Crítica do LabCidade questiona a Gestão de Demanda Noturna da Sabesp, enquanto companhia aponta economia de água e investimentos para ampliar a segurança do abastecimento.
A crise hídrica voltou a provocar debate sobre a forma como a Região Metropolitana de São Paulo administra o abastecimento e distribui os impactos das medidas de redução do consumo. Em artigo publicado pelo LabCidade, laboratório da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design da USP, pesquisadores questionam a Gestão de Demanda Noturna (GDN) adotada pela Sabesp e defendem a combinação de medidas de economia de água com incentivos e proteção às famílias mais vulneráveis.
A Sabesp, por sua vez, sustenta que a redução controlada da pressão nas tubulações durante a madrugada é uma medida de segurança hídrica. Segundo a companhia, o procedimento diminui a quantidade de água perdida por vazamentos e reduz a retirada dos mananciais. Em agosto, a empresa informou que a GDN havia proporcionado economia acumulada de cerca de 183 bilhões de litros desde sua implantação.
Impacto nas periferias é questionado
Segundo o LabCidade, a redução da pressão durante oito horas por noite afeta quase 70% da população paulistana e pode atingir de forma mais intensa moradores de áreas altas e periféricas que não possuem reservatório domiciliar. O laboratório também relata casos em que a água retorna com baixa pressão ou alteração na qualidade percebida pelos moradores.
Outro ponto levantado é a perda de água no próprio sistema de distribuição. O texto afirma que aproximadamente 30% da água tratada na Região Metropolitana é perdida, principalmente por vazamentos nas redes. Para o LabCidade, o combate a essas perdas deve ter papel central na estratégia de enfrentamento da escassez.
A experiência da crise de 2014
O laboratório recupera medidas adotadas durante a crise hídrica de 2014 e 2015. Segundo o texto, naquele período a redução da pressão foi combinada com incentivos financeiros: consumidores que diminuíssem em mais de 20% o consumo médio recebiam desconto de 30% na conta. A economia chegou a 11 bilhões de litros por mês no período de maior adesão.
A estratégia também previa a distribuição gratuita de caixas-d’água para famílias sem reservatórios. O LabCidade utiliza essa experiência para defender que políticas de redução do consumo podem ser acompanhadas por mecanismos de incentivo e proteção social.
Sabesp aposta em obras e segurança hídrica
A Sabesp afirma que a GDN ocorre durante a madrugada, período de menor consumo, e reduz o volume de água que pode escapar pelas tubulações. Em agosto, diante da melhora dos mananciais, a companhia reduziu de dez para oito horas o período diário da medida, estabelecido entre 21h e 5h.
A empresa também aponta outras medidas de segurança hídrica, como a integração dos sistemas de abastecimento, a transferência de água do Itapanhaú para o Sistema Alto Tietê e a futura interligação entre Billings e Alto Tietê. A Sabesp informa ainda que prevê R$ 7,8 bilhões em investimentos até 2030 para ampliar a oferta e a segurança do abastecimento.
Caixas-d’água atendem famílias vulneráveis
Outro ponto do debate é a reserva domiciliar. Pelo programa Reserva Certa, a Sabesp informou ter instalado gratuitamente mais de 4.300 caixas-d’água na Região Metropolitana de São Paulo e na Baixada Santista até setembro. São Paulo concentrou 2.542 instalações, seguida por Guarulhos, Bertioga, Guarujá e Osasco.
O programa é destinado a famílias enquadradas nas categorias Social, Social 2 ou Vulnerável, após análise das condições do imóvel. A companhia realiza vistoria técnica antes da instalação e orienta os moradores sobre o uso e a manutenção do reservatório.
Os dados divulgados, porém, não permitem estabelecer quantas famílias de baixa renda nos municípios atendidos pelo programa não possuem simultaneamente saneamento adequado e caixa-d’água. Por isso, o número de 4.300 instalações deve ser entendido como o alcance do programa, e não como medida da dimensão total da carência.
Debate envolve modelo de gestão
O LabCidade também relaciona a atual política à privatização da Sabesp. A avaliação apresentada pelo laboratório é que a busca por retorno financeiro reduziria o interesse da companhia em adotar descontos tarifários que estimulem uma queda permanente do consumo.
Essa interpretação é apresentada pelo LabCidade e não constitui, por si só, uma demonstração de que a estrutura societária determine as decisões operacionais da companhia. A Sabesp sustenta uma justificativa técnica para a GDN e a apresenta como parte de um conjunto de ações voltadas à preservação dos mananciais e à redução de perdas.
O debate, assim, envolve não apenas o volume de água disponível, mas também a redução das perdas na distribuição, a expansão da infraestrutura, o incentivo ao consumo consciente e a proteção das famílias com menor capacidade de enfrentar interrupções ou oscilações no abastecimento.
Destaque – Gestão da água volta ao centro do debate em São Paulo durante período de atenção aos mananciais. A imagem mostra aspecto do sistema cantareira durante a crise hídrica de 2014. Foto: Mídia Ninja – Projeto: contadagua.org



