Sindpesp afirma que falta de efetivo pode dificultar expansão das unidades 24 horas e cobra novas contratações para a Polícia Civil.
A ampliação do atendimento 24 horas nas Delegacias de Defesa da Mulher (DDMs) em São Paulo envolve uma questão que vai além da abertura de novas unidades: a disponibilidade de policiais para formar as equipes. Em entrevista ao AT & ASP News, a presidente do Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo (Sindpesp), delegada Jacqueline Valadares, afirma que o principal problema estrutural da Polícia Civil atualmente é o déficit de recursos humanos. Segundo o chamado “Defasômetro” da entidade, faltam 14.898 policiais civis no Estado.
A discussão ganhou relevância depois que o sindicato apontou, em levantamento sobre as DDMs, o volume de ocorrências, inquéritos, prisões e medidas protetivas registrados pelas unidades. A entidade defende a expansão do atendimento, mas sustenta que novas estruturas precisam ser acompanhadas por contratações e planejamento para evitar que policiais sejam deslocados de outras delegacias.
Mais DDMs 24 horas exigem reforço de efetivo
Segundo Jacqueline, o problema não está restrito às Delegacias da Mulher. “Em geral, o quadro é preocupante, mas o principal problema, sem dúvidas, é de recursos humanos. A Polícia Civil de São Paulo enfrenta um déficit de mais de 1/3 do número ideal de policiais em atividade e a abertura de novas unidades 24h, consequentemente, ampliará ainda mais esse déficit, já que novos postos de trabalho serão criados.”
A presidente do sindicato afirma que, sem novas contratações, a abertura de unidades 24 horas pode exigir o remanejamento de policiais de outras delegacias. “Como o ‘cobertor é curto’, em muitas localidades será necessário retirar policiais civis de alguma delegacia para guarnecer as equipes das novas DDMs 24h.” A entidade defende que a expansão seja acompanhada de estudos técnicos, novas contratações e mecanismos de compensação pelo acúmulo de serviço.
O Sindpesp afirma que já havia solicitado à Delegacia Geral de Polícia, em 2025, um estudo técnico sobre a necessidade de funcionamento 24 horas das DDMs do interior, citando a Lei Orgânica Nacional das Polícias Civis. Segundo a entidade, o pedido foi respondido, mas nenhum estudo técnico teria sido apresentado.
Contratações não acompanham as perdas, diz sindicato
A falta de efetivo também aparece nos dados apresentados pela entidade sobre contratações e desligamentos. Segundo informações obtidas pelo Sindpesp por meio da Lei de Acesso à Informação, a Polícia Civil paulista contratou 5.760 novos policiais entre 2023 e fevereiro de 2026, mas perdeu 3.691 profissionais no mesmo período.
A entidade relaciona o cenário à atratividade das carreiras e também à remuneração. Em março deste ano, a Assembleia Legislativa aprovou reajuste de 10% para policiais militares, civis e técnico-científicos, com efeitos a partir de abril. Ainda assim, o Sindpesp sustenta que a remuneração continua sendo um fator de dificuldade para retenção de profissionais.
“Em que pese tenha havido recomposições remuneratórias nos últimos anos, São Paulo ainda paga um dos piores salários a seus delegados de polícia, ostentando a 21ª colocação no ranking nacional”, afirma Jacqueline. Segundo ela, profissionais aprovados em concursos acabam migrando para outros estados ou para carreiras jurídicas com melhor remuneração.
Déficit de quase 15 mil policiais
O número de 14.898 policiais apresentado pelo sindicato corresponde ao cálculo do “Defasômetro” da entidade, elaborado com base em informações do Portal da Transparência paulista. O levantamento considera o déficit da corporação como um todo, e não especificamente das Delegacias de Defesa da Mulher.
A própria entidade reconhece que o número deve sofrer alguma redução com nomeações recentes, mas afirma que a tendência de médio prazo continua preocupante diante da ausência de novos concursos em andamento. “O déficit, assim, acaba sempre se agravando e, por mais que haja contratações, São Paulo não consegue reter de forma suficiente não apenas seus delegados, mas todos os seus novos policiais civis”, diz a presidente.
A discussão ajuda a explicar uma das principais dúvidas levantadas pelo debate sobre as DDMs 24 horas: ampliar o horário de atendimento não significa apenas manter as portas abertas durante toda a madrugada. É necessário formar equipes, garantir investigação, manter o atendimento às vítimas e preservar o funcionamento das demais delegacias.
“Não adianta inaugurar prédio novo sem o correspondente em efetivo, equipamento e respeito à condição humana do próprio policial civil, que muitas vezes se vê exposto a escalas que fogem em muito ao determinado legalmente. A vítima e a sociedade em geral, infelizmente, sentem o resultado da gestão politizada da instituição quando se deparam com demora do atendimento nas delegacias em geral, dificuldade de acompanhar o próprio inquérito ou quando encontram policiais sobrecarregados física e mentalmente”, afirma Jacqueline.
Destaque – Para o Sindpesp, expansão das DDMs 24 horas precisa ser acompanhada de novas contratações para evitar sobrecarga na Polícia Civil. Imagem: aloart / IA image



