Pasta injetável à base de vidro bioativo está em fase inicial de fabricação e será submetida a ensaios laboratoriais e ao processo regulatório para uso potencial em cirurgias ortopédicas e odontológicas.


Uma fábrica em Meriden, no estado americano de Connecticut, iniciou a produção dos primeiros lotes de um biomaterial desenvolvido para aplicações em procedimentos ortopédicos e odontológicos. Trata-se do nanobiovidro da Livitah Life Sciences, uma pasta injetável à base de vidro bioativo em partículas nanométricas, desenvolvida com participação de dois brasileiros: o engenheiro Marcio Livio Serpa, fundador da empresa, e o pesquisador Paulo Ferreira, responsável pela coordenação técnica da produção.

Ferreira está nos Estados Unidos desde 17 de outubro e permanece no país até fevereiro, acompanhando a fabricação dos lotes iniciais e os primeiros ensaios laboratoriais. Serpa responde pela área de negócios, investimentos e processo regulatório.

O vidro bioativo é utilizado há décadas como substituto de enxertos ósseos. Em contato com os fluidos do organismo, o material libera íons de cálcio e fósforo, favorecendo a formação de hidroxiapatita, mineral que confere rigidez aos ossos. A utilização de partículas em escala nanométrica também já é objeto de pesquisas científicas há anos.

O diferencial da proposta da Livitah está no controle do tamanho e do formato dessas partículas e na apresentação do material como uma pasta injetável, pronta para aplicação em procedimentos cirúrgicos. Segundo a equipe, partículas esféricas e regulares oferecem maior área de contato com o organismo, o que pode tornar a dissolução do material mais rápida e previsível. A expectativa é favorecer a osteointegração, processo pelo qual o tecido ósseo se une ao enxerto ou implante.

“Quanto menor e mais regular a partícula, melhor o organismo responde a ela. O que precisamos agora é demonstrar isso em laboratório, com método e repetibilidade, lote após lote”, afirma Ferreira. Para o pesquisador, um dos principais desafios é reproduzir em escala industrial a precisão alcançada nos experimentos de laboratório. “Fazer uma amostra boa é uma coisa. Fazer cem iguais é o que transforma pesquisa em produto”, observa.

Ensaios e processo regulatório

A produção atual representa uma etapa inicial do desenvolvimento. Nos Estados Unidos, o nanobiovidro é enquadrado pela FDA, agência reguladora de alimentos e medicamentos, como dispositivo médico de classe II. A comercialização depende da comprovação de segurança e eficácia, conforme as exigências regulatórias aplicáveis.

A empresa estima investir cerca de US$ 200 mil em consultorias e testes nessa fase. Os primeiros lotes fabricados em Connecticut serão utilizados nos ensaios laboratoriais que integram o processo.

“Nos Estados Unidos, um produto só chega às mãos do cirurgião depois de passar pela FDA e cada etapa precisa estar documentada desde o primeiro lote. Ter a fábrica, a pesquisa e a universidade no mesmo estado encurta muito esse caminho”, afirma Serpa.

A estrutura industrial foi inaugurada em junho, com a presença dos sócios investidores. Até o momento, a empresa captou aproximadamente US$ 1 milhão junto a investidores brasileiros e americanos. Também contratou a UConn Health, centro de saúde da Universidade de Connecticut, para a realização de ensaios de pesquisa e desenvolvimento, além de integrar o programa de aceleração da AdvanceCT, organização de desenvolvimento econômico que atua em parceria com o governo estadual.

Mercado de biomateriais

O mercado de substitutos de enxertos ósseos é um dos fatores que ajudam a dimensionar o potencial comercial da tecnologia. Segundo projeções da consultoria Fortune Business Insights, o segmento global deverá movimentar US$ 4,55 bilhões em 2026. A América do Norte respondeu por 46% das vendas no ano passado, enquanto os materiais sintéticos, categoria que inclui o vidro bioativo, representam 58% do mercado e lideram o crescimento.

Pesquisa e experiência industrial

O desenvolvimento reúne trajetórias profissionais distintas. Paulo Ferreira pesquisa vidros bioativos e nanopartículas há mais de dez anos. Doutor pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com período de pesquisa na University of Florida, possui 31 artigos científicos publicados e cinco pedidos de patente no Brasil, um deles já concedido. Sua atuação concentra-se no conhecimento técnico que sustenta a formulação nanométrica do material.

Marcio Livio Serpa é engenheiro industrial mecânico, tem MBA em engenharia da qualidade pela Universidade de São Paulo (USP) e acumula mais de três décadas de experiência na indústria de produtos para a saúde. Trabalhou em empresas como Johnson & Johnson, Shalon Medical e IKK do Brasil, além de atuar na área de pesquisa e desenvolvimento da Vale. Na Ortossíntese, como consultor, liderou o desenvolvimento da primeira linha brasileira de implantes ortopédicos absorvíveis.

Nesta primeira fase, o projeto concentra-se nas aplicações em ortopedia e odontologia, áreas nas quais a regeneração óssea tem papel importante na recuperação dos pacientes e no sucesso de enxertos e implantes. A possibilidade de reduzir o tempo necessário para esse processo, entretanto, ainda depende dos resultados dos ensaios e das etapas de validação científica e regulatória.


Destaque – Produção dos primeiros lotes de nanobiovidro em Connecticut marca nova etapa de tecnologia desenvolvida com participação de pesquisadores brasileiros. Imagem: LLS