Professor de Psicologia explica como desenvolver a comunicação, ganhar confiança e identificar quando a dificuldade de se expressar pode estar relacionada à ansiedade social.


Falar em público, apresentar um trabalho ou expressar uma opinião pode ser um desafio para quem sente timidez. Mesmo quando existe vontade de participar, o receio de se expor pode dificultar a comunicação. Enfrentar esse desconforto, porém, não significa necessariamente mudar a própria personalidade.

O professor e doutor Alan dos Santos, da Faculdade de Psicologia da Unoeste, explica que experiências de vida, relações sociais e fatores genéticos influenciam a maneira como cada pessoa desenvolve suas habilidades de expressão. Compreender essas questões pode ajudar a enfrentar dificuldades e ampliar a participação em situações acadêmicas e profissionais.

Como a timidez se desenvolve

A personalidade é construída ao longo da vida, a partir das experiências e relações estabelecidas em diferentes ambientes. Segundo Santos, os estímulos recebidos na infância e as oportunidades de comunicação participam desse processo.

Na perspectiva psicanalítica, a timidez pode ser compreendida a partir do conceito de inibição, apresentado por Sigmund Freud em Inibição, sintoma e angústia (1926).

“Uma chave de leitura psicanalítica para entendermos a timidez é o conceito de inibição, definido por Freud em Inibição, sintoma e angústia (1926). Nesse texto, ele mostra que algumas funções do corpo podem ser restringidas quando sua realização provoca conflito psíquico e angústia. Desse modo, alguém pode desejar falar, aproximar-se, apresentar uma ideia ou ocupar determinado lugar e, ao mesmo tempo, experimentar uma força psíquica que o faz recuar.”

Essa dificuldade pode surgir quando alguém deseja participar de uma conversa, compartilhar uma opinião ou assumir uma posição de destaque, mas recua diante do desconforto. Identificar os fatores envolvidos nessa reação é um passo importante para lidar com ela.

Desenvolver a comunicação sem deixar de ser introvertido

A própria trajetória de Alan dos Santos ilustra como é possível desenvolver habilidades de comunicação sem necessariamente se tornar uma pessoa extrovertida. Ao escolher a docência, ele precisou enfrentar situações que exigiam exposição e falar diante de diferentes públicos.

A experiência também aparece nos livros Zonas (com.tato) e Insular, publicados pela Borboleta Azul, nos quais aborda aspectos relacionados à fala e à timidez.

“Não me tornei uma pessoa extrovertida, continuo sendo bastante introvertido no geral, mas consigo dar as minhas aulas com alguma tranquilidade e até me divertir com elas. Talvez tenham ficado resquícios de timidez, mas eles não me paralisam mais”, relata.

A experiência mostra que desenvolver habilidades de comunicação não exige abandonar características pessoais. O processo pode ampliar a confiança e a liberdade para participar de diferentes situações.

Estratégias para ganhar confiança ao falar em público

Praticar técnicas de oratória e adquirir familiaridade com situações de exposição são algumas estratégias que podem ajudar a desenvolver a confiança. O professor também destaca a importância de compreender os fatores que provocam a inibição, especialmente quando o medo interfere em atividades desejadas.

Enfrentar gradualmente situações desconfortáveis, respeitando os próprios limites, pode contribuir para esse desenvolvimento. Reconhecer que erros fazem parte do processo também ajuda a reduzir a pressão por um desempenho perfeito.

“Somos todos humanos, portanto, falhos e sujeitos ao erro. Mesmo que não tenha dado certo hoje, amanhã dará”, observa o professor.

Quando as dificuldades persistem, a psicoterapia e a psicanálise podem ser caminhos para investigar os fatores envolvidos na inibição e desenvolver recursos para melhorar a comunicação.

Timidez e ansiedade social são diferentes

Embora possam provocar desconforto em situações de interação, timidez e ansiedade social não são a mesma coisa. Segundo Santos, a ansiedade social é um quadro clínico associado ao medo excessivo de se expor, ser julgado ou passar por situações de humilhação, especialmente quando existe avaliação do desempenho.

Nem toda pessoa tímida apresenta ansiedade social. A identificação de um transtorno depende de avaliação profissional, considerando os sintomas e os critérios diagnósticos pertinentes.

Sentir nervosismo ao falar em público ou dificuldade para iniciar uma conversa, isoladamente, não significa apresentar um transtorno. É necessário observar a intensidade do medo e o impacto que ele provoca na rotina.

Quando procurar ajuda profissional

A timidez merece atenção quando impede a realização de atividades importantes ou limita significativamente a participação social. Dificuldades persistentes para apresentar trabalhos, ministrar palestras ou assumir tarefas que envolvam comunicação podem indicar a necessidade de apoio profissional.

“Sentir medo é humano e normal, mas também é humano enfrentar o medo”, afirma Santos.

Quando o desconforto impede a pessoa de realizar atividades que deseja ou precisa fazer, procurar um psicólogo ou outro profissional de saúde mental qualificado pode ajudar a compreender as dificuldades e avaliar as possibilidades de cuidado.

Desenvolver a comunicação não significa eliminar todas as reações emocionais ou abandonar a introversão. É possível ampliar as próprias habilidades e participar de novas situações sem deixar de ser quem se é.


Destaque – Desenvolver habilidades de comunicação pode ajudar a enfrentar a timidez sem exigir mudanças na personalidade. Imagem: aloart / G. I.