Tempo médio de deslocamento chegou a 2h05 em 2026, segundo pesquisa Ipsos-Ipec; ônibus seguem como principal meio de transporte, enquanto custo e lotação continuam entre os maiores problemas.
O tempo gasto para se deslocar pelas cidades brasileiras aumentou entre 2025 e 2026. Nas dez capitais pesquisadas pelo estudo Viver nas Cidades: Mobilidade Urbana 2026, realizado pela Ipsos-Ipec para o Instituto Cidades Sustentáveis, a média diária passou de 1h56 para 2h05, considerando os trajetos de ida e volta. O levantamento também aponta a permanência de dificuldades no transporte coletivo, especialmente a lotação dos veículos e o preço das tarifas.
A pesquisa ouviu 3.500 pessoas com 16 anos ou mais, residentes há pelo menos dois anos em Manaus, Belém, Fortaleza, Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre e Goiânia. As entrevistas foram realizadas pela internet entre 1º e 20 de julho de 2026.
Tempo de deslocamento em São Paulo aumentou 9 minutos
Entre as capitais analisadas, Fortaleza registrou o maior tempo médio diário, com 2h18, ante 1h58 em 2025. O aumento de 20 minutos foi o mais expressivo do período. Recife também apresentou elevação importante, passando de 1h50 para 2h07, acréscimo de 17 minutos. Em Goiânia, a média subiu de 1h38 para 1h53, enquanto no Rio de Janeiro passou de 1h58 para 2h10.
São Paulo registrou média de 2h07 em 2026, nove minutos a mais do que no ano anterior, quando o resultado era de 1h58. A capital paulista ficou entre as cidades com os maiores tempos de deslocamento. Na outra ponta, Porto Alegre apresentou a menor média, de 1h37, embora também tenha registrado aumento em relação às 1h34 de 2025. Belém foi a única capital em que a média caiu de forma expressiva, passando de 2h10 para 1h58.
No conjunto das cidades, 42% dos entrevistados afirmaram gastar mais de uma hora e meia por dia em deslocamentos. O resultado evidencia como o tempo de viagem constitui uma dimensão importante da mobilidade urbana, com consequências para a organização da rotina e o acesso ao trabalho, aos serviços e às atividades de lazer.
Transporte coletivo continua central para a população
O ônibus, incluindo os sistemas BRT e MOVE, aparece como o meio de transporte mais utilizado com maior frequência, citado por 35% dos entrevistados. O carro foi mencionado por 18%, enquanto os deslocamentos por aplicativos e o metrô registraram 8% cada.
Embora o uso varie de uma capital para outra, o transporte coletivo permanece essencial para grande parte da população. Segundo a pesquisa, 78% dos entrevistados utilizam algum meio de transporte público coletivo pelo menos ocasionalmente. Salvador apresentou o maior índice, com 84%, seguida por São Paulo e Belém, ambas com 82%, e Rio de Janeiro, com 81%. Em Goiânia, o percentual foi de 51%.
O levantamento também aponta diferenças relacionadas à renda. O ônibus é mais presente entre os entrevistados das classes C e D/E e entre aqueles com renda familiar de até dois salários mínimos. Esse resultado reforça a importância do transporte público para garantir o acesso da população à cidade.
Entre os usuários de ônibus, BRT e MOVE, a lotação foi citada por 24% como o problema que precisa ser resolvido com maior urgência. O preço da tarifa aparece em seguida, com 20%. As condições dos veículos foram mencionadas por 12%, enquanto segurança, pontualidade e frequência do serviço registraram percentuais de 10% cada.
Os resultados mostram que a questão não se resume à existência de linhas ou à disponibilidade de diferentes meios de transporte. A qualidade do serviço, a frequência das viagens, o tempo de espera e as condições de lotação também pesam na avaliação dos usuários.
Preço da passagem limita atividades cotidianas
O custo do transporte também interfere na possibilidade de realizar atividades fora do trajeto habitual. Entre os entrevistados que utilizam ônibus, BRT ou MOVE, 63% afirmaram que deixam de visitar amigos ou familiares que moram em outros bairros sempre ou às vezes por causa do preço das passagens. O percentual chega a 59% para atividades de lazer, como ir a parques e cinemas.
O impacto alcança outros aspectos da vida cotidiana: 51% disseram deixar de ir a consultas médicas ou exames, e 44% relataram limitar deslocamentos para procurar emprego. No caso de idas à escola ou à universidade, o índice foi de 33%.
A pesquisa também investigou a percepção sobre a tarifa zero. A resposta mais frequente foi a de que a gratuidade poderia ser positiva, desde que acompanhada de melhorias na qualidade e na frequência do serviço, alternativa apontada por 25% dos participantes. Outros 22% associaram a medida à ampliação do acesso ao transporte público e à redução da exclusão social.
Os dados indicam que o preço da passagem não afeta apenas o orçamento familiar: ele pode restringir o acesso a oportunidades, serviços e relações sociais. A discussão sobre políticas de mobilidade, portanto, envolve tanto a oferta de transporte quanto a capacidade de a população utilizá-lo de forma regular.
Insegurança também afeta quem circula a pé
A experiência de mobilidade não se limita aos passageiros de ônibus, trens e metrôs. O estudo constatou que 80% dos entrevistados se sentem pouco ou nada seguros ao circular a pé pelas cidades, seja para atravessar ruas, caminhar pelas calçadas ou utilizar passarelas, pontes e viadutos. Entre as mulheres, o índice chegou a 85%.
O Rio de Janeiro apresentou o maior percentual de insegurança, com 87%. Goiânia registrou o menor, mas ainda assim 62% dos entrevistados disseram sentir pouca ou nenhuma segurança como pedestres. Em São Paulo, o resultado foi de 80%.
A percepção de insegurança evidencia outro componente da mobilidade urbana: as condições oferecidas a quem caminha. Calçadas, travessias e demais estruturas para pedestres fazem parte dos deslocamentos cotidianos e influenciam a possibilidade de circular pela cidade.
Os resultados da pesquisa apontam um conjunto de desafios para as capitais brasileiras. O aumento do tempo de viagem, a lotação, o custo das tarifas e a insegurança dos pedestres mostram que melhorar a mobilidade exige considerar não apenas os modais disponíveis, mas também a eficiência, a acessibilidade e as condições reais de deslocamento da população.
Destaque – Pesquisa aponta aumento do tempo de deslocamento, problemas no transporte coletivo e insegurança para pedestres nas capitais. Imagem: aloart / G. I.




