Marcos Koenigkan


O balanço de uma empresa não mostra tudo o que sustenta seu crescimento. Há valores que não aparecem em planilhas, não entram no fluxo formal e raramente são tratados com método, mas que definem o sucesso de uma marca. As relações humanas são um deles. Em mercados maduros, ele é reconhecido como parte do capital intelectual. No Brasil, isso ainda pode ser visto como algo difuso, informal ou até confundido com “networking de ocasião”. E esse erro custa caro.

Não estou falando sobre quantidade de contatos, é qualidade de vínculos. Envolve confiança construída ao longo do tempo, reputação testada em momentos críticos, histórico de entregas e a capacidade real de mobilizar pessoas, empresas e instituições quando o cenário aperta. É o que permite destravar portas que não se abrem com dinheiro, acelerar negociações que, no papel, levariam meses e reduzir assimetria de informação em ambientes de alto risco.

Em economias mais instáveis, insegurança jurídica e ciclos de crédito incertos, conexões seguras funcionam como um amortecedor de risco. O empresário que construiu esse capital sólido negocia melhores condições, antecipa movimentos com relação à concorrência e acessa oportunidades antes que elas se tornem óbvias. Não se trata de privilégio, mas de confiança acumulada. O custo de transação cai porque o nível de incerteza é menor. Isso impacta diretamente margem, prazo e velocidade de execução.

O problema é que a maioria das empresas trata relacionamento como algo acessório, não como ativo. Investe em mídia, performance, automação, mas não mede, não estrutura e não protege sua rede de relações. Quando há uma crise de reputação, uma ruptura societária ou um choque externo, descobre que o “capital invisível” era frágil. Relações superficiais não sustentam decisões difíceis. Necessário haver um histórico de coerência entre discurso e prática.

Outro grande engano é confundir visibilidade com relacionamento. Estar em eventos, aparecer em fotos e circular em ambientes empresariais não significa muita coisa, quando a pergunta relevante é: quem atende seu telefonema quando você precisa resolver um problema? Quem coloca reputação em jogo para te apoiar? Quem abre portas sem exigir contrapartidas imediatas? Esse é o termômetro.

Isso tudo exige método. Primeiro, mapeamento: quais relações são importantes para o negócio, hoje e no horizonte de três a cinco anos. Segundo, manutenção: relacionamento não é contato pontual, é presença consistente, troca de valor e respeito a acordos implícitos e explícitos. Terceiro, governança: a empresa não pode depender apenas da agenda pessoal do fundador. Quando o capital relacional está concentrado em uma pessoa, a empresa fica vulnerável.

No contexto brasileiro, isso é ainda mais sensível. Muitos negócios escalam rápido e quebram rápido porque subestimam o papel dessa reputação em ambientes de incerteza. Em momentos de crédito restrito, mudança regulatória ou retração do consumo, quem tem capital relacional acessa soluções criativas, renegocia condições e encontra pontes que o balanço não mostra. Quem não tem, paga mais caro, perde tempo e, muitas vezes, perde o negócio.

Um networking conciso não substitui produto, governança ou eficiência operacional. Mas potencializa tudo isso. É um multiplicador maravilhoso. Empresas que entendem esse fato investem com o mesmo rigor com que tratam tecnologia e marca. Constroem autoridade com entrega, constância e ética. No fim do dia, mercados funcionam por contratos, mas crescem por segurança. E confiança é um ativo que não se compra pronto. Se constrói.


Marcos Koenigkan – Criador do Grupo MK em 1986, reunindo hoje sete empresas em segmentos que vão de arte a self storage e fintechs.

 


Destaque – Imagem: Divulgação / +aloart / G.I.


Leia outras matérias desta editoria

20 anos da Lei Maria da Penha, o Estatuto da Vítima, o spray de pimenta e a proteção à mulher ainda em falta

Principal norma brasileira para prevenir, punir e erradicar a agressão doméstica e familiar contra a mulher, a Lei Maria da Penha (11.340/2006) completa 20 anos em agosto. Mesmo com previsão de expedição de medidas protetivas de urgência, tipificação de...

Concessão de benefícios do INSS para entregadores de App é justiça social

Concedida em caráter liminar e com abrangência nacional, a Justiça do Trabalho determinou recentemente que o Instituto Nacional de Seguro Social (INSS) deve analisar caso a caso pedidos de benefícios a entregadores por aplicativos que tenham se acidentado...

Violência política de gênero: quando a lei existe, mas a proteção não chega

A cada mulher que assume um mandato eletivo no Brasil, soma-se uma probabilidade concreta de sofrer violência por isso — não apesar de estar na Política, mas justamente por ingressar nela. Segundo o Censo das Prefeitas Brasileiras (mandato 2021/2024), do...

O tarifaço americano e o preço da polarização: quando a conta chega ao cidadão

O novo tarifaço imposto pelos Estados Unidos ao comércio internacional representa muito mais do que uma decisão econômica. Trata-se de um movimento que reorganiza as relações comerciais globais, aumenta a insegurança dos mercados e impõe novos desafios...

PL da Misoginia: quando o ódio às mulheres deixa de ser opinião e se torna crime

A recente decisão da Câmara dos Deputados, em Brasília-DF, de submeter o Projeto de Lei (PL) da Misoginia (896/2023) a regime de urgência, reconfigura, em termos simbólicos e normativos, o lugar da violência de gênero no Direito Penal brasileiro. Ao...

Quando o golpe usa o próprio sistema de Justiça

Fraude que se vale de dados reais expõe falhas institucionais e exige resposta conjunta de tribunais, bancos, plataformas e advocacia. Um golpe silencioso, sofisticado e cada vez mais frequente vem se espalhando pelo país: o golpe do falso advogado....

Copa do Mundo: a camisa da Seleção pesou menos do que deveria

O futebol sempre foi muito mais do que um esporte para o Brasil. Durante décadas, vestir a camisa da Seleção significou representar a história de um povo, carregar a esperança de milhões de brasileiros e defender um símbolo que ultrapassava os 90 minutos...