Entidade defende aceleração do ciclo de cortes da Selic para aliviar o endividamento, conter a compressão das margens industriais e destravar o crescimento do consumo no país.


A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central de reduzir a taxa básica de juros (Selic) em 0,25 ponto percentual — anunciada no último dia 16 — fixando-a em 13,75% ao ano, foi avaliada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) como um passo na direção correta, porém excessivamente cauteloso. A entidade sustenta que o ritmo do afrouxamento monetário permanece aquém do necessário para mitigar os efeitos do crédito encarecido sobre o setor produtivo e o orçamento das famílias, ressaltando que há espaço claro para cortes mais expressivos sem comprometer a trajetória de convergência da inflação para a meta de 3% ao ano.

O diagnóstico da indústria fundamenta-se na desaceleração consistente da inflação corrente, que alcançou 4,22% no acumulado em 12 meses até agosto, e na consolidação das expectativas do mercado. Sob a ótica da entidade, a manutenção da política monetária em patamar fortemente contracionista impõe custos severos à atividade econômica. Atualmente, o juro real brasileiro situa-se em torno de 9% — patamar aproximadamente quatro pontos percentuais acima da taxa neutra estimada pelo próprio Banco Central, calculada em 5%. Cálculos da CNI baseados na Regra de Taylor indicam que a taxa nominal compatível com o cenário econômico do segundo trimestre seria de 10,3% ao ano, evidenciando a margem existente para a flexibilização.

O presidente da CNI, Ricardo Alban, enfatiza a urgência de dar continuidade e maior intensidade ao ciclo de distensão monetária para evitar perdas desnecessárias ao dinamismo do país. De acordo com o executivo, manter a taxa básica em nível tão restritivo por um período prolongado impõe à economia um custo muito superior ao exigido para garantir a estabilidade dos preços, reiterando que o contexto atual permite avançar na redução dos juros mantendo o controle inflacionário.

Encarecimento do crédito, inadimplência recorde e compressão de margens

Os reflexos da Selic elevada manifestam-se de forma direta no custo do financiamento bancário. Em julho, a taxa média do crédito com recursos livres atingiu 47,7% ao ano, registrando alta de 1,8 ponto percentual em 12 meses. O impacto pesou com mais força sobre as pessoas físicas, cujas taxas médias escalaram para 60% ao ano, enquanto o custo médio para as pessoas jurídicas situou-se em 25,4% ao ano.

Essa elevação contínua do custo do dinheiro deteriorou a capacidade de pagamento dos tomadores. A inadimplência no segmento de recursos livres para pessoas físicas alcançou 7,8%, atingindo o patamar mais elevado da série histórica, ao mesmo tempo em que a taxa entre empresas subiu para 4,2%. No âmbito familiar, o endividamento comprometeu 49,8% da renda em junho, aproximando-se do recorde histórico de 49,9%, com o serviço da dívida absorvendo 28,9% do rendimento mensal.

No setor industrial, o cenário reflete-se em forte pressão operacional. A Consulta Empresarial sobre Juros, Crédito e Custos Financeiros, realizada pela CNI com 179 empresas de 28 setores, aponta que mais da metade das indústrias projeta aumento na necessidade de capital de giro para os próximos três meses — sobretudo para honrar contas a pagar (56%), manter estoques (50%) e gerir contas a receber (49%). Entre as companhias que demandarão mais crédito, 60% preveem alta nas taxas cobradas pelos bancos. Diante do dilema de repassar custos ou perder competitividade, 53% das empresas optaram por manter os preços inalterados, o que resultará em compressão da margem líquida para 57% dos entrevistados.

Desaceleração da atividade econômica e perda de ritmo do consumo

O aperto das condições financeiras reflete-se no arrefecimento do nível de atividade. O Produto Interno Bruto (PIB) registrou expansão de 0,5% no segundo trimestre de 2026, desacelerando em relação ao crescimento de 1,1% observado no período anterior. A perda de tração foi puxada pela demanda interna: o consumo das famílias recuou 0,4%, e a indústria de transformação permaneceu estagnada, com o avanço industrial restrito ao desempenho do setor extrativo, que cresceu 3,4%.

A deterioração das expectativas do setor fabril é corroborada pelo Índice dos Gerentes de Compras (PMI) da Indústria da S&P Global, que recuou de 47,5 pontos em julho para 46,3 em agosto — menor nível registrado nos últimos 40 meses. A CNI destaca ainda que a resiliência do mercado de trabalho, com taxas de ocupação e renda em níveis elevados, não tem sido suficiente para alavancar o consumo doméstico, uma vez que os ganhos assalariados continuam sendo drenados pelo alto custo do serviço das dívidas. Para a entidade, o dinamismo do emprego não configura excesso de demanda e não justifica a retenção do processo de corte dos juros.


Destaque – CNI aponta que Selic elevada encarece o crédito, eleva a inadimplência e pressiona a margem líquida das empresas brasileiras. Imagem: aloart / G.I. / IA image


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