Programa criado para atender pessoas em situação de rua e de baixa renda ampliou seu público; pesquisa da Fundação Seade mostra que 63,8% dos frequentadores teriam dificuldade para garantir todas as refeições sem o serviço.
O caminhão chega, a fila se forma e, por R$ 1, cada pessoa recebe uma refeição completa. A cena se repete em diferentes bairros de São Paulo, onde o Bom Prato Móvel atende moradores que precisam economizar, pessoas desempregadas, aposentados e trabalhadores que encontram no serviço uma alternativa para reduzir as despesas com alimentação.
Na praça Recanto Verde, no Tremembé, zona norte da capital, os primeiros usuários começam a chegar antes mesmo do início da distribuição, às 11h. O caminhão vinculado à unidade do Tucuruvi está instalado no local e distribui, em média, 300 marmitas por dia.
Entre os frequentadores está a aposentada Agmar Pinto Ribeiro, de 76 anos, que mora nas proximidades e utiliza o serviço diariamente. Como vive sozinha, encontrou no programa uma maneira de reduzir gastos e o tempo dedicado ao preparo das refeições.
“Ganho tempo e gasto bem menos do que se eu preparasse minha comida em casa. Além disso, os pratos são bem variados e, na quarta-feira, tem feijoada, que é uma delícia”, contou à reportagem da Agência São Paulo, vinculada ao Governo do Estado.
O relato ilustra uma realidade que vai além da praticidade. Para quem recebe aposentadoria, tem renda limitada ou precisa administrar sozinho as despesas domésticas, economizar na alimentação pode significar preservar recursos para medicamentos, moradia, contas e outras necessidades básicas.
De atendimento emergencial a uma rede para diferentes públicos
Criado em dezembro de 2000, o Bom Prato surgiu com a finalidade de oferecer refeições a preços acessíveis à população de baixa renda. Naquele período, pessoas em situação de rua e desempregados estavam entre os principais públicos que dependiam dos restaurantes populares para conseguir uma alimentação diária.
A mudança no perfil dos frequentadores já era observada há alguns anos. Em reportagem publicada em novembro de 2019, a BBC News Brasil registrou o crescimento da presença de desempregados, pessoas sem renda fixa, trabalhadores em ocupações precárias e famílias de baixa renda nas unidades do programa. Dados da Secretaria de Desenvolvimento Social citados na ocasião apontavam que, entre 2018 e 2019, aumentou 250% o número de frequentadores que declaravam não ter renda.
A pesquisa de percepção realizada pela Fundação Seade em 2025, com 2.333 frequentadores de 40 unidades fixas, oferece um retrato mais recente dessa realidade.
O levantamento identificou que 55,6% dos entrevistados tinham renda mensal de até um salário mínimo. Além disso, 68% estavam inscritos no Cadastro Único e recebiam algum benefício de transferência de renda. Quase metade, 46%, morava sozinha.
Um dos resultados mais significativos diz respeito à dependência do serviço: 63,8% dos entrevistados declararam que teriam dificuldade para garantir todas as refeições do dia caso não pudessem contar com o Bom Prato.
Os números ajudam a compreender por que o programa passou a atender também aposentados e trabalhadores que, embora tenham alguma fonte de renda, enfrentam limitações para manter as despesas domésticas. A utilização do serviço durante o intervalo do expediente é apenas uma das situações encontradas entre os frequentadores.

Bom Prato Móvel em Tremembé: programa destinado à vulneráveis, hoje atende várias camadas sociais. Foto: Divulgação/Governo de São Paulo
O custo da alimentação e o orçamento das famílias
O preço de R$ 1 pelo almoço e jantar representa uma parcela pequena do custo de uma refeição completa. Para o usuário, a diferença pode ajudar a manter o orçamento doméstico, especialmente quando a renda precisa cobrir despesas que não podem ser adiadas.
Entretanto, é importante compreender que o Bom Prato não oferece refeições gratuitamente. O usuário paga um valor simbólico, enquanto o funcionamento do programa depende de recursos públicos. Trata-se de uma política de segurança alimentar financiada coletivamente, por meio da arrecadação de impostos.
A dimensão desse financiamento também convida a uma reflexão sobre o papel dos serviços públicos. A existência de restaurantes populares, transporte subsidiado e outras políticas de assistência deve ser compreendida como parte das responsabilidades do Estado perante a sociedade, e não como uma concessão pessoal de governantes.
O desafio não está apenas em ampliar a oferta desses serviços, mas também em compreender as condições econômicas que levam tantas pessoas a depender deles para atender necessidades essenciais.
Como funciona o Bom Prato Móvel
Atualmente, o serviço conta com 49 caminhões, cada um responsável pela distribuição de aproximadamente 300 marmitas por dia, de segunda a sexta-feira. Os pontos de atendimento são alterados a cada quatro meses, permitindo que outras localidades também sejam contempladas.
As refeições são preparadas nas unidades fixas do Bom Prato e seguem o mesmo padrão de cardápio dos restaurantes. As marmitas incluem arroz, feijão, proteína, guarnição de legumes, vegetais ou tortas, salada e sobremesa, de acordo com a divulgação governamental. A escolha dos locais considera a vulnerabilidade social da população e a distância em relação à unidade fixa responsável pelo abastecimento.
No Tremembé, o atendimento é vinculado à unidade do Tucuruvi. A iniciativa permite levar refeições a regiões mais distantes dos restaurantes fixos, ampliando o acesso da população à alimentação a preços subsidiados.
Mais do que uma facilidade para quem trabalha ou mora nas proximidades, o Bom Prato representa uma alternativa para pessoas que precisam fazer a renda disponível alcançar todas as despesas do mês. Sua importância social também está no que os frequentadores conseguem preservar do próprio orçamento quando o custo de uma refeição deixa de ser um obstáculo diário.
Destaque – Bom Prato Móvel distribui refeições a R$ 1 em bairros da capital paulista e atende pessoas que precisam economizar no orçamento doméstico. Foto: Celso Silva










