Com bases em duas altitudes, 16 pesquisadores buscam espécies inéditas no topo de tepui isolado no norte da Amazônia
Aterrissando de helicóptero no topo do Parque Estadual da Serra do Aracá, no Amazonas, uma equipe de 16 pesquisadores brasileiros deu início às coletas de campo na região. A expedição, financiada pela FAPESP com apoio logístico e de segurança do Exército Brasileiro, visa mapear espécies de fauna e flora em um ambiente remoto de altitude.
A paisagem do tepui a 1.260 metros contrasta com a floresta densa: o relevo de arenito apresenta campos rupestres, solos alagados e vegetação rasteira.
“É uma paisagem amazônica que não tem nada a ver com as florestas e que grande parte das pessoas desconhece”, afirma o líder da expedição, Miguel Trefaut Rodrigues, professor emérito do IB-USP.

Da esquerda para direita: Renato Sousa Recoder e Taran Grant, do IB-USP, observam e coletam espécimes de sapos. Foto: André Dib/Agência FAPESP
Logística militar e estrutura de bases
A operação mobilizou cinco toneladas de equipamentos e suprimentos, transportados via rio Negro e helicóptero Black Hawk. A equipe montou dois acampamentos para cobrir diferentes formações rochosas: o campo-base principal (1.260 m) e uma estrutura secundária em um bloco desgarrado da serra (850 m), separada por processos erosivos ao longo de milhões de anos.
Um contingente de 17 militares atua no suporte aos cientistas para abertura de trilhas, alimentação, conectividade via satélite e segurança. Um sistema de rodízio garantirá amostragem intensiva nas duas altitudes durante as três semanas de expedição.
“Uma das perguntas que buscaremos responder por meio dos resultados da expedição é se a biota de diferentes montanhas são ecologicamente similares e evolutivamente relacionadas”, explica Rodrigues.

A equipe é composta por cientistas de diversas instituições, todos com formação no Brasil, incluindo USP, Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, Instituto Federal do Amazonas, UFSCar, Universidade de Toulouse (França), Universidade Autônoma de Madri (Espanha), Museu de História Natural de Oslo (Noruega) e Jardim Botânico do Missouri (Estados Unidos), onde trabalha a botânica Jenifer de Carvalho Lopes. Foto: André Dib/Agência FAPESP
Métodos de captura e tecnologia no campo
Para capturar espécies de solo e folhiço, os pesquisadores instalaram cem baldes enterrados (pitfalls) conectados por barreiras de lona, além de recipientes com água e detergente para a coleta de insetos e formigas.
“Apesar da simplicidade do conceito, ele é incrivelmente eficiente, uma vez que nos ajuda a revelar uma fauna que não conhe tínhamos”, diz o pesquisador Ivan Prates, do Museu de História Natural de Oslo.
A amostragem de mamíferos, aves e microrganismos combina múltiplos métodos:
○ Pequenos mamíferos: Gaiolas de captura com isca atrativa dispostas ao longo das trilhas.
○ Aves e morcegos: Redes de neblina com monitoramento contínuo a cada 20 minutos.
○ Monitoramento passivo: Gravadores de bioacústica para capturar ultrassons de até 384 kHz e armadilhas fotográficas operando 24 horas.
A expectativa da equipe é que a grande extensão do platô e a diversidade de habitats revelem um volume de novas espécies superior ao registrado nas expedições anteriores da FAPESP ao Pico da Neblina e à Serra do Imeri.
Destaque – Acampamento científico montado no topo de arenito da Serra do Aracá, no Amazonas. Imagem: aloart / G. I.




