Tratamento diminui a exposição de tecidos saudáveis e auxilia no combate a efeitos tardios na saúde de crianças e adolescentes.


Reduzir a exposição de tecidos saudáveis à radiação é uma preocupação especialmente importante no tratamento de crianças e adolescentes com câncer, que podem conviver por décadas com possíveis efeitos tardios da terapia. É nesse contexto que a Sociedade Brasileira de Radioterapia (SBRT) destaca, durante a campanha Setembro Dourado, o papel que a protonterapia pode desempenhar no tratamento de determinados tumores pediátricos. A tecnologia ainda não está disponível no Brasil, mas o primeiro centro de protonterapia do país está em desenvolvimento no Rio de Janeiro, conforme anunciou o Instituto Nacional de Câncer (INCA). A previsão divulgada é de que os primeiros atendimentos ocorram em 2030. O projeto prevê ainda que pelo menos 60% da capacidade de atendimento seja destinada a pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS).

A diferença da protonterapia em relação à radioterapia convencional está principalmente na forma como a radiação deposita energia no organismo. De acordo com a SBRT, enquanto os tratamentos convencionais utilizam fótons, como os raios X, a protonterapia emprega partículas chamadas prótons. Quando essas partículas atingem uma determinada profundidade, ocorre o chamado pico de Bragg, caracterizado pela maior deposição de energia naquele ponto e por uma queda acentuada da dose logo depois. Na prática, essa característica permite concentrar a radiação no tumor e reduzir a quantidade que atinge tecidos saudáveis localizados além da área tratada.

Como o pico de Bragg protege tecidos em desenvolvimento

De acordo com o radio-oncologista, membro da SBRT e coordenador médico no GRAACC, Michael Jenwei Chen, essa possibilidade é particularmente relevante para pacientes que ainda estão em fase de desenvolvimento. “Quando falamos de crianças fazendo radioterapia, a protonterapia tem como objetivo não alterar, por exemplo, o crescimento ósseo. Em tumores cerebrais, você tem uma vantagem grande, porque são menos tecidos saudáveis expostos, o que pode evitar possíveis efeitos colaterais no desenvolvimento cerebral e cognitivo. Pacientes que fazem prótons evoluem com menos efeitos colaterais tardios”, explica o especialista.

O benefício da protonterapia está principalmente na possibilidade de reduzir a dose de radiação recebida pelos tecidos saudáveis e, consequentemente, determinados efeitos adversos do tratamento. Isso não significa, porém, que a tecnologia necessariamente aumente as chances de cura em comparação com outras modalidades de radioterapia. “Os estudos não apontam nenhuma evidência de que essa estratégia de tratamento aumente as chances de cura. Esse benefício ainda não foi demonstrado de forma clara com o uso de prótons. O principal objetivo é minimizar alguns possíveis efeitos colaterais, principalmente em jovens”, completa Chen.

A indicação também não ocorre para todos os pacientes que precisam de radioterapia. A decisão é individualizada e leva em consideração fatores como o tipo e a localização do tumor, a idade do paciente, a proximidade da doença com órgãos e estruturas sensíveis e o benefício esperado com a redução da dose nessas regiões. A protonterapia já integra sistemas públicos de saúde de países como Inglaterra e Países Baixos, com critérios estabelecidos para definir quais pacientes podem receber o tratamento.

Na Inglaterra, o National Health Service (NHS) possui uma política específica para o uso da protonterapia em crianças, adolescentes e adultos jovens com determinados tumores malignos e não malignos. Nos Países Baixos, tumores pediátricos estão entre as chamadas “indicações padrão” para a protonterapia, embora a decisão final continue sendo individualizada. “Nos países que dispõem da técnica, a indicação depende de identificar os pacientes que realmente podem se beneficiar do tratamento”, resume o médico.

Panorama da radioterapia no câncer infantojuvenil no Brasil

O Brasil deve registrar 7.560 novos casos de câncer infantojuvenil por ano no triênio 2026-2028, segundo as estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA). Desse total, a estimativa é de 3.960 casos anuais entre meninos e 3.600 entre meninas. Um estudo internacional publicado na revista científica Radiotherapy and Oncology, que analisou 13.305 pacientes pediátricos com câncer atendidos em uma instituição entre 2010 e 2017, mostrou que 33% receberam pelo menos um ciclo de radioterapia. A utilização variou conforme o tipo e o estágio da doença. Aplicado apenas como referência ao número de novos casos estimados anualmente no Brasil, esse percentual corresponderia a cerca de 2.500 crianças e adolescentes. O cálculo, no entanto, não representa uma estimativa da utilização da radioterapia no país, uma vez que o estudo foi realizado em outro contexto de assistência.

Segundo Chen, na radioterapia indicada para crianças e adolescentes existe uma preocupação especial com a preservação das áreas de crescimento ósseo, a redução de possíveis sequelas e a exposição de órgãos e tecidos saudáveis, já que alguns efeitos podem aparecer anos ou mesmo décadas depois. “Hoje as indicações de radioterapia são muito individualizadas e criteriosas, e a combinação com outras modalidades permite reduzir possíveis efeitos colaterais a longo prazo”, explica.

Mesmo sem a protonterapia disponível no Brasil, técnicas modernas utilizadas atualmente no país, como a radioterapia de intensidade modulada (IMRT) e a radioterapia em arco volumétrico (VMAT), permitem distribuir a dose com maior precisão e reduzir a exposição de estruturas saudáveis. A protonterapia acrescenta uma possibilidade diferente justamente pelas características físicas dos prótons e pela maneira como essas partículas depositam energia no organismo.

Principais diagnósticos na infância e diagnóstico precoce

Entre crianças de 0 a 14 anos, as leucemias são o grupo de cânceres mais frequente. Entre os tumores sólidos, destacam-se os tumores do sistema nervoso central, incluindo meduloblastomas, ependimomas e alguns tumores do tronco cerebral. Também estão entre os principais tipos de câncer diagnosticados na infância os linfomas, o tumor de Wilms, que afeta os rins, os sarcomas de partes moles, o neuroblastoma e o retinoblastoma, tumor ocular raro que costuma surgir nos primeiros anos de vida e ganhou maior visibilidade no Brasil após o diagnóstico de Lua, filha dos jornalistas Tiago Leifert e Daiana Garbin. Em casos selecionados de retinoblastoma, uma das possibilidades de tratamento é a braquiterapia, modalidade de radioterapia na qual uma fonte radioativa é posicionada temporariamente junto ao olho, próxima ao tumor, permitindo concentrar a radiação na área a ser tratada e reduzir a exposição dos tecidos ao redor.

De acordo com o especialista do GRAACC, um dos grandes desafios no enfrentamento do câncer infantojuvenil é chegar mais rapidamente ao diagnóstico. “É muito comum que as famílias procurem as unidades de atendimento e passem por inúmeras consultas até chegar ao diagnóstico. Por isso, é importante estar atento aos sinais de alerta, como nódulos persistentes no pescoço, axila ou virilha que não estejam relacionados a infecções e apresentam crescimento progressivo. Sintomas como febre sem causa aparente, perda de peso e sudorese noturna também merecem atenção, assim como dor óssea sem causa aparente e reflexo branco no olho”, finaliza Chen.


Destaque – Tecnologia de protonterapia auxilia a medicina, especialmente no tratamento infantojuvenil. Imagem: aloart / G. I. / IA image


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