Os dados são oficiais e da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP). Veja o levantamento e conclua se a vigilância com barulho de sirenes proibidas afasta os bandidos ou se o Estado precisa retomar as rondas ostensivas


O avanço da criminalidade na Zona Leste de São Paulo tem empurrado a população para uma armadilha que mistura medo, silêncio e soluções improvisadas. Enquanto motociclistas clandestinos — que não sofrem fiscalização dos órgãos competentes — utilizam métodos proibidos pela legislação brasileira e se oferecem como alternativa para enfrentar a alta de crimes no Tatuapé, criminosos especializados continuam invadindo condomínios, residências e o comércio da região. Em contrapartida, empresas de monitoramento eletrônico também encontram um vasto campo de atuação, impulsionando uma verdadeira onda na venda de alarmes devido à sensação contínua de vulnerabilidade.

Efeito psicológico é devastador

Após recebermos o aviso de moradores de que a fiação pública foi novamente furtada ao longo da Rua Henrique Dumont durante a madrugada de domingo (5), nossa reportagem dirigiu-se ao local. Em conversas com residentes da Vila Gomes Cardim e adjacências, o diagnóstico foi unânime: o perímetro é alvo de seguidas invasões de domicílio, furtos diversos e roubo de cabos elétricos da fiação pública e particular.

“Isso é a continuação do que já vem acontecendo há muito tempo”, desabafou um dos moradores que, por motivos óbvios de segurança, preferiu não se identificar. O resultado prático dessa rotina de insegurança e desamparo pode ser conferido no vídeo que ilustra esta reportagem.

 

 

O paradoxo das rondas barulhentas e o “tapar o sol com a peneira”

Um ponto que intriga a vizinhança é o fato de que todos os crimes relatados pelos moradores durante a apuração ocorreram justamente durante o período das supostas rondas de vigias noturnos, ou seja, durante as noites e madrugadas. Na região citada, esses prestadores informais são liderados por um elemento cujo nome ostenta placas fixadas nas fachadas de várias casas, inclusive com alusão ao 30º DP. Apenas um dos crimes descritos por residentes do local estava em curso durante o dia.

É importante salientar que a polícia paulista tem atuado de forma contundente contra o crime organizado, mas frequentemente é acusada de desatenção com os delitos menores de bairro. Diante disso, os moradores comentam que não conseguem ter a percepção da presença ostensiva da Polícia Militar, a quem cabem constitucionalmente as rondas preventivas, seja dia, noite ou madrugada. “Como antigamente”, cita outro morador. Pressionada pelo medo, a comunidade acaba pagando taxas aos vigias noturnos, chegando ao ponto de ter que ligar para eles, durante a noite, para conseguir entrar em casa com medo de bandidos.

Contudo, os fatos demonstram aos moradores que fomentar a atividade de vigilância clandestina, que utiliza métodos proibidos (como o abuso de sirenes e giroflex, ambos restritos às forças policiais e governamentais), em vez de cobrar ações específicas e estruturadas do Estado, é o mesmo que tapar o sol com a peneira. O mercado informal não inibe a criminalidade e, como sugerem as estatísticas, apenas prolonga o problema.

Abaixo, reproduzimos o levantamento detalhado da Secretaria de Segurança Pública (SSP) referente ao 30º Distrito Policial (Tatuapé) para que o leitor possa confrontar os números oficiais com a realidade vivida nas calçadas do bairro:

Análise dos dados: a realidade do “Furto – Outros”

Analisando o índice ‘Furto – Outros’ no acumulado de janeiro a maio sob esta nova ótica histórica, o ano de 2026 abriu com uma escalada expressiva, registrando 1.739 casos. Quando olhamos para o mesmo período de 2025 (entre janeiro e maio), o índice havia fechado em 1.572 ocorrências, enquanto em 2024 o acumulado era de 1.252. Somadas as notificações dos três anos, o Tatuapé amarga a marca de 4.563 furtos gerais entre janeiro de 2024 e maio de 2026.

 

Enquanto outras modalidades criminosas caíram, a categoria ‘Furto – Outros’ saltou de 1.252 ocorrências em 2024 para impressionantes 1.779 em 2026 — um aumento de 42,1%.

 

Registre B.O. e cobre os resultados das investigações

Salientamos, ainda, que nem todos os crimes são registrados em Boletins de Ocorrência pela população e nem todos os resultados das investigações são relatadas às vítimas, conforme apuramos em diversas reportagens sobre o tema na região citada. Por esse motivo, alertamos que, na medida do possível, as vítimas registrem as ocorrências.

Um dos métodos possíveis é a Delegacia Eletrônica, que pode ser acessada por este link. Caso não receba nenhuma comunicação sobre as investigações, entre em contato com o Distrito Policial mais próximo de seu domicílio e cobre ações efetivas da polícia.

 


Destaque – Acima, vídeo mostra o resultado da ação dos criminosos, visto na manhã de domingo (5). No destaque, vídeo  de câmera de segurança mostra a ação durante a madrugada na Rua Henrique Dumont (foto): há pouco mais de um mês, domicílios particulares também foram invadidos. Créditos: aloimage / ADT.


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