Estudo do IBEVAR-FIA analisou 172 manchetes de nove países e identificou associação entre referências às eleições brasileiras e avaliações negativas do Supremo.
A cobertura internacional do Supremo Tribunal Federal (STF) apresentou tom negativo em 58% das manchetes analisadas em um estudo do Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo e Mercado de Consumo (IBEVAR), em parceria com a FIA Business School. Nenhuma das 172 manchetes consideradas válidas recebeu classificação positiva.
O levantamento examinou publicações de nove países, distribuídos por quatro continentes, sobre a sessão do Supremo realizada em setembro de 2026, em meio à crise envolvendo o ministro Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, ligado ao Banco Master.
A pesquisa utilizou técnicas de Processamento de Linguagem Natural (NLP, na sigla em inglês) para coletar e classificar as manchetes. O objetivo foi identificar o tom da cobertura e verificar sua possível relação com fatores políticos e eleitorais.
Pesquisa descartou manchetes que não tratavam do Supremo
Os pesquisadores inicialmente reuniram 183 manchetes. Após a verificação, 11 foram descartadas porque a sigla STF não se referia ao Supremo brasileiro. Entre os resultados incorretos estavam referências a um partido regional austríaco e a um termo técnico da indústria japonesa.
Com a exclusão desses registros, a amostra final ficou em 172 manchetes. O estudo também identificou diferenças na abordagem do episódio entre os países analisados.
Linha editorial e tom das manchetes
Uma das questões examinadas foi a possível relação entre a orientação política dos veículos e o tom das publicações sobre o STF.
Para isso, os pesquisadores utilizaram um teste estatístico de independência, conhecido como qui-quadrado. “O resultado foi taxativo: não há associação estatisticamente significativa entre a linha editorial do veículo e o tom da cobertura. Direita e esquerda condenam a Corte em uníssono — a crítica não tem lado,” demonstra o levantamento.
Esse resultado não comprova que as linhas editoriais sejam irrelevantes, mas indica que, dentro da amostra estudada, não foi possível identificar uma relação estatística consistente entre orientação política e avaliação da Corte.
Referências eleitorais aparecem associadas ao tom negativo
O estudo também utilizou um modelo de regressão logística para avaliar a relação entre determinados elementos das manchetes e a classificação negativa.
As menções aos nomes do ministro Alexandre de Moraes e do ex-presidente Jair Bolsonaro não apresentaram efeitos estatisticamente significativos quando analisadas isoladamente.
Já a referência ao contexto eleitoral apresentou associação estatística com o tom negativo. Segundo o modelo, as manchetes que relacionavam o STF à disputa presidencial tinham uma chance estimada 92,3% maior de receber classificação negativa. O resultado foi considerado significativo ao nível de 10%.
O dado indica uma associação entre o enquadramento eleitoral e a avaliação desfavorável, mas não permite concluir que a proximidade das eleições seja, por si só, a causa do tom adotado pelos veículos.
Diferenças na cobertura entre os países
O levantamento também identificou diferenças na maneira como a imprensa dos países analisados abordou a crise.
Segundo a pesquisa, veículos do Reino Unido e do Canadá deram destaque à investigação envolvendo um ministro do Supremo. Na Espanha e no México, as publicações relacionaram o episódio às possíveis repercussões eleitorais brasileiras.
Portugal concentrou o maior volume de manchetes da amostra e apresentou uma abordagem mais ampla, associando o caso a uma crise institucional.
Embora a pesquisa tenha abrangido quatro continentes, não foram identificadas publicações africanas na amostra final. Esse resultado se refere exclusivamente aos veículos e às manchetes selecionados para o levantamento.
Equipe responsável
O estudo foi realizado pelo professor Claudio Felisoni de Angelo, pela professora Patrícia Cotti, pelo professor Marcelo Felippe Figueira Jr., pelo professor Carlos Eduardo Furlanetti, Cesar Canassa e Luciano Vitorino.
O IBEVAR é uma instituição voltada a pesquisas e conteúdos sobre varejo e mercado de consumo. A FIA Business School, fundada em 1980 por professores da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da Universidade de São Paulo (FEA-USP), atua nas áreas de educação, consultoria e pesquisa aplicada.
O levantamento oferece um recorte da repercussão internacional de um episódio envolvendo o STF e permite observar como o contexto eleitoral aparece associado à cobertura jornalística. Seus resultados, entretanto, devem ser interpretados considerando o número de manchetes, os países incluídos e os critérios utilizados na pesquisa.
Destaque – Estudo do IBEVAR-FIA analisou 172 manchetes internacionais sobre a Suprema Corte brasileira. Foto: Gustavo Moreno/STF




