Paulo Figueiredo atribui mudanças no documento ao uso de inteligência artificial; Trump critica a eleição brasileira, e editorial do Wall Street Journal questiona a atuação das instituições.
A carta divulgada por Flávio Bolsonaro nos Estados Unidos ganhou novos desdobramentos após a circulação de diferentes versões do documento. As alterações envolveram trechos do texto e elementos visuais, incluindo a substituição da apresentação do senador como “presidente eleito” pela expressão “líder do Brasil”.
A explicação pública sobre as mudanças foi apresentada por Paulo Figueiredo, aliado da família Bolsonaro que atua nos Estados Unidos. Em declaração à Reuters, ele afirmou que Eduardo Bolsonaro utilizou o ChatGPT como auxílio na elaboração final da carta e que a ferramenta teria recuperado uma versão anterior do texto, além de inserir um brasão desatualizado do Brasil.
Segundo Figueiredo, a versão preliminar continha a expressão “verdadeiro presidente eleito”. Ele afirmou que Flávio optou posteriormente pelo termo “líder” por razões jurídicas e morais. O aliado também disse que os erros só foram percebidos depois que o documento havia sido distribuído à imprensa.
A sequência de alterações foi identificada em diferentes arquivos e publicações. Entre as mudanças estava um brasão antigo, com a inscrição “Estados Unidos do Brazil”, grafia utilizada em documentos oficiais no início do período republicano. A versão posterior passou a apresentar o brasão da República Federativa do Brasil.
A Reuters informou que a assessoria de Flávio e a OpenAI não responderam imediatamente aos pedidos de comentário. A agência também registrou que a carta mantinha a contestação do resultado eleitoral e alegações de fraude sem apresentação de provas que sustentassem a afirmação de irregularidades capazes de alterar a votação.
Trump chama eleição brasileira de “desgraça”
A repercussão ultrapassou o episódio da carta. Em 29 de outubro, ao conversar com jornalistas antes de embarcar no Air Force One, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que conversaria com Lula, mas classificou a eleição brasileira como uma “desgraça” (disgrace).
Questionado sobre quem considerava o vencedor legítimo, Trump evitou apontar um nome. Disse que havia acompanhado o processo, que não tomou partido e que o resultado representava um grande constrangimento para o povo brasileiro.
A declaração expressa a avaliação política do presidente americano sobre o pleito, mas não apresenta provas de fraude nem indica formalmente um resultado alternativo.
Wall Street Journal questiona atuação das instituições brasileiras
Outro desdobramento veio do The Wall Street Journal. Em editorial publicado em 28 de outubro, intitulado “To Brazil’s Victor Goes Political Revenge” — em tradução livre, “Ao vencedor do Brasil, a vingança política” —, o conselho editorial do jornal questionou medidas judiciais relacionadas a Flávio Bolsonaro, especialmente a determinação para que entregasse seus passaportes.
O texto afirma que a ordem ocorreu poucos minutos depois da reeleição de Lula e atribui ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), a autorização de um pedido da Polícia Federal para apreender os documentos de viagem do senador.
O editorial também relata que Flávio deixou o Brasil com a mulher e as filhas, atravessou a fronteira com a Argentina e chegou a Miami no dia seguinte. O jornal considera a concessão de vistos pelos Estados Unidos à família uma “oferta justificável de proteção política”.
O Wall Street Journal sustenta que Flávio não havia sido formalmente acusado de crime e questiona se ele poderia receber um julgamento justo caso viesse a ser processado. O editorial também critica a atuação de Moraes, a quem apresenta como aliado de Lula, e afirma que o ministro teria ampliado sua jurisdição em função de objetivos políticos.
Há, entretanto, um dado importante para contextualizar essa avaliação: a Reuters informou que a ordem relativa à entrega dos passaportes estava relacionada a uma investigação sobre suspeita de lavagem de dinheiro, na qual Flávio nega qualquer irregularidade. O editorial do jornal americano não desenvolve esse contexto investigativo.
O texto também aborda a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro pelo STF, menciona o voto divergente do ministro Luiz Fux e questiona aspectos do processo e do devido processo legal. Na avaliação do conselho editorial, a atuação das instituições brasileiras merece atenção diante dos riscos que, segundo o jornal, podem comprometer a independência do Judiciário.
O alerta do conselho editorial
Em texto publicado na Gazeta do Povo, o colunista Rodrigo Constantino destacou que o editorial “não é de um blogueiro de direita nem de um militante bolsonarista. É do conselho editorial” de um dos jornais de maior influência internacional. A observação ressalta que o posicionamento foi publicado institucionalmente pelo conselho editorial do veículo, e não por um articulista individual.
Na conclusão, o Wall Street Journal compara o caminho de países que, segundo sua avaliação, passam da liberdade à autocracia. O trecho final diz:
“Onde as instituições são fortes, o Estado de Direito pode sobreviver. Não está claro se o Brasil conseguirá.”
A manifestação representa a posição editorial do jornal americano. Suas críticas e avaliações não constituem decisões judiciais nem comprovam, por si só, as acusações de perseguição política. Ainda assim, a publicação amplia a repercussão internacional do episódio e coloca em discussão a relação entre instituições, Justiça e Estado de Direito no Brasil.
Destaque – Alterações na carta de Flávio Bolsonaro provocaram explicações de aliados e repercussão internacional, com críticas de Donald Trump e um editorial do Wall Street Journal sobre as instituições brasileiras. Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado




