Pesquisa europeia revela que assembleias populares e tomadas de decisão coletivas já aconteciam em outras civilizações antigas paralelamente ao modelo de Atenas.
A ideia de que a democracia nasceu exclusivamente na Grécia Antiga, especificamente nas praças públicas de Atenas, é um dos pilares do pensamento político ocidental. No entanto, um recente estudo internacional está questionando essa exclusividade histórica, sugerindo que o conceito de governança popular pode ser muito mais descentralizado e antigo do que os livros didáticos costumam ensinar.
Conforme dados divulgados pelo Cordis, o serviço de informações em pesquisa da Comissão Europeia, o projeto de investigação histórica chamado Eurotas debruçou-se sobre as estruturas políticas de outras civilizações antigas. Os resultados indicam que formas primitivas de assembleias e debates públicos já ocorriam na Mesopotâmia, na Fenícia e na Índia — muitas vezes antes ou de forma simultânea ao auge da democracia ateniense.
Além de Atenas: a governança coletiva no mundo antigo
O estudo não anula a importância histórica dos gregos, mas combate o “eurocentrismo” que atribui a eles a invenção solitária da participação cidadã. A pesquisa mostra que a necessidade humana de se organizar em grupos, debater leis e limitar o poder de líderes absolutos gerou sistemas participativos em diferentes cantos do planeta.
Essas outras culturas, entre elas os iroqueses, tribo indígena americana, também contavam com espaços de fala onde o povo — ou determinados grupos sociais — exercia poder de veto e decisão. A grande diferença é que Atenas foi a civilização que melhor documentou e institucionalizou o termo “democracia”, o que garantiu a sua herança cultural no Ocidente.
O poder da retórica e o impacto nos dias de hoje
Outro foco central do projeto Eurotas é a análise da retórica: a arte de falar bem e convencer o público. Na antiguidade, a capacidade de discursar em uma assembleia definia os rumos de uma cidade. Os pesquisadores apontam que estudar como essas dinâmicas de persuasão funcionavam no passado nos ajuda a entender as crises das democracias modernas.
Hoje, em um cenário dominado por redes sociais, polarização e desinformação, a retórica política ganhou novas ferramentas, mas a sua essência continua a mesma do mundo antigo. O estudo publicado pela plataforma Cordis Europa conclui que repensar as origens da democracia nos força a enxergar o sistema não como uma fórmula estática inventada pelos gregos, mas como um processo vivo e em constante evolução.
Destaque – Acrópole de Atenas, Grécia: a famosa “cidade alta” data do século V a.C., local onde convencionou-se ser o berço da democracia. Imagem: SHansche / Getty Images



