Especialistas alertam que o fenômeno climático de 2026 pode derrubar a produtividade nacional e pressionar a inflação de alimentos, enquanto favorece concorrentes globais.


O Brasil se prepara para enfrentar um dos maiores desafios climáticos e econômicos das últimas décadas. O El Niño de 2026, já classificado por especialistas como um dos mais intensos da história recente, promete redesenhar o mapa da economia nacional.

Mais do que um fenômeno climático, trata-se de um vetor de risco capaz de pressionar a inflação, comprometer exportações e exigir respostas rápidas tanto do setor público quanto do privado.

Segundo dados consolidados de órgãos como NOAA, OMM, INPE e Embrapa, a probabilidade de formação do fenômeno supera 90% a partir de setembro, trazendo impactos severos e heterogêneos para as diferentes regiões produtoras do país.

As projeções indicam que o Sul enfrentará chuvas acima da média, enchentes e riscos de doenças fúngicas nas lavouras, enquanto o Norte e o Nordeste sofrerão com estiagens severas e baixa dos rios. No Centro-Oeste, a previsão é de ondas de calor e baixa umidade afetando pastagens, ao passo que o Sudeste lidará com temperaturas elevadas e chuvas irregulares em culturas como café e cana-de-açúcar.

Esse cenário cria uma assimetria preocupante no mercado global de commodities. Dados históricos de anos de El Niño forte mostram que, enquanto os Estados Unidos registram um ganho de 123% na produtividade e a Argentina apresenta avanço de 2%, o Brasil sofre uma tendência inversa, amargando uma queda média de 9% em sua eficiência produtiva.

O cenário internacional e a pressão sobre os preços

Com o plantio da safra 2026/27 dos Estados Unidos em andamento, o mercado internacional acompanha de perto os desdobramentos climáticos sobre a competitividade das superpotências agrícolas.

Isabella Pliego, analista de inteligência e estratégia da Biond Agro, destaca que o mercado monitora o impacto climático sobre a safra norte-americana neste momento, já que o plantio está em execução no país. “Se o clima favorecer o desenvolvimento das lavouras nos Estados Unidos, especialmente durante a floração e o enchimento de grãos, o mercado pode trabalhar com uma safra maior, cenário que tende a pressionar os preços em Chicago [principal termômetro mundial para o preço de commodities agrícolas]”, afirma.

A atenção global sobre o território brasileiro deve aumentar drasticamente no segundo semestre, período em que começa o plantio da soja no país, entre setembro e outubro. O principal risco reside na distribuição irregular das chuvas nas principais regiões produtoras.

A analista pondera as diferenças geográficas desse impacto e o peso econômico do principal estado produtor do país. “O Sul pode ter mais umidade, mas Mato Grosso, Matopiba [acrônimo representa os estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia] e parte do Centro-Oeste podem enfrentar chuva irregular, calor e veranicos no início da safra”, explica Isabella.

Ela complementa que “se o Mato Grosso for muito afetado por atraso ou irregularidade das chuvas, isso pode virar um fator altista para as cotações, porque o estado é a grande janela do Brasil para o mundo na soja”. Em um cenário de maior risco para a produção nacional, o mercado financeiro tende a colocar um prêmio climático sobre a safra do país.

Inflação alimentar e estratégias de mitigação no campo

Internamente, os reflexos do El Niño atingirão em cheio o bolso do consumidor final. Historicamente, anos sob a influência desse fenômeno registram uma inflação alimentar quase duas vezes maior que períodos de neutralidade climática.

Em 2026, a alta pode chegar a 15% nos preços de frutas, legumes e hortaliças, além do encarecimento de carnes e laticínios decorrente das pastagens secas que elevam os custos de suplementação na pecuária.

Esse cenário de inflação elevada e juros pressionados deve estimular a busca por ativos defensivos e seguros agrícolas, além de gerar reflexos fiscais como a redução da arrecadação nos setores produtivos afetados e fortes pressões por incentivos governamentais.

Diante de tamanha vulnerabilidade, o planejamento tributário, financeiro e regulatório torna-se indispensável para a sobrevivência das propriedades e empresas do agronegócio. Estratégias como a gestão de tributos sobre insumos, a renegociação de dívidas do crédito rural e a contratação otimizada de seguros agrícolas surgem como ferramentas cruciais de proteção.

Júnior Rozante, CEO da RZ3, resume a gravidade e a oportunidade contidas no atual momento de transição. “O El Niño de 2026 não é apenas um fenômeno climático: é um divisor de águas para a economia brasileira. Seus impactos exigem políticas públicas robustas, investimentos em infraestrutura e energia, além de estratégias empresariais de adaptação. O Brasil terá de transformar vulnerabilidade em oportunidade para garantir resiliência diante de um dos maiores desafios de sua história recente”, conclui o executivo.


Destaque – El Niño confirmado é motivo de preocupação para o agronegócio. Imagem: aloart / G.I.


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