam a magnitude do problema: de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 30% da população mundial vive com algum tipo de anemia. No cenário nacional, o panorama é ainda mais desafiador. Dados do Ministério da Saúde apontam que até metade da população brasileira (50%) apresenta deficiência de ferro, o principal gatilho para o desenvolvimento da doença. O problema atinge de forma direta e alarmante três grupos principais: crianças pequenas, mulheres em idade fértil e gestantes.
A condição se caracteriza pela diminuição da quantidade de hemoglobinas no sangue — proteínas responsáveis por transportar o oxigênio para todos os órgãos e tecidos do corpo. A escassez desse elemento pode acarretar fadiga extrema, problemas cardíacos (como arritmias e insuficiência), comprometimento cognitivo e, em quadros críticos, a falência de múltiplos órgãos.
Segundo o hematologista Dr. Pedro Neffá, do Hospital São Luiz Itaim, da Rede D’Or, a patologia exige seriedade na investigação. “Existem diferentes causas para a anemia, desde deficiências nutricionais até doenças hereditárias, alterações da medula óssea e perdas sanguíneas importantes. Por isso, todo caso deve ser investigado adequadamente”, explica.
Para esclarecer o tema, o especialista detalha abaixo os 7 principais mitos e verdades sobre a condição.
1. Apenas gestantes fazem parte do grupo de risco
MITO. Embora a gravidez aumente substancialmente a demanda de nutrientes pelo organismo e favoreça o quadro anêmico, outros grupos apresentam vulnerabilidade elevada. Crianças e bebês necessitam de alta densidade de nutrientes para o crescimento; idosos e pacientes submetidos à cirurgia bariátrica costumam sofrer com dificuldades severas na absorção de vitaminas e minerais no trato digestivo.
“As mulheres em idade fértil também merecem atenção devido às perdas sanguíneas repetidas durante o período menstrual”, destaca o hematologista.
2. Toda anemia é causada pela falta de ferro
MITO. A carência de ferro (anemia ferropriva) lidera as estatísticas como a causa mais frequente, mas está longe de ser a única fonte do problema.
“Além da falta de ferro, a anemia pode ocorrer por deficiência de vitamina B12, ácido fólico, doenças renais crônicas, alterações estruturais da medula óssea e condições hereditárias, como a anemia falciforme”, pontua o Dr. Pedro Neffá.
3. Cansaço é o único sintoma da anemia
MITO. A fadiga e a indisposição são os sinais mais célebres, mas o corpo emite outros alertas. Palidez cutânea e nas mucosas (como na parte interna dos olhos), tonturas frequentes, dores de cabeça constantes, queda acentuada de cabelo e unhas quebradiças também servem como indicadores. Em estágios avançados, o paciente sente falta de ar e aceleração dos batimentos cardíacos após esforços mínimos.
Outro sinal clínico peculiar é a “perversão do apetite” (pica), que gera o desejo compulsivo de mastigar substâncias sem valor nutricional, como pedras de gelo. O especialista alerta, contudo, que sintomas associados à perda visível de sangue nas fezes exigem busca imediata por um pronto-socorro.
4. Feijão e beterraba podem curar a anemia
VERDADE EM PARTES. O feijão é um excelente aliado e carrega uma quantidade expressiva de ferro. No entanto, o nutriente de origem vegetal (ferro não-heme) possui uma taxa de absorção significativamente menor pelo intestino se comparado ao ferro presente nas carnes vermelhas (ferro heme).
“A associação com alimentos ricos em vitamina C, como laranja e limão na mesma refeição, ajuda a melhorar a absorção do ferro vegetal”, orienta o médico.
Já a beterraba, ao contrário do que dita a crença popular, possui uma quantidade reduzida de ferro. Sua fama terapêutica atrela-se exclusivamente à sua cor vermelha intensa, e não ao seu real potencial de correção nutricional.
5. Transfusão de sangue pode ser utilizada no tratamento
VERDADE. O procedimento faz parte do arsenal terapêutico médico, mas fica restrito a cenários críticos. Na esmagadora maioria dos diagnósticos, o tratamento é conduzido via readequação alimentar e reposição programada de ferro ou vitaminas por via oral ou aplicação endovenosa.
“A transfusão é indicada quando há risco imediato à vida devido à queda crítica da hemoglobina ou em situações de hemorrágica aguda e importante”, esclarece o profissional do Hospital São Luiz Itaim.
6. Suplementos de ferro ajudam a emagrecer
MITO. Não existe qualquer base ou comprovação científica de que a ingestão de suplementos de ferro atue diretamente na queima de gordura corporal ou aceleração metabólica. O que ocorre é que, ao corrigir a anemia, o paciente recupera a disposição física, o que facilita o retorno à rotina de exercícios e gastos calóricos diários.
7. A anemia pode evoluir para leucemia
MITO. Uma condição não se transforma na outra. “A leucemia é um câncer que se origina na medula óssea e tem a anemia como um de seus sintomas, decorrente da queda de produção das células saudáveis. No entanto, uma anemia gerada por deficiência nutricional jamais evoluirá para um quadro oncológico”, desmistifica o hematologista.
Prevenção e diagnóstico precoce
A melhor forma de prevenção baseia-se na manutenção de uma dieta equilibrada, composta por carnes vermelhas e brancas, leguminosas, grãos e vegetais de folhas verde-escuras. Paralelamente, a realização de exames laboratoriais de rotina, como o hemograma completo, é a ferramenta mais eficaz para detectar oscilações nos níveis sanguíneos antes do agravamento dos sintomas.
O Dr. Pedro Neffá reforça o perigo da automedicação: “O tratamento nunca deve ser feito por conta própria. O excesso de ferro no organismo também é tóxico e pode causar danos severos a órgãos como o fígado e o coração. O acompanhamento médico é indispensável para isolar a causa exata e definir a melhor conduta para cada indivíduo”.
Destaque – Junho Laranja: OMS alerta que anemia afeta 30% da população mundial. Imagem: aloart / G.I.



