Estudo da CNT aponta que navegação interior movimentou 91,3 milhões de toneladas e sugere agenda estratégica até 2046.
O Brasil utiliza economicamente 20,4 mil quilômetros de vias navegáveis interiores para o transporte de cargas, volume que representa menos da metade dos 41,7 mil quilômetros previstos no Plano Nacional de Viação. O dado evidencia a possibilidade de ampliar o uso dos rios na logística nacional e consta no Estudo sobre Regulação e Governança da Navegação Interior Brasileira, elaborado pela Pezco Economics e promovido pela CNT. O estudo foi disponibilizado no site da entidade.
Apesar de subutilizada, a navegação interior tem participação relevante no escoamento de mercadorias. Em 2025, o segmento movimentou 91,3 milhões de toneladas, registrando um crescimento de 19,7% em relação ao ano anterior. Ao considerar a parcela da cabotagem realizada em vias interiores, o volume chega a aproximadamente 116 milhões de toneladas, segundo a Antaq (Agência Nacional de Transportes Aquaviários).
O levantamento identifica entraves que limitam a expansão do transporte hidroviário, como a fragmentação da governança, a insegurança regulatória, as deficiências de infraestrutura e as dificuldades de captação de recursos. A análise aponta que o desafio não se resume à existência de rios navegáveis, sendo necessário criar condições para garantir a continuidade e a previsibilidade das operações.
“O país tem um potencial hidroviário expressivo, mas aproveitar essa capacidade exige planejamento, infraestrutura adequada e segurança regulatória. Avançar nesses pontos é imprescindível para integrar melhor o sistema de transporte, ampliar a eficiência logística e contribuir para a competitividade da economia brasileira”, afirma o presidente do Sistema Transporte, Vander Costa.
Agenda de desenvolvimento prevê ações até 2046
Diante dos gargalos identificados, o trabalho apresenta uma agenda de iniciativas organizadas em curto, médio e longo prazos, com horizonte estratégico até 2046. No transporte de cargas, as propostas dividem-se em seis eixos: visão estratégica das hidrovias, governança e segurança regulatória, infraestrutura, mão de obra e capacitação, segurança e financiamento.
Entre as medidas recomendadas estão a criação de uma instância nacional de coordenação da política hidroviária, a elaboração de um Plano Setorial Hidroviário e o fortalecimento de ações de dragagem e manutenção das vias navegáveis. O documento defende a continuidade do Proeclusas (Programa de Operação e Manutenção de Eclusas), o planejamento integrado por corredores logísticos e o aperfeiçoamento dos mecanismos de custeio, inclusive por concessões. A proposta busca garantir que investimentos considerem demanda, condições de navegação, acessos terrestres, terminais disponíveis e custos operacionais.
Os impactos das oscilações de navegabilidade ficaram evidenciados durante a seca de 2023 e 2024 na região amazônica, período em que cerca de 90% das embarcações no Amazonas operaram sob restrições. No corredor entre Porto Velho (RO) e Itacoatiara (AM), o tempo de viagem saltou de oito para 20 dias, com redução de 60% na capacidade de transporte e alta de até 150% nos custos de frete. A crise afetou o abastecimento direto de combustíveis em 23 municípios amazonenses.
Transporte de passageiros e mobilidade regional
Com dados da Antaq, o estudo revela que a navegação interior atende 21,2 milhões de passageiros por ano. Em 49 municípios, o transporte fluvial responde por 100% dos deslocamentos mapeados, reforçando a relevância dos rios para a mobilidade local.
No segmento de passageiros, os gargalos incluem a falta de dados estruturados, a informalidade, a infraestrutura precária e limitações financeiras. As soluções indicadas abrangem a regularização gradual dos operadores, o aprimoramento dos processos de autorização, a reforma dos terminais de embarque e desembarque e o fortalecimento da segurança operacional para transformar o potencial dos rios em capacidade efetiva de transporte.
Destaque – Porto de Manaus, Amazonas. Estudo da CNT e Pezco Economics analisa gargalos regulatórios e propõe plano de expansão para a navegação interior no Brasil. Imagem: aloart / G. I.




