Perda de fôlego econômico e retração nas vendas acendem alerta no setor produtivo paulista.
A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) aponta a entrada da economia brasileira em uma fase de desaceleração marcada por menor dinamismo e avanço da incerteza no segundo semestre de 2026. A avaliação consta nas edições mais recentes do relatório Cenário Econômico e da pesquisa Sensor, publicadas pela entidade. Os levantamentos indicam que a perda de fôlego do Produto Interno Bruto (PIB) no segundo trimestre, associada a entraves financeiros e tarifários, coloca o ritmo produtivo sob sinal amarelo para o restante do ano e projeta um cenário de retração contínua para 2027.
Após uma expansão do PIB de 1,1% no primeiro trimestre sustentada por medidas temporárias de estímulo à demanda, a estimativa da Fiesp indica um crescimento modesto de 0,3% no segundo trimestre. O movimento reflete o esgotamento do alcance das medidas governamentais, que operaram em intensidade inferior à esperada sobre o consumo e a renda. Como resultado, a entidade projeta um crescimento econômico de 1,9% para 2026, com viés de baixa, e prevê uma desaceleração ainda mais acentuada para 2027, quando o PIB deve avançar apenas 1,1%.
Contração da atividade e pressão no parque fabril
A retração da produção industrial no país teve forte peso no resultado do segundo trimestre. O setor recuou 1,8% no mês de junho — o pior desempenho registrado para o período desde 2014 —, encerrando o trimestre com variação positiva de 0,3%, ante o avanço de 1,4% apurado nos primeiros três meses do ano. No segmento da indústria de transformação, a trajetória passou de uma expansão de 1,2% no primeiro trimestre para uma queda de 0,1% no segundo.
No âmbito estadual, o indicador antecedente Sensor, que mede a percepção dos empresários industriais paulistas, registrou 48,8 pontos na leitura de agosto. Embora represente uma alta de 2,1 pontos em relação ao mês de julho (46,7 pontos), a manutenção do índice abaixo do limiar de 50,0 pontos confirma a continuidade do processo de contração da atividade no estado. Dos cinco componentes analisados pelo Sensor, três permanecem em campo negativo: o mercado de atuação (47,5 pontos), o volume de vendas (48,0 pontos) e o nível de estoques (46,1 pontos), que sinaliza acúmulo de mercadorias acima do planejado pelas empresas.
Juros, endividamento e barreiras externas
A conjuntura desfavorável para a indústria reflete o acúmulo de fatores de restrição internos e externos. No plano nacional, a taxa básica de juros (Selic), fixada em 14% ao ano após o corte pontual de 0,25 ponto percentual promovido pelo Comitê de Política Monetária (Copom), mantém elevado o custo do crédito corporativo, que oscila entre 30% e 60% ao ano. Somam-se a isso as altas taxas de endividamento das famílias, que compromete 49,8% da renda anual e aloca 28,5% dos rendimentos mensais para o pagamento de dívidas e juros, além de uma taxa de inadimplência das pessoas físicas fixada em 7,6%, o patamar mais alto dos últimos 13 anos.
No ambiente internacional, o aperto nas margens das indústrias exportadoras foi agravado pela imposição de novas barreiras comerciais pelos Estados Unidos. A aplicação de uma alíquota adicional de 12,5% elevou a sobretaxa aos produtos brasileiros, podendo alcançar a marca de 37,5% sobre a maioria dos itens não isentos. Na indústria de transformação, 57,3% do valor total exportado ao mercado norte-americano passou a ser taxado. Em paralelo, conflitos no Estreito de Ormuz elevaram os custos do frete internacional e pressionaram as cotações de insumos derivados do petróleo e energia.
Ponto de apoio na contratação e no investimento
Apesar da retração do mercado e das vendas, a pesquisa Sensor identificou resistência nos componentes voltados à gestão interna das empresas. O indicador de empregos saltou para 52,8 pontos em agosto, marcando uma expansão expressiva de 8,5 pontos em relação a julho e figurando acima do patamar de neutralidade. O movimento indica que, a despeito do ritmo menor da demanda, o setor industrial paulista manteve contratações formais no período.
De forma semelhante, o componente referente à intenção de investimentos encerrou o mês em 52,7 pontos, registrando alta de 4,1 pontos na comparação mensal. O dado reflete a identificação de janelas favoráveis para aportes pontuais de capital e modernização fabril, a despeito da incerteza macroeconômica.
Desafios acumulados para os próximos anos
A perspectiva da Fiesp aponta que a margem para sustentação do crescimento baseado em estímulos fiscais e de crédito tende a se exaurir com o encerramento do ciclo eleitoral e o avanço da desalavancagem das famílias. Para 2026, a estimativa de expansão de 1,9% encontra sustentação pontual no desempenho do setor extrativo, da construção civil e na resiliência do mercado de trabalho.
Para 2027, no entanto, o acúmulo de juros altos por tempo prolongado, a incerteza regulatória e a retração na demanda de bens de consumo tendem a travar a formação bruta de capital fixo e o consumo privado, consolidando as projeções de crescimento em patamares reduzidos.
Destaque – Atividade industrial paulista enfrenta cenário de retração das vendas e juros altos no segundo semestre. Imagem: aloart / G. I. / IA image



