Pesquisa da CNI mostra que 76% das indústrias com dificuldade de acesso ao crédito de curto e médio prazo apontam os juros como principal entrave; pequenas empresas enfrentam mais recusas.
Os juros elevados continuam sendo o principal obstáculo de acesso ao crédito pela indústria brasileira. Segundo a Sondagem Especial nº 107, divulgada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), 76% das empresas que enfrentaram dificuldades para obter financiamento de curto e médio prazo citaram as taxas como uma das principais barreiras. Nas operações de longo prazo, com vencimento acima de cinco anos, o percentual foi de quase 69%.
A pesquisa ouviu 1.701 empresas industriais entre 3 e 12 de agosto de 2026, considerando as operações realizadas ou tentadas entre fevereiro e julho. Embora a proporção de empresas que apontaram os juros tenha diminuído em relação ao levantamento anterior, o custo do crédito permanece como a principal dificuldade para o financiamento do setor.
Mais empresas não conseguem obter financiamento
Entre as indústrias que buscaram contratar ou renovar crédito de curto e médio prazo, 24,7% não conseguiram os recursos. No financiamento de longo prazo, a proporção chegou a 37,2%. Os dois indicadores pioraram em relação a 2025, quando as tentativas frustradas representavam 20% e 33%, respectivamente.
As pequenas empresas enfrentaram os maiores obstáculos. Nas operações de curto e médio prazo, 32% não conseguiram crédito, ante 28,4% das médias e 20,3% das grandes. No longo prazo, os percentuais foram de 48,2% entre as pequenas, 48,1% entre as médias e 29,9% entre as grandes.
O levantamento também mostra que uma parcela expressiva das empresas sequer procurou financiamento no período. Quase metade (49,9%) não tentou contratar ou renovar crédito de curto e médio prazo. Nas operações de longo prazo, esse percentual foi de 54%.
Garantias e burocracia também dificultam o acesso
Além dos juros, a exigência de garantias reais, como imóveis, aparece entre os principais entraves. O problema foi citado por 33,4% das empresas com dificuldade para acessar crédito de curto e médio prazo e por 31,5% das que enfrentaram obstáculos no financiamento de longo prazo.
A burocracia foi a terceira dificuldade mais mencionada nas operações de curto e médio prazo, com 13,6% das respostas. No crédito de longo prazo, 18,9% apontaram prazos de carência inferiores aos necessários para começar a pagar os financiamentos.
Crédito de longo prazo cobre despesas do dia a dia
Outro dado que chama a atenção é a finalidade dos financiamentos. Entre as empresas que buscaram, contrataram ou renovaram crédito de longo prazo, 28,7% indicaram o capital de giro como principal necessidade. A proporção ficou acima da destinada à compra de máquinas e equipamentos, citada por 23,6%, e aos investimentos em construção e instalações, com 11,6%.
O capital de giro é utilizado para cobrir despesas operacionais, como folha de pagamento, materiais e insumos. A busca por esse tipo de recurso em operações de longo prazo pode indicar dificuldades para financiar o funcionamento cotidiano das empresas, segundo a análise apresentada pela CNI.
Nas operações de curto e médio prazo, quase 60% das empresas apontaram o capital de giro como principal finalidade do crédito. Em seguida, apareceram a compra de máquinas e equipamentos, com 13,2%, e os investimentos em construção e instalações, com 5,8%.
Indústria aponta caminhos para ampliar o crédito
Questionadas sobre medidas para facilitar o acesso ao financiamento, as empresas indicaram a redução dos custos tributários e administrativos como principal alternativa. A proposta foi mencionada por 38,4% dos entrevistados para o crédito de curto e médio prazo e por 31,2% para o de longo prazo.
A ampliação das linhas de crédito públicas também foi apontada, com 22,8% das respostas para operações de curto e médio prazo e 26,3% para as de longo prazo. Já a simplificação das exigências das instituições financeiras recebeu 21,1% e 22,1% das indicações, respectivamente.
Para a analista de Políticas e Indústria da CNI, Maria Virgínia Colusso, o custo do financiamento continua elevado, apesar da redução da proporção de empresas que citam os juros como obstáculo. Ela observa que a queda da taxa básica leva tempo para se refletir nas condições oferecidas às empresas.
Fonte: Confederação Nacional da Indústria (CNI) — Sondagem Especial nº 107: Condições de Acesso ao Crédito em 2026. Com informações de Felipe Moura.
Destaque – Juros elevados e dificuldade de financiamento pressionam a indústria brasileira. Imagem: aloart / G. I.




