Levantamento da Transparência Internacional coloca o país na 107ª posição entre 182 nações e alerta para os reflexos diretos do problema na vida da população
Falar sobre corrupção costuma remeter a imagens de plenários distantes, operações policiais e grandes somas de dinheiro. Contudo, os efeitos das falhas de integridade no setor público afetam diretamente o cotidiano da sociedade: estão na falta de insumos em postos de saúde, na má qualidade de obras públicas e no gargalo de serviços essenciais.
Esse panorama foi detalhado no relatório do Índice de Percepção da Corrupção (IPC), elaborado pela ONG Transparência Internacional. No indicador, o Brasil obteve 35 pontos em uma escala que vai de 0 a 100 — em que notas menores indicam maior percepção de práticas corruptas. O resultado manteve o país na 107ª posição entre 182 territórios avaliados, abaixo da média global e da média das Américas, ambas fixadas em 42 pontos.
No topo da lista mundial como os países com menor percepção de corrupção aparecem a Dinamarca (89 pontos), a Finlândia (88 pontos) e Cingapura (84 pontos).
Fatores que pressionaram o desempenho do país
A análise qualitativa apresentada pelo relatório apontou fragilidades institucionais e retrocessos em diversas frentes da gestão pública e do Judiciário brasileiro. Entre os principais pontos de alerta destacados na avaliação estão:
○ Opacidade na gestão de obras públicas: a falta de transparência em programas de investimento, como o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), dificultando o controle social dos recursos.
○ Aumento da ingerência política: pressões e interferências na governança de estatais estratégicas, com destaque para a Petrobras.
○ Ampliação do sigilo oficial: imposição frequente de segredo a documentos e dados públicos, impondo barreiras ao acesso à informação garantido por lei.
○ Manejo de emendas parlamentares: a destinação de verbas orçamentárias com baixa rastreabilidade, incluindo repasses voltados a ações de combate à seca e emergências climáticas.
○ Decisões judiciais e anulações: o impacto do arquivamento em série de processos e da anulação de acordos de leniência por determinações do Supremo Tribunal Federal (STF), a exemplo dos desdobramentos do caso Odebrecht.
Presença do crime organizado nas estruturas de Estado
Outro ponto de forte preocupação levantado pelo documento é o avanço e a sofisticação das redes criminosas, que deixaram de atuar apenas à margem da lei para se infiltrar nas instâncias de decisão do poder público e nas forças de segurança. O relatório alerta para um cenário de aliciamento institucional no qual facções cooptam agentes policiais, integrantes do Poder Legislativo e autoridades locais para garantir proteção a suas operações ilícitas e vazamento de investigações.
A Transparência Internacional destaca que essa infiltração ocorre de forma sistêmica. As redes criminosas utilizam brechas de fiscalização para lavar dinheiro e cooptar setores estratégicos da economia e da administração pública, como o transporte coletivo, a gestão de resíduos e o mercado de combustíveis, disputando e vencendo licitações municipais e estaduais.
O impacto dessa aliança entre crime, corrupção e cooptação policial também se reflete gravemente na segurança pública e no meio ambiente, especialmente na Amazônia. O relatório aponta que a vista grossa ou a cumplicidade de agentes de fiscalização e forças de segurança em certas regiões é o que viabiliza a manutenção do garimpo ilegal, do desmatamento e das rotas de narcotráfico nas fronteiras. Ao financiar campanhas e capturar órgãos de controle, o crime organizado garante imunidade e abocanha orçamentos públicos que deveriam servir à população.
O posicionamento oficial do governo
Em resposta aos dados divulgados pelo indicador, a Controladoria-Geral da União (CGU) emitiu uma nota ressaltando que o IPC avalia a percepção de especialistas e executivos do mercado, e não a ocorrência efetiva de crimes.
O órgão governamental destacou os esforços contínuos para o fortalecimento das políticas de integridade, a ampliação dos mecanismos de controle interno e a retomada de portais de transparência, argumentando que mudanças estruturais e metodológicas na fiscalização levam tempo para se refletir nas avaliações internacionais.
Os impactos sociais no cotidiano do cidadão
Para além de tabelas e posições em rankings, a dinâmica da corrupção interfere diretamente nas oportunidades e no bem-estar da população brasileira.
Em nota enviada à imprensa, a assessoria da Transparência Internacional reforçou como esses desvios afetam a vida comum.
“Quando falamos em corrupção, muita gente pensa em escândalos distantes, cifras milionárias ou disputas entre políticos em Brasília. Mas a verdade é que a corrupção está mais perto do que parece — e tem impactos profundos no seu dia a dia. Ela aparece quando: Hospitais públicos ficam sem médicos e remédios porque recursos foram desviados; Milhões de aposentados veem seus fundos de pensão desaparecerem em esquemas fraudulentos; Alunos não aprendem porque a verba da educação foi mal aplicada; Comunidades inteiras são obrigadas a sair de suas casas por causa de obras superfaturadas e mal fiscalizadas. A corrupção tira vidas, destrói direitos e aprofunda desigualdades.”
Destaque – Brasil ocupa a 107ª posição em ranking da Transparência Internacional, que analisa o impacto da corrupção no serviço público e na sociedade. Imagem: IA image ChatGPT / + aloart



