Instituto aponta que problemas como planejamento ineficiente e falta de gestão baseada em dados ampliam pressão sobre orçamentos municipais.


O transporte coletivo urbano está entre os serviços públicos que mais pressionam o caixa das prefeituras brasileiras. Dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), com base nas informações do Finbra/Siconfi do Tesouro Nacional, indicam que as despesas com urbanismo e mobilidade urbana, onde o transporte coletivo é o principal componente, consomem cerca de 10% do orçamento municipal, podendo chegar a 15% em cidades médias e grandes. Esse tipo de despesa costuma ficar atrás apenas de áreas como saúde e educação.

Por trás dessa relevância financeira, no entanto, existem gargalos pouco visíveis para a população e que encarecem o sistema sem necessariamente melhorar o serviço prestado. Um dos principais é o desequilíbrio na operação: ônibus superlotados nos horários de pico convivem com veículos circulando quase vazios em outros momentos do dia, reflexo de um planejamento que não acompanha a variação real da demanda.

De acordo com o Instituto Brasileiro de Estudos Técnicos Avançados (Ibeta), análises técnicas realizadas a partir de dados operacionais indicam que é possível reduzir o custo do sistema em mais de 5% ajustando base de custos, faixas horárias fora do pico e ocupação, fatores que representam custos elevados com combustível, manutenção e pessoal, sem retorno proporcional em qualidade do serviço.

Gargalos invisíveis

Para Willian Keller, Diretor de Inovação e Pesquisa do Ibeta, o problema não está apenas no volume de recursos destinados ao transporte, mas na forma como são aplicados. “Em muitos municípios, o transporte coletivo ainda é planejado como se a demanda fosse estática. Isso gera desperdício operacional, aumenta a necessidade de subsídios e compromete o equilíbrio financeiro do sistema”, explica.

O Ibeta atua com soluções tecnológicas avançadas, que cruzam dados de GPS, bilhetagem eletrônica e indicadores operacionais para identificar falhas na distribuição da frota, horários ineficientes e linhas com baixa demanda. Lauer fala que, a partir desses diagnósticos, é possível replanejar a operação, reduzir desperdícios e aliviar a pressão sobre os cofres públicos sem, necessariamente, aumentar tarifas ou subsídios.

“Quando a operação é ajustada com base em dados reais, o gestor público ganha eficiência fiscal e o usuário ganha um serviço mais previsível e confortável. Mobilidade urbana não é apenas política social; é também política de responsabilidade fiscal”, destaca Keller.

O especialista defende que atacar esses gargalos invisíveis é um passo essencial para tornar o sistema mais sustentável, transparente e alinhado às reais necessidades das cidades. “Os municípios que já adotaram esse tipo de solução estão vivenciando isso na prática, com mais fôlego no orçamento municipal”, comenta.

Para o advogado Marcello Lauer, conselheiro do Ibeeta, a responsabilidade do gestor público não se resume em “manter o serviço rodando”: ela começa na obrigação de cobrar a menor tarifa possível e/ou aplicar o recurso em subsídio com eficiência, economicidade e transparência, enfrentando desperdícios operacionais que muitas vezes ficam invisíveis ao cidadão.

“Quando a decisão é tomada com base em dados operacionais e financeiros reais, o município deixa de financiar ineficiências e passa a financiar resultado: mais previsibilidade para o usuário e mais fôlego fiscal para a Prefeitura. Em mobilidade urbana, boa gestão é, ao mesmo tempo, política social e responsabilidade com o dinheiro público”, afirma.


Destaque – Ponto de ônibus na estação Tatuapé do Metrô. Foto: aloimage / arquivo


Leia outras matérias desta editoria

Siga Fácil do Sistema Anchieta-Imigrantes inicia testes com pórticos eletrônicos

Imigrantes, novas estruturas substituem cabines tradicionais de pedágio; não há cobrança de tarifa nesta etapa. A concessionária Ecovias Imigrantes finalizou a instalação dos equipamentos do Siga Fácil, o novo sistema de pórtico eletrônico em implantação...

Nova Linha 22-Marrom do metrô projeta conectar Cotia diretamente à Linha 2-Verde

Integração entre a região oeste metropolitana e o eixo da Zona Leste e Paulista promete descentralizar fluxos e reduzir tempo de viagem. A mobilidade urbana entre a região oeste da Grande São Paulo e os eixos consolidados da capital paulista caminha para...

Consulta pública do Orçamento de SP vai até 14 de junho, participe

Plataforma eletrônica permite que moradores escolham investimentos prioritários para suas regiões em 2027. Os moradores do Estado de São Paulo têm menos de duas semanas para enviar sugestões e definir onde a verba pública deve ser aplicada no próximo ano....

Maio Amarelo: a importância de manter os cuidados no trânsito o ano todo

Campanha de conscientização chega ao fim, mas a prática da direção defensiva em condições adversas de chuva e neblina deve ser permanente. por AT & ASP News O encerramento de mais uma edição do Maio Amarelo — movimento global de conscientização para a...

Linha 2-Verde: Metrô inicia montagem do tatuzão “Hebe Camargo” na Penha

Equipamento gigante é a peça-chave para a construção dos túneis que ligarão a futura estação Penha até o VSE (Ventilação e Saída de Emergência) Castelo Branco, na divisa com Guarulhos. A expansão da Linha 2-Verde do Metrô, uma das obras de infraestrutura...

Complexo Viário Sena Madureira: Pesquisa Datafolha aponta aprovação de 92% dos paulistanos

Novo sistema de túneis na Zona Sul deve reduzir deslocamento entre a Chácara Klabin e o Ibirapuera para 3 minutos. A construção do novo Complexo Viário Sena Madureira desponta como uma das intervenções urbanas de maior consenso entre os moradores de São...

Túnel Sena Madureira: alternativa de R$ 1 milhão contra projeto de R$ 622 milhões da Prefeitura de SP

Em audiência na CMSP, oposição e especialistas propuseram plano 622 vezes mais barato para substituir túnel na vila mariana; viabilidade da proposta ainda não foi demonstrada. No dia 26 de março último, o debate sobre o Complexo Viário Sena Madureira...