Clima extremo no campo e explosão de ataques digitais transformam o mercado de seguros em ferramenta estratégica para garantir a continuidade dos negócios

por Eduardo Lucena, Deputy CEO da Lockton Brasil


O debate sobre riscos empresariais deixou de ser um tema restrito às áreas de conformidade (compliance) ou gestão interna para ocupar o centro das decisões estratégicas das corporações. Fatores climáticos, tecnológicos e geopolíticos passaram a influenciar diretamente investimentos, cadeias produtivas e modelos de operação.

Nesse cenário, o mercado de seguros e resseguros vive uma transição profunda. Mais do que apenas transferir riscos, a indústria tem sido chamada a interpretar cenários complexos e atuar de forma consultiva. No Brasil, essa nova dinâmica fica evidente ao analisar dois setores cruciais: os impactos climáticos sobre o agronegócio e a escalada das ameaças cibernéticas.

O agronegócio diante de um novo regime de risco climático

O agronegócio segue como um dos principais motores da economia nacional. A cadeia agroindustrial respondeu por 29,4% do Produto Interno Bruto (PIB) do país, com uma produção recorde de grãos que atingiu 354,7 milhões de toneladas e um Valor Bruto da Produção (VBP) agropecuária superior a R$ 1,4 trilhão.

Contudo, a relevância econômica caminha lado a lado com uma exposição climática sem precedentes. Eventos extremos — como secas prolongadas, ondas de calor e chuvas torrenciais — tornaram-se mais frequentes e imprevisíveis, afetando diretamente a produtividade, a logística e o planejamento das safras. Essa volatilidade eleva a sinistralidade e pressiona o mercado por novas soluções de proteção financeira.

Nesse contexto, o seguro paramétrico ganha protagonismo por se diferenciar dos modelos tradicionais.

Como funciona o seguro paramétrico: Ao contrário das apólices convencionais, que dependem de vistorias lentas para comprovar o dano físico, o modelo paramétrico se baseia em indicadores objetivos e predeterminados, como índices de chuva ou temperatura monitorados por satélite. Se o indicador atingir o gatilho contratado, a indenização é liberada automaticamente, garantindo previsibilidade e velocidade para o produtor reagir a perdas.

O avanço de tecnologias como sensores agrícolas, monitoramento climático de alta precisão e análise de dados (big data) abre espaço para que o mercado segurador desenvolva soluções customizadas e aderentes à realidade produtiva de cada região do país.

O risco digital se tornou um risco econômico

Se o campo sofre com as intempéries do clima, o ambiente corporativo e as cadeias de suprimentos enfrentam a expansão das ameaças digitais. O Brasil consolidou-se como um dos países mais visados por cibercriminosos em todo o mundo.

De acordo com o Relatório do Cenário Global de Ameaças do FortiGuard Labs, da Fortinet, o país registrou a impressionante marca de 314,8 bilhões de tentativas de ataques cibernéticos em apenas seis meses, concentrando cerca de 84% de todas as atividades maliciosas identificadas na América Latina.

Atualmente, um incidente cibernético tem o potencial de paralisar operações inteiras, interromper linhas de produção e gerar severos prejuízos financeiros diretos, além de danos reputacionais, responsabilidades legais e sanções regulatórias ligadas à proteção de dados.

Essa preocupação já rompeu as barreiras dos escritórios e chegou ao campo. Um estudo global da PwC focado em inovação em agtechs revelou que 80% dos executivos do agronegócio demonstram forte preocupação com riscos associados ao uso de inteligência artificial (IA) — um percentual superior à média nacional geral (74%) e à média global (64%). À medida que o campo se digitaliza com frotas autônomas e sensores interconectados, cresce também a superfície de contato para vulnerabilidades tecnológicas.

Para mitigar esse cenário, o seguro cibernético passou a ser peça-chave na governança corporativa. No entanto, analistas alertam que a apólice não opera milagres isoladamente: as empresas precisam combinar a proteção financeira com auditorias de vulnerabilidade, governança de dados robusta e planos estruturados de resposta a incidentes.

O novo papel estratégico do mercado de seguros

As perdas globais associadas a eventos climáticos extremos já superam os US$ 250 bilhões por ano, segundo estimativas das principais resseguradoras mundiais. No cenário doméstico, o mercado segurador brasileiro representa cerca de 6% do PIB, um patamar significativamente inferior ao de economias desenvolvidas, onde o setor costuma ultrapassar 10% da atividade econômica.

Essa disparidade revela um amplo espaço para crescimento e sofisticação institucional no Brasil. Em um ambiente de negócios marcado por incertezas climáticas, tecnológicas e macroeconômicas, soluções padronizadas perdem espaço para estratégias personalizadas de proteção e resiliência. Compreender detalhadamente os riscos corporativos deixou de ser uma atividade meramente defensiva para se tornar um fator crítico de competitividade e continuidade operacional.


Edição: ASP News


Destaque – O agronegócio segue como um dos principais motores da economia nacional. Imagem: aloart / G.I.


Leia outras matérias desta editoria

Seguro Rural enfrenta crise e produtores recebem cobranças

Falta de recursos do PSR leva seguradoras a cobrar produtores por valores que deveriam ser subsidiados pelo governo em 2026. O seguro rural brasileiro atravessa, em 2026, uma crise marcada pela redução dos recursos públicos, queda da área protegida e...

Comissão da UE aprova cadeia do mel de São Paulo

Estado demonstra rigor sanitário quanto às exigências da Europa e deve reverter embargo. O Governo de São Paulo apresentou à União Europeia os rigorosos controles sanitários executados pelo Estado na cadeia do mel durante missão realizada na região de...

Agronegócio em 2026: PIB do setor é estimado em R$ 3,13 trilhões

Projeção aponta retração de 13,7% no ramo agrícola e expansão de 2,8% na pecuária, segundo levantamento da Faesp baseado em dados do Cepea e CNA. O Produto Interno Bruto (PIB) do agronegócio brasileiro deve atingir R$ 3,13 trilhões em 2026, projetando uma...

Radar Macroeconômico FAESP/SENAR-SP aponta expansão moderada do PIB e resiliência no agronegócio paulista

Edição nº 29 do relatório destaca projeções de crescimento para a economia brasileira e de São Paulo, acompanhadas de análises sobre inflação, mercado de trabalho e setor externo O Departamento Econômico da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de...

Bioinsumos no agro: mercado debate potencial e desafios da biodiversidade brasileira

III Fórum Bioinsumos no Agro reúne especialistas para discutir inovação, proteção genética e a expansão comercial do setor. A abundância da biodiversidade brasileira e o avanço da pesquisa científica colocam o país em posição estratégica no debate sobre o...

Análise da Abag e IEAG detalha os impactos das novas tarifas dos EUA sobre o agronegócio brasileiro

Estudo avalia produtos agrícolas atingidos pela sobretaxa de 25%, ressalta os setores que permaneceram isentos e aponta estratégias para mitigar prejuízos na balança comercial Um levantamento técnico elaborado pelo Instituto de Estudos do Agronegócio...

Faesp alerta que novo tarifaço dos EUA exige diplomacia comercial e não disputa política

Entidade que representa o agronegócio paulista defende negociação técnica e contínua com o governo americano para proteger exportações e evitar retaliações A Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp) manifestou profunda preocupação...