Estudo do Ipea indica paradoxo entre queda nos assassinatos e alta nas buscas por crimes, impulsionada por fraudes virtuais e custo elevado.
O debate sobre a segurança pública no Brasil revela um forte contraste entre os indicadores oficiais de crimes violentos e a percepção cotidiana da população. Segundo dados consolidados do Atlas da Violência 2026, produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a taxa estimada de homicídios no país acumulou uma queda de 26,9% em um período de onze anos, com recuo contínuo até 2024. No entanto, o temor de vitimização e a preocupação social com a criminalidade seguiram uma trajetória oposta, impulsionados pela mudança na dinâmica dos delitos patrimoniais e pela forte presença do tema no debate político nacional.
A disparidade entre o recuo dos homicídios e o aumento do medo decorre de um conjunto de fatores sociais e econômicos. No quadriênio entre 2022 e 2026, a segurança pública consolidou-se como um dos pilares centrais da agenda pública e midiática. Dados da plataforma Google Trends integrados ao levantamento do Ipea mostram que o interesse dos brasileiros pela palavra “crime” dobrou na comparação entre o início de 2022 e o começo de 2026, com o índice saltando do patamar de 50 para a marca de 100 pontos no período.
Migração para crimes virtuais e impacto no cotidiano
Outro vetor decisivo para a expansão da percepção de insegurança é a transformação no modus operandi das infrações contra o patrimônio. Com a migração expressiva para os crimes cibernéticos e estelionatos virtuais, a exposição ao risco deixou de ser restrita ao ambiente de rua. Levantamentos do Anuário Brasileiro de Segurança Pública do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) apontam que, entre 2018 e 2024, enquanto os registros de roubo caíram pela metade, as ocorrências de estelionato se multiplicaram por mais de cinco vezes no país.
Apesar da ascensão das fraudes digitais, os delitos presenciais seguem impactando diretamente a rotina dos bairros paulistanos. A ocorrência de furtos e roubos de veículos, invasões a residências e comércios e a subtração de celulares e objetos pessoais nas vias públicas impõem prejuízos financeiros imediatos e forçam moradores e comerciantes a adotarem medidas de autoproteção.
Gastos bilionários e o financiamento da segurança
A busca por garantias mínimas de proteção individual e coletiva consome recursos crescentes do orçamento público. Mapeamento sobre o financiamento do setor revela que os aportes na segurança pública alcançaram R$ 163,1 bilhões em 2025, o que representa um crescimento de 2,1% em relação ao ano anterior. Na última década, entre 2016 e 2025, as despesas do setor registraram expansão acumulada puxada principalmente pelos estados, que tiveram alta de 26%, e pelos municípios, com elevação de 72,7%, enquanto os gastos da União cresceram 20,8%.
Na divisão orçamentária de 2025, as Unidades da Federação responderam pelo maior montante de investimentos, destinações que somaram R$ 131,2 bilhões (alta de 6,2%). Os municípios aplicaram R$ 13,7 bilhões (recuo de 2,9%), enquanto a União destinou R$ 18,0 bilhões (queda de 17,7%). Do orçamento do Ministério da Justiça, 78,4% dos recursos foram concentrados na gestão das forças federais, sendo R$ 10,4 bilhões para a Polícia Federal (47,3% do órgão) e R$ 6,8 bilhões para a Polícia Rodoviária Federal (31,1% do órgão). Complementarmente, o Fundo Nacional de Segurança Pública recebeu R$ 2,2 bilhões e o Fundo Penitenciário Nacional contou com R$ 841,0 milhões.
A discrepância entre os aportes bilionários e a persistência da sensação de risco reforça a complexidade do cenário atual, onde a redução dos índices criminais mais graves, como os homicídios, não se traduz automaticamente em tranquilidade para a população.
Destaque – Sensação de insegurança leva a população a adotar suas próprias medidas, como a contratação de segurança privada, inclusive a clandestina. Imagem: aloart / G. I.







