Laureado em 2026 participou de conferência no IMPA, no Rio, onde debateu política monetária e sustentabilidade fiscal; parceria com pesquisador brasileiro inclui estudos sobre atuação dos bancos centrais.


O economista norte-americano Michael Woodford, pesquisador da Universidade Columbia, nos Estados Unidos, esteve no Brasil em julho para participar de um encontro internacional de teoria econômica no Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), no Rio de Janeiro. Anunciado em outubro como um dos vencedores do Prêmio Nobel de Ciências Econômicas de 2026, Woodford mantém uma parceria de pesquisa com o brasileiro Aloisio Araujo, pesquisador emérito do IMPA, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) e integrante da Academia Brasileira de Ciências (ABC).

A visita ocorreu durante a 25ª Conferência da Society for the Advancement of Economic Theory (SAET), realizada de 13 a 18 de julho. O encontro reuniu mais de 300 participantes de diferentes países e contou com mais de 70 apresentações científicas. A programação também homenageou Araujo por seus 80 anos e reuniu outros três laureados com o Nobel de Economia.

Woodford e o economista Robert E. Hall, da Universidade Stanford, foram anunciados como vencedores do Nobel de Economia de 2026 por suas contribuições aos fundamentos microeconômicos da estabilização macroeconômica. Seus trabalhos ajudam a compreender como as decisões de famílias e empresas influenciam a economia e como as políticas públicas podem contribuir para sua estabilidade.

Política monetária e estabilidade econômica

Uma das principais contribuições de Woodford foi o desenvolvimento dos modelos novo-keynesianos, que combinam fundamentos microeconômicos, expectativas racionais e a possibilidade de que os preços não se ajustem imediatamente às mudanças econômicas. Essa estrutura permite analisar como decisões de governos e bancos centrais afetam empresas, consumidores e a atividade econômica.

Os modelos também incorporam a crítica do economista Robert Lucas, segundo a qual mudanças nas políticas econômicas podem alterar as expectativas e as decisões dos agentes. Ao admitir certa rigidez de preços, essa abordagem retomou questões associadas ao pensamento de John Maynard Keynes em uma estrutura teórica diferente dos modelos keynesianos tradicionais.

“Woodford fez um modelo também de base microeconômica, quer dizer, matemática de equilíbrio geral, na qual os indivíduos eram racionais. Mas ele introduziu alguma rigidez no preço”, explicou Aloisio Araujo.

Na conferência, Woodford apresentou a palestra Fiscal Sustainability and Macroeconomic Stabilization (Sustentabilidade fiscal e estabilização macroeconômica), sobre a interação entre as políticas fiscal e monetária. A apresentação examinou como as expectativas sobre a dívida pública e os compromissos fiscais dos governos influenciam a estabilidade econômica, tema relevante para decisões sobre juros, gastos públicos e endividamento.

 

O professor Aloísio Araújo e o vencedor do Nobel de Economia de 2026, Michel Woodford. Foto: IMPA

 

Parceria internacional com pesquisador brasileiro

Em 2015, Woodford e Araujo, ao lado de Susan Schommer, publicaram o artigo Conventional and Unconventional Monetary Policy with Endogenous Collateral Constraints, no American Economic Journal: Macroeconomics. O estudo investiga os efeitos de políticas monetárias convencionais e não convencionais, incluindo a compra de ativos por bancos centrais em períodos de crise.

Araujo e Woodford continuam desenvolvendo pesquisas conjuntas sobre o tema, com a colaboração de Schommer. A parceria evidencia a participação brasileira em estudos internacionais sobre instrumentos de política monetária e seus efeitos sobre a economia.

Durante o evento, Woodford destacou a trajetória do pesquisador brasileiro e seu interesse em aproximar a teoria econômica dos problemas concretos de política pública.

“Aloisio, além de ser um teórico econômico muito profundo, durante a carreira teve um interesse muito forte em usar a teoria econômica para abordar perguntas muito práticas de política pública, mas tentando mostrar que modelos sérios poderiam contribuir para elevar essas discussões”, afirmou Woodford.

Araujo, por sua vez, ressaltou a importância de aproximar pesquisadores brasileiros de nomes de destaque internacional.

“Para mim é uma grande satisfação. Tenho como uma diretriz importante trazer esses grandes economistas ao Brasil para que tenhamos um diálogo constante com a alta ciência internacional. Eles conversam com os alunos e com outros pesquisadores, fazendo com que o Brasil seja parte desse sistema de pesquisa de alto nível”, destacou.

Conferência reuniu outros laureados

Além de Woodford, a 25ª Conferência da SAET contou com Christopher Pissarides, laureado em 2010, James Heckman, vencedor em 2000, e Lars Peter Hansen, premiado em 2013. O encontro promoveu debates sobre teoria econômica contemporânea e reconheceu a contribuição de Aloisio Araujo para a economia matemática e a formação de pesquisadores no Brasil e no exterior.

A participação de Woodford ganhou dimensão adicional com o anúncio do Nobel em outubro, meses depois de sua passagem pelo país. O episódio também colocou em evidência a colaboração acadêmica com Araujo e a presença de pesquisadores brasileiros em debates internacionais sobre questões centrais da economia.


Destaque – Nobel de Economia de 2026, Michael Woodford participou de conferência no IMPA e mantém parceria científica com o brasileiro Aloisio Araujo. Foto: IMPA


Leia outras matérias desta editoria

Nobel de Economia Michael Woodford esteve no Brasil e colaborou com Aloisio Araujo

Laureado em 2026 participou de conferência no IMPA, no Rio, onde debateu política monetária e sustentabilidade fiscal; parceria com pesquisador brasileiro inclui estudos sobre atuação dos bancos centrais. O economista norte-americano Michael Woodford,...

Confiança recua entre empresas e consumidores em setembro, aponta FGV IBRE

Índices de indústria, serviços, comércio e construção caíram no mês; confiança empresarial teve terceira queda seguida e consumidores registraram o quinto recuo consecutivo A confiança perdeu força em setembro entre empresas e consumidores, segundo a...

Petrobras encontra novo intervalo de petróleo no Amapá

Segunda ocorrência no poço Morpho amplia dados sobre a Bacia da Foz do Amazonas, mas volume e viabilidade comercial ainda não foram definidos A Petrobras anunciou uma nova ocorrência de petróleo no poço Morpho, localizado no bloco FZA-M-59, em águas...

CNI considera tímida redução dos juros pelo BC e alerta sobre impactos

Entidade defende aceleração do ciclo de cortes da Selic para aliviar o endividamento, conter a compressão das margens industriais e destravar o crescimento do consumo no país. A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central de reduzir a...

Vendas de canetas emagrecedoras somam R$ 3 bilhões e impulsionam boom do setor de saúde

Crescimento de quase cinco vezes no volume de comercialização reflete mudança estrutural no hábito digital, puxada pela alta adesão da geração de baby boomers. Poucos fenômenos de consumo ilustram tão bem a recente expansão do e-commerce brasileiro quanto...

Inovação e logística social: como as ‘logtechs’ rompem barreiras e conectam as periferias

Especializada em territórios complexos, empresa expande operações unindo tecnologia de geolocalização e geração de renda nas favelas. O avanço do comércio eletrônico brasileiro — projetado para faturar mais de R$ 260 bilhões em 2026, segundo a Associação...

Incerteza eleitoral e juros altos levam 87,5% dos empresários a adotar postura de cautela

Levantamento da Resenha Company com executivos aponta que transição política, Reforma Tributária e custo do crédito desaceleram investimentos e novas contratações no país. O empresariado brasileiro chega ao último quadrimestre de 2026 em clima de compasso...