Aumento de furtos e roubos no Tatuapé impulsiona a atuação de vigias noturnos informais, venda de alarmes residenciais e uso de sirenes em serviços de vigilância no bairro.
O Tatuapé registrou 1.089 furtos e roubos em 2024 e viu os índices crescerem mais de 30% no último ano. Em meio à escalada de furtos e roubos, moradores relatam a atuação de vigias noturnos informais que cobram por uma suposta proteção — usando sirenes proibidas por lei.
Na região onde evoluem altas taxas de crimes patrimoniais, há mais de 10 anos age um vigia noturno que contrata outros em seu nome para acionar sirenes e marcar a presença nos locais, onde atua. Pequenas ruas e travessas da Chácara Santo Antônio e Vila Gomes Cardim entre elas.
O som das sirenes dos vigias noturnos exerce forte influência psicológica, com a propagação desse som de alerta constante, durante as madrugadas, reforçando a sensação de insegurança no bairro. Para exercer essa função, utilizam-nas como base, adaptadas em motocicletas. Os dispositivos estão à venda em marketplaces como o Mercado Livre por R$ 50.
Por meio desse método fácil e barato, cobram valores mensais que podem superar R$ 100 de comerciantes e moradores que acreditam estar protegendo seus patrimônios durante o período noturno.
Mas as estatísticas comprovam o aumento da criminalidade e não há evidências de que fazer barulho com sirenes produza resultados. O gráfico abaixo demonstra o que ocorreu nos últimos 10 anos a respeito da insegurança.
Os fatos que relatamos a seguir ainda carecem de respostas e levantam questionamentos às autoridades sobre a continuidade dessa atividade no formato atual. O assunto é evitado com a imprensa nos meios policiais.
Os cidadãos se indignam diante da impunidade de vigias motorizados, mesmo utilizando um meio proibido pela legislação vigente no país.
As reclamações quanto ao barulho das sirenes estão amplamente relatadas como incômodo pela população através da internet e boletins de ocorrência e, neste caso específico que reportamos, chega ao ponto de processá-los.
Todos esses fatos ocorrem sob responsabilidade das autoridades estaduais e nos distritos policiais.
Além do incômodo causado pelas sirenes que alcançam 120 decibéis — o uso é proibido e restrito aos órgãos públicos — utilizadas para sinalizar presença nas noites em regiões onde atuam, é o constante aumento dos crimes de furtos e roubos.
Os crimes patrimoniais aumentaram substancialmente no ano passado, o que levou o Governo do Estado a enviar reforços à região da 5ª Delegacia Seccional Leste, onde se localiza o 30º DP, no último mês de fevereiro. Os dados estatísticos publicados nesta série de reportagens demonstram claramente esse fato.
“À noite ele passa, e às vezes acontecem coisas quando ele não está.”
A frase acima é de uma moradora assustada com a situação. Outra moradora foi assaltada à mão armada na frente dos filhos, e as cenas foram gravadas pelas câmeras, segundo ela. Após um ano, a vítima ainda aguarda resposta da investigação do 30º DP, delegacia onde o fato foi registrado.
A atuação desse vigia noturno, que se autodenomina “dono da área” e contrata pessoas em seu nome para usar o mesmo método de acionar sirenes para marcar a presença. Esse serviço é cobrado dos moradores que se sentem amedrontados com a onda de roubos e furtos. Segundo moradores, a atividade se beneficia do aumento da insegurança.
O contratado do vigia principal é obrigado por ele a acionar a sirene da moto (veja os depoimentos abaixo). Com a impunidade, apesar das denúncias das infrações cometidas, a atividade atualmente se expande nos mesmos moldes a outras localidades do bairro, como as proximidades da estação Carrão do Metrô.
Veja o vídeo, motovigia noturno contratado diz que precisa “buzinar” para receber e confirma quem é o “dono da área” no Tatuapé.
Os bairros do Tatuapé, Jardim Anália Franco e circunvizinhança têm sido alvos de criminosos pela sua ocupação, nas últimas décadas, pela classe média e média alta, assim como pela expansão do comércio e serviços.
Pagamento de ‘pedágio’ para sair e voltar à noite no Tatuapé
Essa expansão urbana, citada como exemplo da melhoria de qualidade de vida, paralelamente proporciona lucros a vigias noturnos, impulsionados pelo medo que existe entre os moradores — principalmente entre mulheres e idosos — devido à onda de crimes. O formato da atividade aqui demonstrada é apenas um exemplo, que se repete em outros locais da cidade, do estado e do país, na maioria das vezes com o mesmo procedimento: motocicleta, sirene e barulho.
Uma das moradoras entrevistadas pela nossa reportagem afirmou que chegou a pagar pelo serviço, mas decidiu interromper o pagamento. “Como saber se era ele que estava chegando?”, questionou, referindo-se ao procedimento de ligar antes de sair ou entrar em casa. “Ele não gostou muito.”
Respostas dos órgãos envolvidos
Desde a reunião do dia 20 de outubro de 2025, o Conseg Tatuapé não respondeu às nossas perguntas feitas presencialmente sobre quais providências a entidade tomaria quanto aos vigias e ao barulho que provocam. Antes da reunião, o atual presidente Guilherme Gonzalez disse que levaria a questão ao representante da Polícia Militar, que também não respondeu.
A resposta da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo pode ser lida nesta outra reportagem (acesse neste link).
O portal continua aberto às respostas para informar à população.
Destaque – Mulher chega em casa apreensiva durante a noite: serviço de vigilância seria mais eficiente se protegesse as pessoas e não fizesse tanto barulho. O acionamento de sirenes pode demonstrar o despreparo para enfrentar uma real situação de perigo. Imagem: aloart / G.I.





