Na Vila Gomes Cardim, Chácara Santo Antônio e proximidades do metrô Carrão, furtos à noite e na madrugada expõem o contraste entre a poluição sonora de vigias clandestinos e a impunidade desses e outros crimes
O direito ao sossego e a garantia da segurança pública são pilares fundamentais da vida urbana que parecem ter sido revogados na zona Leste de São Paulo. Praticada à margem da lei, a atividade de vigilância noturna clandestina avançou sobre os bairros da Vila Gomes Cardim, da Chácara Santo Antônio e arredores do metrô Carrão, dentre outros. Sob o pretexto de oferecer proteção, motociclistas informais cortam a madrugada acionando sirenes e dispositivos de iluminação proibidos, privando trabalhadores, estudantes, idosos, bebês e pessoas com condições neurodivergentes — como o autismo — do descanso necessário.
O paradoxo que se impõe nas áreas citadas da região do Tatuapé é gritante: enquanto o som estridente das sirenes perturba os lares a cada meia hora, criminosos especializados no furto de fiação pública, em invasões domiciliares e no roubo de veículos agem sem qualquer cerimônia. Imagens recentes obtidas por este veículo registram que a fiação de energia foi é constantemente levada em plena madrugada, exatamente no perímetro de atuação das supostas rondas de vigilância com sirenes e em frente a residências que pagam as mensalidades do serviço privado que entitula-se “dono da área”.
A audácia dos criminosos e a intocabilidade dos vigias particulares — que circulam desarmados e sozinhos sem jamais se tornarem alvos dos criminosos — levantam uma suspeita legítima e desconfortável na vizinhança. O avanço desse mercado informal prospera unicamente com base na exploração do medo coletivo. Moradores pagam taxas mensais à liderança do setor, cujo nome estampa placas fixadas nas fachadas dos imóveis, não por convicção na eficácia do serviço, mas pelo receio de perderem uma suposta escolta ao retornarem para casa à noite ou terem seu comércio e suas casas invadidos.
A necessidade de uma resposta enérgica do Estado é respaldada pelos próprios números oficiais. As estatísticas divulgadas pela Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP) apontam que a criminalidade patrimonial continua desafiando as forças policiais na região. O território do 30º DP (Tatuapé) concentra um volume expressivo de ocorrências registradas na capital paulista, com os furtos de fiação e os furtos de veículos liderando as queixas das madrugadas. Essa realidade empurra o cidadão para uma armadilha financeira: pagar impostos elevados por uma segurança pública ineficiente e, ao mesmo tempo, ser forçado a financiar serviços informais ou patrulhas sonoras clandestinas para tentar proteger o próprio patrimônio.
Diante do silêncio e da falta de respostas efetivas às demandas enviadas ao 30º Distrito Policial e do Conselho Comunitário de Segurança (Conseg) Tatuapé, este veículo de imprensa levou o caso diretamente ao gabinete do Secretário de Segurança Pública do Estado, o delegado Osvaldo Nico Gonçalves. Em uma demonstração de desconexão com a realidade das ruas, a resposta limitou-se a interlocuções evasivas da assessoria de imprensa terceirizada da pasta, a agência FSB, que demonstrou completo desconhecimento da pauta exaustivamente enviada há anos.
A segurança pública não pode ser tratada como um balcão de negócios ou uma peça de relações públicas. Diante disso, este editorial formaliza e torna públicas as perguntas que a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo deve, por obrigação institucional, responder à população do Tatuapé e de toda a cidade:
:: Pelo fim da clandestinidade: O uso de sirenes sonoras e sinalizadores luminosos do tipo giroflex por segurança privada informal é expressamente proibido pela legislação brasileira. Por que essas motocicletas circulam diariamente violando as leis de trânsito e perturbando o sossego sem que os veículos sejam apreendidos e os condutores autuados pelas polícias?
:: A eficácia dos investimentos: Com os sucessivos aportes financeiros anunciados pelo Governo do Estado na compra de armamentos, viaturas e tecnologia, o que explica a persistência de uma sensação de insegurança tão aguda na zona Leste, a ponto de moradores crerem que o barulho de uma moto informal substitui o policiamento ostensivo?
:: Atendimento ao cidadão: Qual orientação está sendo dada aos plantões policiais das delegacias da região? Moradores relatam desatenção e recusa de registro de ocorrências quando tentam denunciar a poluição sonora crônica ou o constrangimento ilegal exercido por comandantes de vigias clandestinos.
:: Foco nos pequenos delitos: A priorização do combate ao crime organizado tem deixado lacunas no policiamento de crimes menores, como furtos de fios e invasões noturnas? Qual a estratégia da Polícia Civil e da Polícia Militar para restabelecer a ordem nas madrugadas dos bairros residenciais do Tatuapé?
:: O privilégio da impunidade: Por que as lideranças que exploram a segurança privada informal na zona Leste gozam de aparente imunidade para expandir seus negócios de fachada a fachada, enquanto o cidadão comum cumpre rigorosamente as leis civis sob pena de severas punições?
:: O avanço das patrulhas sonoras e a escalada de pequenos crimes nas madrugadas da Vila Gomes Cardim e da Chácara Santo Antônio representam a falência temporária da ordem pública local. A população da zona Leste não aceita respostas evasivas nem processos administrativos que terminam arquivados. A palavra e as ações imediatas estão com a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo.
O espaço segue aberto para as respostas da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, que serão incluídas assim que recebidas.



