A Independência do Brasil não foi um evento único com ideais homogêneos, mas sim um processo complexo, influenciado por diferentes grupos, interesses e correntes de pensamento.


Os pensamentos liberais e iluministas que surgiram na Europa e nos Estados Unidos foram fundamentais e moldaram o ideal da separação entre a colônia e a Corte Portuguesa. Essas correntes defendiam a liberdade de comércio, o fim do absolutismo monárquico e a igualdade perante a lei.

A elite brasileira, formada por proprietários de terras e comerciantes, era influenciada por essas ideias e via na separação de Portugal a chance de se livrar das restrições econômicas impostas pela coroa.

Outro fator que influenciou a independência do país foi a autonomia política. A vinda da família real portuguesa para o Brasil em 1808 transformou a colônia em sede do Império Português. A Corte escapou do eminente ataque das tropas de Napoleão Bonaparte e do Bloqueio Continental, que exigia que Portugal aderisse ao embargo comercial contra a Inglaterra.

Quando D. João VI e sua Corte voltaram a Portugal em 1821, a Coroa tentou recolonizar o Brasil, exigindo, entre outras coisas, que D. Pedro I também voltasse à Europa. Essa atitude despertou um forte sentimento na elite dominante, que queria manter o status de Reino Unido e não voltar a ser uma simples colônia.

Alguns movimentos que originaram a Independência

A Derrama consistia em uma cobrança absurda de impostos sobre o ouro minerado na Capitania de Minas Gerais e foi o estopim da Inconfidência Mineira em 1789. Os inconfidentes, liderados por personagens históricos como Tiradentes, viam na ameaça da cobrança violenta a última gota d’água de uma série de abusos da Coroa Portuguesa.

 

Execução de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, no dia 21 de abril de 1792, único condenado à morte por enforcamento. (Reconstrução histórica feita sob apontamentos do Barão Homem de Mello, publicada na Revista Illustrada). / Wikicommons

 

Movimentos sociais, como a Inconfidência Mineira ou a Conjuração Baiana, que defendiam o fim da escravidão e a criação de uma República, tiveram influência na Independência no ano de 1822. Todavia, o ideal republicano foi um movimento liderado pela elite da época, cujo objetivo principal era a autonomia política e econômica, e não a transformação radical da sociedade.

 

Conjuração Baiana – Igreja do Hospício de Nossa Senhora da Piedade da Bahia. Acervo Artístico-Cultural dos Palácios do Governo, São Paulo. Autor: Johann Moritz Rugendas (1802–1858) / Wikicommons

 

Dessa forma, com a independência de Portugal, a escravidão foi mantida – o país foi o último do mundo a libertar os escravos – e preservaram-se os privilégios aos seus idealizadores. Esse movimento é analisado de maneira que o Brasil difere, por exemplo, de outros movimentos de independência na América que buscaram rupturas mais profundas, como nos Estados Unidos.

 

iradentes e os demais inconfidentes mineiros são representados na parte esquerda do monumento, simbolizando a luta pela implantação da República e a aspiração à liberdade que precedeu a Independência do Brasil. Fotografia de Mike Peel (www.mikepeel.net) / Wikicommons

 

Atualidade

Guardadas as devidas proporções históricas e os ideais de movimentos como o dos inconfidentes mineiros ou dos conjurados baianos que originaram a Revolta dos Alfaiates (como também é conhecida a Conjuração Baiana), os objetivos da Independência do Brasil e a Proclamação da República ainda se mantêm preservados até hoje.

Basta olhar para a história mais recente do país e descobriremos que a elite formada pelos Três Poderes da República ainda possui privilégios distantes da maior parte da população que os sustenta. Há, sim, aqueles que arduamente trabalham pela igualdade e liberdade, merecendo respeito pelas duras batalhas contra a dissimulação.

Com diferenciais de época e idealismos da elite republicana de 1822, agrava-se a demagogia sobre o Brasil – atualmente governado por um tipo de elitismo que proclama a defesa dos direitos humanos, a democracia e a proteção aos menos favorecidos, fazendo exatamente o contrário.

A hipocrisia reinante não pode ser comparada a nada que a história já tenha mostrado.

 

Sentença proferida contra os réus do levante e conjuração de Minas Gerais. Autos da Devassa da Conjuração Mineira. 18, abril. 1792. Arquivo Nacional / Wikicommons

 


Destaque – Imagem: aloart / G. I.


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