O Brasil fez sua escolha e reelegeu Lula para mais quatro anos. O desgaste de mais uma eleição vencida a trancos e barrancos é algo que nem os mais experientes analistas e cientistas políticos conseguem mensurar. A reeleição de Lula, por si só, demonstra que pelo menos parte dos eleitores que lhe deram a vitória concorda com suas manobras eleitoreiras e tolera as denúncias envolvendo supostas irregularidades de pessoas ligadas a seu governo.
Outra hipótese é que parte dos votos de Lula tenha surgido da rejeição a Flávio Bolsonaro e a seu projeto de governo. Ainda assim, o resultado mantém no poder um grupo político que não superou práticas ultrapassadas de governo, baseadas em confrontos.
A política praticada no país e as diferenças de classe se entrelaçam. Enquanto a maioria dos eleitores de menor renda procura uma saída nas benesses governamentais e deposita suas esperanças na possibilidade de melhorar de vida, parcelas das classes média e alta enxergam em Flávio Bolsonaro perspectivas favoráveis ao desenvolvimento.
Para complicar uma das eleições presidenciais mais acirradas desde a redemocratização, o ministro Cristiano Zanin do Supremo Tribunal Federal (STF), ex-advogado de Lula e por ele indicado à Suprema Corte, decidiu interferir no andamento da votação pouco depois das 17h — horário de encerramento do pleito —, determinando a manutenção do funcionamento das seções eleitorais que ainda não haviam encerrado a votação.
A decisão se sobrepôs às medidas que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) já adotava para lidar com as dificuldades de acesso dos eleitores a determinados locais, em razão de problemas no transporte público.
“Como a decisão foi proferida após as 17h, milhares de urnas eletrônicas já haviam sido encerradas, sem possibilidade de reabertura. Diante desse cenário, foi necessário suspender temporariamente o recebimento dos Boletins de Urna (BUs), o que provocou um acúmulo de arquivos à espera de processamento”, disse o presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques.
O candidato Flávio Bolsonaro prometeu questionar o resultado e pedir a anulação da eleição em razão desse acontecimento, que, segundo sua interpretação, não encontra respaldo nas regras eleitorais. Por outro lado, a prorrogação do horário de votação em determinadas seções criou uma situação de difícil solução, levantando questionamentos sobre quem poderia ter sido prejudicado ou favorecido pela decisão monocrática de Zanin. Dessa forma, a eleição ganha contornos que não deveriam existir e abre espaço para questionamentos jurídicos.
A sina ingovernável do país poderá se prolongar por mais quatro anos de discórdia e esse foi um dos resultados mais contundentes da eleição. De um lado, o PL terá as maiores bancadas individuais na Câmara dos Deputados e no Senado; de outro, o Executivo conta com o poder da máquina governamental, aliados no STF e com a prerrogativa de indicar quatro novos ministros para a Corte. Pelas regras atuais, os ministros do Supremo permanecem no cargo até a aposentadoria compulsória, aos 75 anos, salvo outras hipóteses constitucionais de afastamento. Cabe ao Senado aprovar ou rejeitar as indicações presidenciais.
Na prática, o presidente Lula enfrentará forte oposição nas duas Casas — Câmara e Senado — e terá de buscar apoio nos partidos que compõem o Centrão. A federação de partidos que já o apoia não terá força suficiente para aprovar, sozinha, as medidas e propostas do governo.
Quem perde é o Brasil. Dificilmente o país viverá momentos de tranquilidade na política. É importante lembrar que medidas como a isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil mensais, aprovada em novembro de 2025 e em vigor desde janeiro de 2026, podem ter sido relevantes para a reeleição de Lula. Ao mesmo tempo, a medida criou um dilema para a oposição, pressionada a votar a favor para não correr o risco de perder votos no futuro.
Outras medidas aprovadas no ano eleitoral de 2026 incluem o fim da chamada “taxa das blusinhas”, a extinção da escala 6x1 e o aumento do Bolsa Família. O perdão de dívidas de pessoas físicas e jurídicas foi aprovado poucos dias antes da votação. Essas medidas governamentais podem ter contribuído para a reeleição de Lula. Todavia, haverá cobranças pelas consequências que elas poderão trazer.
Especialistas falam em aumentos de preços, queda nas contratações e desemprego. Além disso, persistem os juros elevados, o risco de inflação. Após a vitória de Lula, a semana já começou com o dólar fechando a R$ 5,403, alta de 8,21%, enquanto o Ibovespa chegou a cair cerca de 14% durante o pregão. Uma das formas de enfrentar as dificuldades fiscais, já adotada pelo governo, é aumentar os impostos. Quem mais paga por eles são os mais pobres; estão embutidos nos preços dos alimentos, dos combustíveis e no custo de vida.
Passam os anos, passam as décadas, e o Brasil segue no mesmo sufoco, estacionado entre o que é e o que poderia ser, submetido à sua sina de incertezas e falta de rumo. Um gigante entristecido cercado por uma legião de pessoas empobrecidas. Uma população enfrentando dificuldades diárias, sem ter paz para viver, tendo que esconder até as alianças de casamento para andar nas ruas ou conviver com a falta de saneamento básico, apenas para citar alguns exemplos.
Metade dos brasileiros acordou acreditando que Lula vai lhes garantir, nos próximos quatro anos, a alegria de viver prometida ao longo dos cerca de 20 anos em que o PT esteve no poder neste século. Essa trajetória foi interrompida em 2016, com o impeachment de Dilma Rousseff, após 13 anos de governos petistas consecutivos, iniciados em 2003. Eleito em 2022 e reeleito em 2026, Lula segue para mais um mandato.
A outra metade acordou abismada, sem rumo.




