Durante décadas, o Brasil tratou a chamada “Lei de Gérson” como uma caricatura nacional, em que a velha propaganda de cigarro entrou para o imaginário coletivo como símbolo de uma cultura de vantagem, esperteza e acomodação moral diante do pequeno desvio. O problema é que, no ambiente corporativo, essa lógica raramente aparece com linguagem vulgar, ela se apresenta bem-vestida, com crachá, justificativa comercial, agenda institucional e reembolso aprovado.

Ninguém chama corrupção de corrupção quando ela achega em forma de convite para um evento estratégico. Ninguém descreve influência indevida quando o assunto é uma viagem “necessária para relacionamento”. Poucos enxergam risco quando o presente vem acompanhado de cartão elegante, quando o jantar ocorre em restaurante caro, quando a hospitalidade é tratada como cortesia de mercado ou quando a presença de agentes públicos, executivos de empresas estatais, compradores privados e parceiros relevantes se mistura em ambientes onde a fronteira entre relacionamento e captura fica deliberadamente confortável.

É justamente aí que a corrupção corporativa se torna sofisticada, porque ela não começa, necessariamente, com um envelope, uma conta no exterior ou uma ordem explícita para fraudar uma concorrência. Muitas vezes nasce em zonas socialmente aceitas, nas pequenas concessões que parecem irrelevantes quando analisadas isoladamente, mas que, somadas, constroem dependência, reciprocidade e expectativa de favorecimento.

Quando a cortesia se transforma em risco de integridade

Presentes, refeições, viagens e eventos corporativos não são ilícitos por natureza, o risco está na função que passam a exercer. Quando a cortesia deixa de ser institucional e começa a produzir constrangimento decisório, o Compliance deve acender o alerta. Quando a agenda de relacionamento se aproxima de uma negociação em curso, de uma renovação contratual, de uma fiscalização, licença, decisão regulatória ou de uma escolha de fornecedor, o problema deixa de ser etiqueta empresarial e passa a ser governança de integridade.

A pergunta que raramente se faz é a mais importante: aquilo que está sendo oferecido resistiria à luz pública, à leitura de um auditor independente, ao olhar de um regulador ou à manchete de um jornal? Se a resposta exige explicação demais, talvez o risco já esteja instalado.

A antiga “vantagem” da propaganda ganhou novas formas no mundo corporativo. Hoje ela pode aparecer no camarote, no congresso internacional, no jantar reservado, na diária paga, no upgrade de hotel, no convite extensivo ao acompanhante, no brinde acima do razoável, na palestra patrocinada, no evento técnico que tem menos conteúdo e mais aproximação estratégica. A embalagem muda, mas a lógica permanece: criar uma assimetria emocional, econômica ou relacional capaz de inclinar decisões que deveriam ser tomadas por critérios objetivos.

Compliance vai além do formulário

O ponto mais incômodo é que muitas empresas possuem políticas sobre brindes e hospitalidades, mas continuam tratando o tema como burocracia de formulário. Estabelecem valores, criam fluxos de aprovação, exigem registro em sistema e acreditam que isso basta. Não basta. Um controle que apenas registra a vantagem pode funcionar como arquivo organizado do problema, não como barreira ética real.

Compliance maduro não pergunta apenas “qual é o valor?”, pergunta quem oferece, quem recebe, em que contexto, com qual frequência, próximo de qual decisão, em benefício de quem, com que grau de transparência e qual seria a percepção externa se todos os detalhes fossem conhecidos. A corrupção moderna não depende apenas do montante, mas do contexto.

Talvez a grande provocação seja esta: quantas empresas condenam publicamente a cultura da “Lei de Gérson”, mas internamente ainda toleram a lógica de que relacionamento justifica quase tudo?

O Brasil não precisa apenas revogar simbolicamente a cultura de levar vantagem, precisa enfrentar as versões corporativas, refinadas e socialmente aceitas dessa mesma mentalidade. Porque a integridade não é testada quando todos concordam com ela em uma política interna, mas quando um negócio relevante depende de dizer não a uma cortesia conveniente.


Patricia Punder – Advogada com atuação nacional, América Latina e mercados emergentes; reconhecida como referência em Compliance, LGPD e ESG, foi nomeada como perita judicial no caso Americanas; professora, é coautora de quatro livros de referência em compliance e governança; autora da obra “Compliance, LGPD, Gestão de Crises e ESG – Tudo junto e misturado” – 2023, Arraeseditora.

 


Nota da Redação:

O ex-jogador Gérson, considerado o “cérebro da Seleção Brasileira” na conquista do Tricampeonato Mundial de 1970, no México, estrelou uma propaganda de cigarros em 1976 — época em que o fumo era permitido na maioria dos recintos públicos e privados, e esse tipo de publicidade era amplamente disseminado nos meios de comunicação.

Na ocasião, Gérson foi garoto-propaganda de uma marca que vendia seu produto por um preço mais acessível sob o slogan: “Gosto de levar vantagem em tudo, certo?”. Sem imaginar que a frase se transformaria em constrangimento para sua vitoriosa e respeitada carreira, a conhecida “Lei de Gérson” — termo originalmente associado ao tema — trouxe diversos dissabores ao craque. Por essa razão, a redação optou propositalmente por alterar o título do artigo para “Cortesia ou corrupção? A ‘Lei de Levar Vantagem em Tudo’ nunca saiu das empresas, apenas ficou mais sofisticada”.

O ex-atleta lamentou profundamente ter gravado o comercial após a frase ser tirada de contexto e transformar-se em um estigma injusto sobre sua honestidade, sendo associada pejorativamente à malandragem, à corrupção e ao “jeitinho brasileiro”. O assunto tornou-se um grande incômodo para o ídolo, que reagia com indignação, interrompia entrevistas ao ser questionado sobre o tema e chegou a acionar a Justiça contra pessoas e veículos que usaram seu nome para ilustrar atos desonestos.

Em respeito ao nome do jogador Gérson e à sua história, fazemos esta ressalva para esclarecer aos nossos leitores, sobretudo aos mais jovens, o verdadeiro contexto da expressão.


Destaque – Relações institucionais e cortesias corporativas exigem limites claros de governança para evitar conflitos de interesse. Imagem: Divulgação / +aloart / G.I. / IA image


“As opiniões expressas neste texto não refletem a opinião do portal e são de responsabilidade do autor e de sua assessoria”


 

Leia outras matérias desta editoria

Mandato de 12 anos para ministros do STF

A OAB de São Paulo, o Instituto dos Advogados de São Paulo e a Associação dos Advogados — três entidades representativas da advocacia paulista — têm apontado que a perda de credibilidade do Supremo Tribunal Federal decorre do fato de a Corte ter deixado de...

Nove minutos em Copacabana e a conta que nenhum candidato apresenta

Quatro homens executaram uma sentença de morte na calçada por suspeita de furto de bicicleta, e nenhum deles era policial. Enquanto os presidenciáveis prometem prisão perpétua e importam o rigor de outros países, ninguém explica quem paga a conta nem por...

Redes sociais explicam, em números, o poder do Caso Master em impulsionar crises políticas

Há algumas semanas, abordei em um levantamento o período de mais de um mês que torcida do Corinthians levou para produzir cerca de 43 mil menções à hashtag #FicaMemphis, nas redes sociais, e forçar o clube a reabrir uma negociação que já era tratada como...

Split payment deve ficar para 2028, mas o impacto no caixa começa agora

A previsão de que o split payment se torne obrigatório apenas em 2028 foi recebida por parte do mercado como um alívio. Eu faço uma leitura diferente: as empresas ganharam mais tempo para se preparar, mas isso não significa que possam adiar a preparação. A...

Brasil medieval

Esta não é uma história de ficção; é baseada em fatos reais. A temida Inquisição (séc. XII e XIII) da Idade Média queimava pessoas vivas. Quando não havia provas para condená-las, alegava-se bruxaria ou curandeirismo. A partir do séc. XV, já na Idade...

Corrupção: a conta que o Brasil não pode mais pagar

É impressionante como temos, constantemente, nos governos dos partidos de esquerda — que dirigem o país há cerca de 17 anos e meio —, escândalos que contribuem para nos colocar entre os países mais corruptos do mundo, conforme dados da Transparência...

Lula e Flávio faltam a debate na Band; Zema cancela participação em cima da hora

Se a questão era evitar os desgastes em confronto com questões sensíveis, o não comparecimento deixa em aberto uma lacuna de credibilidade. Antes de quaisquer análises, a ausência de três presidenciáveis comprova o distanciamento que ainda existe entre as...