Equipamento municipal opera na contramão de levantamentos nacionais que apontam a perda de 55,4 milhões de toneladas de comida por ano no país.


O contraste entre a perda de insumos e a vulnerabilidade social permanece central no debate público brasileiro. Levantamentos do Relatório Diagnóstico sobre a Fome e o Desperdício de Alimentos no Brasil, elaborado pela organização Pacto Contra a Fome, apontam que o país produz 161,3 milhões de toneladas de comida por ano, mas descarta 55,4 milhões desse montante. O volume perdido representa cerca de um terço de toda a produção nacional, enquanto três em cada dez famílias enfrentam algum grau de insegurança alimentar. Embora o país se mantenha fora do Mapa da Fome na avaliação da FAO de 2026, a garantia do acesso regular à alimentação exige ações contínuas.

No âmbito federal, a Comissão de Agricultura do Senado aprovou em abril o Projeto de Lei 3209/2024, que exige de cada município um plano local alinhado à Política Nacional de Combate à Perda e ao Desperdício de Alimentos, criada em setembro de 2025. A proposta aguarda deliberação na Comissão de Assuntos Sociais do Congresso Nacional.

A atuação do Banco de Alimentos na capital paulista

Em São Paulo, a gestão municipal já opera de forma adiantada em relação às diretrizes nacionais. O Banco de Alimentos Municipal, administrado pela Secretaria Executiva de Segurança Alimentar e Nutricional e de Abastecimento (SESANA), recolhe e redistribui doações vindas de supermercados, atacadistas, feirantes e doadores individuais desde 2002. Para assegurar a integridade do que é entregue às entidades sociais, os itens passam por triagens sanitárias que aproveitam produtos com avarias na embalagem sem valor comercial, além de acelerar o fluxo de entrega dos lotes próximos do vencimento.

Entre janeiro e agosto de 2026, o equipamento destinou 391 toneladas de suprimentos para organizações cadastradas, sendo 55 toneladas distribuídas apenas no mês de agosto. Grandes volumes de secos como arroz, açúcar e farinha, além de ração animal, são fracionados em pacotes de um quilo para as gôndolas dos Armazéns Solidários. Outra parte dos alimentos abastece as oficinas culinárias dos CRESANs Butantã e Vila Maria, focadas no ensino do aproveitamento integral dos insumos e na educação alimentar.

Infraestrutura de armazenamento e circuitos curtos de abastecimento

As etapas de transporte e armazenamento respondem por 10,8 milhões de toneladas das perdas agrícolas no país. Para contornar esse gargalo, o Banco de Alimentos utiliza uma câmara fria reformada com 46 metros quadrados e 138 metros cúbicos de capacidade, o que permitiu ampliar a recepção de hortifrutis e prolongar a vida útil de frutas, legumes e verduras.

Na zona Sul, desde agosto de 2025, o Armazém Solidário do M’Boi Mirim recebe hortaliças convencionais, orgânicas e agroecológicas cultivadas por agricultores do programa Sampa+Rural, da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico e Trabalho (SMDET). A parceria encurta a distância entre a produção em Parelheiros e os consumidores de M’Boi Mirim, reduzindo perdas e movimentando a economia local com entregas duas vezes por semana.

A iniciativa dialoga com a segunda edição do Plano Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional (PLAMSAN), em fase de elaboração. Segundo o secretário executivo da SESANA, Vítor Arruda, viabilizar o acesso a orgânicos cultivados na própria capital fortalece a renda dos agricultores paulistanos e garante refeições saudáveis aos cidadãos que mais precisam.

 

São Paulo conquistou o título do Guinness World Records de maior programa municipal de segurança alimentar do mundo. Imagem: Prefeitura de SP

 

Maior programa de segurança alimentar do planeta em 2025

A rede de proteção social paulistana recebeu o reconhecimento do Guinness World Records em dezembro de 2025, que declarou a capital como detentora do maior programa municipal de segurança alimentar do mundo após a distribuição de mais de 933 toneladas de alimentos em 24 horas. Ao todo, a cidade viabiliza mais de 3 milhões de refeições diárias por meio de marmitas prontas, cestas básicas e doações in natura.

A estrutura da SESANA reúne cerca de 200 equipamentos públicos municipais. A rede abrange o programa Rede Cozinha Cidadã, com 15 mil refeições diárias; 65 unidades do Rede Cozinha Escola, que servem 26 mil pratos por dia; sete unidades do Armazém Solidário com desconto de até 50% para inscritos no CadÚnico; o Banco de Alimentos; os Mercados e Sacolões Municipais; as Feiras Livres; as Centrais de Abastecimento Leste e Pari; além da entrega de cestas básicas pelo Programa Cidade Solidária.

Essa estrutura foi utilizada recentemente para viabilizar a entrega de marmitas aos moradores do Jardim Lapenna, por meio da Rede Cozinha Cidadã, composta por 75 restaurantes cadastrados. Conforme divulgado neste sábado (19) pela Sesana, desde o último dia 12, já foram distribuídas cerca de 1.800 diárias, num total de 9 mil refeições em 5 dias, aos atingidos pelas fortes chuvas na capital.


Destaque – Banco de Alimentos de São Paulo arrecada 391 toneladas de alimentos e combate o desperdício na capital. Imagem: Divulgação / Prefeitura de São Paulo.


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