Em meio à guerra de gangues em Porto Príncipe, fechamento de hospitais e barreiras territoriais forçam a população a escolher entre a violência dos tiroteios e o agravamento de doenças fatais
Em Porto Príncipe, capital do Haiti, o avanço do controle de grupos armados e os confrontos constantes contra o governo transformaram o acesso à saúde em uma jornada de risco mortal. A violência extrema atinge com severidade a comunidade de Cité Soleil, dividida em 34 bairros dominados por facções. Bloqueios de vias, barricadas e postos de controle informais expõem moradores ao risco constante de agressões, prisões arbitrárias e mortes no trajeto em busca de auxílio médico.
A gravidade do cenário afeta diretamente pacientes com doenças crônicas ou agudas. Ronaldo*, de 19 anos, convive há dois anos com crises graves de asma e relata a impossibilidade de deslocamento durante os conflitos. “Quando a situação de segurança piora e há tiroteios, eu não consigo sair de casa, especialmente quando tenho crises de asma. Nesses momentos, minha família joga água fria no meu corpo para tentar aliviar os sintomas”, relata o jovem, atendido no ambulatório de Médicos Sem Fronteiras (MSF).
Escalada da violência e suspensão de serviços médicos de emergência
A proximidade dos combates em relação aos centros de atendimento tem forçado a interrupção temporária de serviços vitais na região. Em maio de 2026, confrontos intensos a menos de 200 metros da unidade de MSF em Cité Soleil resultaram no atendimento de mais de 40 feridos por arma de fogo em menos de 12 horas, além do atingimento de um profissional de segurança por bala perdida dentro do complexo. A gravidade da situação exigiu a evacuação total de pacientes e funcionários.
“Em condições normais, o ambulatório atende cerca de 150 pacientes por dia, e a taxa de ocupação dos leitos frequentemente ultrapassa 80%. Isso dá uma ideia das consequências para a população quando nossas atividades são interrompidas por várias semanas”, observa Thomas Curbillon, coordenador-geral de MSF no Haiti.
A interrupção de atividades afeta de forma crítica a assistência a doentes crônicos e a saúde materna. A coordenadora-geral de operações da organização no país, Sarah Chateau, destaca o esvaziamento das unidades durante os períodos de fogo cruzado. “Quando isso acontece, os pacientes deixam de vir — eles tentam evitar ao máximo ficar no meio do fogo cruzado. O hospital fica quase deserto e nossos pacientes com doenças crônicas, exceto aqueles já internados, perdem acesso aos cuidados”, detalha.
Estrutura sanitária devastada e avanço das doenças crônicas
Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), apenas 26% das unidades de saúde no Haiti permanecem plenamente funcionais. As demais foram destruídas, saqueadas ou operam com capacidade reduzida devido à escassez de suprimentos, profissionais e segurança básica. A destruição atinge em cheio pacientes idosos e vulneráveis, como Rosemie*, de 76 anos, portadora de diabetes. “Os pequenos hospitais do meu bairro foram destruídos e tudo o que havia neles foi saqueado”, relata a moradora, que precisou de internação após ter a mobilidade severamente reduzida pela evolução da doença.
As doenças crônicas — como diabetes, hipertensão, asma e epilepsia — representam atualmente a principal causa de morte no país, mas a maior parte dos óbitos ocorre fora dos ambientes hospitalares. “A maioria das mortes ocorre fora das unidades de saúde, porque os pacientes não conseguem se deslocar devido à violência ou ao custo do transporte, ou porque estão debilitados demais e enfrentando uma crise aguda”, explica Jérôme Fritsch, referente médico do hospital de MSF em Cité Soleil.
Para tentar mitigar o impacto do abandono dos tratamentos, parcerias com entidades locais buscam assegurar o acompanhamento contínuo de pacientes estabilizados após crises agudas. Contudo, as equipes humanitárias ressaltam que ações isoladas não conseguem conter o colapso estrutural do sistema de saúde haitiano, que permanece dependente de financiamento internacional e de garantias mínimas de segurança para a preservação de vidas humanas.
*Os nomes dos pacientes foram alterados pela organização para proteger suas identidades.
Com as informações da assessoria de Médicos Sem Fronteiras | RJ
Destaque – Conflitos armados e crise humanitária no Haiti bloqueiam o acesso da população a tratamentos de saúde e atendimento hospitalar de emergência. Crédito: Alexandre Marcou/MSF




