
Olívia Resende – Especialista em Educação Financeira, Economista, mestre e doutora em Administração.
“Dinheiro na mão é vendaval”, canta Paulinho da Viola em Pecado Capital. Basta o salário cair na conta para o verso ganhar vida. O aluguel leva uma parte, o supermercado fica com outra, as prestações chegam logo atrás. Quando sobra alguma coisa, já há uma necessidade esperando. É nessa conversa entre o dinheiro que entra e as contas que não dão trégua que o relatório Focus encontra a vida real.
Na pesquisa do Banco Central em 23 de outubro de 2026, os participantes projetam inflação de 5,19% para o ano. São expectativas, não um resultado fechado. Ainda assim, o número preocupa. Ele está acima do limite superior de tolerância da meta, de 4,5%, e ajuda a dimensionar o desafio de fazer a renda acompanhar os preços.
Pense em uma compra de R$ 1.000. Se ela seguisse exatamente a inflação projetada, passaria a custar R$ 1.051,90. Para quem tem folga, talvez seja possível absorver a diferença. Para quem já faz contas no corredor do supermercado, pode ser mais itens devolvidos à prateleira.
Cada família sente uma inflação diferente, conforme aquilo que consome. O relatório Focus nos permite discutir o risco de novas perdas de poder de compra quando a renda não acompanha os preços.
Há uma melhora esperada adiante. A projeção de inflação cai para 4,34% em 2027 e chega a 3,50% em 2029. Mas convém não confundir o ritmo da música com o fim da dança. Inflação menor ainda pode significar preços subindo. O orçamento ganha algum respiro quando os aumentos desaceleram, mas o dinheiro não recupera sozinho o que deixou de comprar.
E quando a saída parece ser parcelar? Aí entram os juros. O Focus aponta Selic de 13,25% ao final de 2026 e de 11,75% no encerramento de 2027. A queda esperada é bem-vinda, embora não garanta crédito barato. A taxa cobrada de cada pessoa depende também do prazo, das garantias e do risco da operação. Antes de aceitar uma parcela pequena, vale olhar o tamanho da conta, ou seja, do total a ser pago no final.
Do lado da atividade, a expectativa é de crescimento de 1,80% neste ano e de 1,31% no próximo. A economia deve avançar, mas em passo moderado. Minha preocupação está justamente nessa combinação. Preços ainda pressionados e crescimento modesto tornam mais difícil ampliar a renda e aliviar o orçamento. Economizar ajuda, mas há um limite para o que uma família consegue cortar.
As contas públicas também exigem cuidado. A dívida líquida do setor público é projetada em 70,10% do PIB em 2026 e em 79,13% em 2029. Melhorar a qualidade dos gastos e construir uma trajetória fiscal sustentável precisa fazer parte da resposta, com atenção aos serviços que a população depende.
O Focus não escreve o futuro. Ele mostra expectativas e convida a olhar os riscos antes que se tornem problemas maiores. Para as famílias, comparar o custo do crédito e acompanhar as despesas são cuidados úteis.
Para o país, controlar a inflação e criar condições para a renda crescer são tarefas indispensáveis, pois quem trabalha o mês inteiro merece fazer planos que durem mais do que o saldo do salário.
Destaque – Inflação, juros e crescimento econômico moderado pressionam o orçamento das famílias e dificultam a recuperação do poder de compra. Imagem: aloart / G. I.
“As opiniões expressas neste texto não refletem a opinião do portal e são de responsabilidade do autor e de sua assessoria”










