Estudo do Dieese revela que a alta acumulada dos alimentos supera o índice geral de inflação, atinge com mais força as famílias de baixa renda e corrói o poder de compra do salário mínimo


A inflação voltou a ocupar a posição central no debate econômico e no orçamento da população brasileira em 2026. Embora os índices gerais de preços venham se mantendo relativamente controlados, a inflação do grupo de alimentos e bebidas registra forte aceleração, acumulando altas expressivas e consolidando preços em patamares muito superiores aos registrados antes da pandemia. É o que revela o Boletim de Conjuntura nº 55 do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), apontando que a pressão sobre os itens essenciais da mesa do trabalhador agrava as desigualdades sociais e impõe severos limites à capacidade de consumo da classe trabalhadora.

Entre janeiro e maio de 2026, enquanto a inflação oficial medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) registrou alta de 3,20%, o grupo de alimentos e bebidas avançou 4,81%. O encarecimento é ainda mais pronunciado na alimentação consumida no domicílio, cujos preços saltaram 5,68% no mesmo período. A discrepância demonstra que os alimentos estão subindo em ritmo significativamente superior à média da inflação do país, penalizando sobretudo as famílias com menor poder aquisitivo.

O impacto desigual da inflação por faixa de renda

A aceleração da inflação alimentar afeta a sociedade de maneira profunda e desigual. Como a alimentação compromete uma fatia muito maior da renda das famílias mais pobres, a alta contínua dos alimentos eleva diretamente o custo de vida desse segmento. De acordo com a desagregação do IPCA por faixa de renda citada pelo Dieese, a inflação acumulada até maio de 2026 para as famílias de renda muito baixa atingiu 3,46% — o que representa 0,63 ponto percentual a mais do que o índice apurado para as famílias de renda muito alta, que ficou em 2,83%.

Esse diferencial inflacionário coloca as populações de menor renda em situação de extrema vulnerabilidade social, forçando o trabalhador a realizar escolhas dramáticas entre o pagamento de serviços básicos essenciais — como água, luz e moradia — e a aquisição de itens mínimos para a garantia da segurança alimentar de sua família.

A mudança estrutural de patamar e os choques de oferta

Mais do que o surto inflacionário recente, a análise do Dieese chama a atenção para um fenômeno estrutural consolidado após a pandemia de Covid-19: os alimentos essenciais passaram a operar em um novo e elevado patamar de preços. Mesmo após a normalização parcial da produção e das cadeias de abastecimento, os preços não retornarão aos níveis históricos pré-pandemia. Isso explica por que a percepção da inflação pelo consumidor permanece extremamente elevada, a despeito das metas oficiais do governo.

Entre maio de 2019 e maio de 2026, enquanto a inflação geral acumulada pelo IPCA foi de 62,03%, a alimentação no domicílio registrou um salto de 96,42%. Vários produtos da cesta básica registraram aumentos exorbitantes no município de São Paulo:

• Carne bovina de primeira: passou de R$ 25,44 para R$ 55,25 o quilo, uma alta expressiva de 117,18%.
• Café em pó: acumulou alta de 227,14% no período, subindo de R$ 19,16 para R$ 62,68 o quilo.
• Óleo de soja: registrou aumento de 141,62%, passando de R$ 3,34 para R$ 8,07 o litro.
• Outros itens: o tomate acumulou alta de 81,82%, o açúcar refinado subiu 81,94%, o leite tipo C aumentou 79,75% e a batata acumulou 76,76% de elevação.

O levantamento atribui essa espiral inflacionária a uma combinação complexa de choques de oferta. Fatores climáticos extremos — como a atuação recorrente do fenômeno El Niño —, a perda de áreas cultivadas, a elevação dos custos de insumos agrícolas no cenário internacional (como os fertilizantes, afetados por conflitos geopolíticos) e a forte oscilação das commodities nas bolsas mundiais pressionam a produção nacional. Além disso, a elevada concentração de mercado nas mãos de poucas grandes corporações no setor alimentício dificulta o repasse de eventuais quedas de custos para os preços finais praticados ao consumidor.

Corrosão do poder de compra e o papel dos estoques públicos

A disparada dos preços dos alimentos impacta de forma direta o poder de compra do salário mínimo. Em 2019, o piso nacional permitia comprar o equivalente a 2,04 cestas básicas na cidade de São Paulo. Com a aceleração da inflação dos alimentos e o congelamento das políticas de valorização em anos anteriores, essa relação caiu para seus menores níveis históricos entre 2021 e 2022 (atingindo 1,59 cesta). A despeito do retorno da política de valorização real do salário mínimo, em maio de 2026 o trabalhador conseguia adquirir apenas 1,82 cesta básica — mantendo o poder de compra abaixo do nível pré-pandemia.

Diante desse quadro inflacionário alimentado por fatores de oferta, o Dieese aponta limitações graves na resposta tradicional da política monetária. O aumento contínuo da taxa básica de juros (Selic) pelo Banco Central tem eficácia limitada para conter altas causadas por secas, guerras ou cotações internacionais de commodities. Ao contrário, juros elevados encarecem o crédito produtivo, inibem investimentos na expansão da oferta de alimentos, aumentam o endividamento familiar e estrangulam o orçamento público destinado a investimentos sociais essenciais.

Para conter a inflação de alimentos de forma sustentável e permanente, a publicação defende o fortalecimento de instrumentos estruturais, como a recomposição dos estoques públicos reguladores mantidos pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), o fortalecimento da infraestrutura de armazenagem, o apoio à agricultura familiar e o uso de mecanismos de controle e planejamento da produção nacional.


Destaque – Dieese aponta alta contínua dos alimentos em 2026 e discute limites dos juros no controle da inflação. Imagem: aloart / G. I.


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