Marco Vinholi


O caso do Banco Master, em evidência desde novembro do ano passado, no noticiário nacional, vai muito além de um episódio isolado envolvendo um empresário e uma instituição financeira. Ele escancara um conjunto de problemas estruturais que o Brasil insiste em empurrar para debaixo do tapete: o uso inadequado do dinheiro público, a fragilidade de mecanismos de controle e a facilidade com que alguns poucos conseguem acumular riqueza manipulando as brechas dos sistemas econômico e político do País.

O Brasil convive há décadas com um paradoxo. De um lado, temos uma Economia complexa, uma estrutura bancária sofisticada e instituições que, em tese, deveriam garantir estabilidade e previsibilidade. De outro, ocorrências recorrentes demonstram que, quando regras são contornadas ou manipuladas, o resultado é a concentração acelerada de riqueza nas mãos de uma minoria e prejuízos incalculáveis para toda a sociedade.

O caso em tela, e que tem o banqueiro Daniel Vorcaro no epicentro, ilustra bem tal distorção. Quando um empresário consegue construir fortuna em velocidade extraordinária, deve-se perguntar: quais condições permitiram isso? Houve acesso privilegiado a crédito, a relações políticas ou a estruturas pouco transparentes? Houve falhas de supervisão? Essas questões dizem respeito à credibilidade de toda a estrutura nacional — social, econômica e política.

Em economias modernas, o conjunto financeiro funciona, essencialmente, com base em confiança. Investidores, correntistas e empresas depositam recursos nos bancos, porque acreditam que existe supervisão adequada, regras claras e mecanismos capazes de evitar abusos. Quando surgem acontecimentos que colocam em dúvida tal credibilidade, o institucional se fragiliza e o custo do crédito tende a subir — e isso não tem nada a ver com competitividade, mas, sim, com manobra.

Outro aspecto preocupante é a relação entre os poderes econômico e político. A história mostra inúmeros casos em que grandes impérios se formaram a partir da proximidade de especuladores com o Estado, por meio de crédito subsidiado, acesso indiscutivelmente privilegiado a contratos, ou influência sobre decisões regulatórias.

O debate, agora, em meio à prisão preventiva de Vorcaro, à possibilidade de o banqueiro fechar acordo de delação premiada, e aos indícios de proximidade de alguns ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) com o investigado tem de ir além da responsabilização individual. É necessário discutir o funcionamento do mecanismo como um todo.

Reguladores precisam ter autonomia técnica e capacidade real de fiscalização. Órgãos de controle devem agir com independência e transparência. Relações entre setor financeiro, Política e Estado necessitam ser mais claras e rastreáveis. É o mínimo que se espera para termos um ambiente, digamos, sério e não contaminado por fraudes, desvios e interesses particulares que se sobrepõem ao interesse coletivo.

Países que conseguiram construir economias sólidas combinaram liberdade econômica com respeitabilidade. E, que fique claro: o sucesso empresarial é desejável e necessário; só não pode ser baseado na manipulação de regras ou na captura, no sequestro do Estado.

Se quisermos evitar que episódios semelhantes ao do Banco Master se repitam, a resposta passa por instituições mais fortes, transparência radical nas relações entre os poderes econômico e público e uma cultura de responsabilidade. Porque, no fim das contas, quando o sistema é manipulado por poucos, quem paga a conta é sempre o País inteiro.


Paulo Serra – Especialista em Gestão Governamental e em Políticas Públicas, pela Escola Paulista de Direito; e em Financiamento de Infraestrutura, Regulação e Gestão de Parcerias Público-Privadas (PPPs), pela Universidade de Harvard (Estados Unidos); cursou Economia, na Universidade de São Paulo (USP); é graduado em Direito, pela Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo-SP; professor universitário no curso de Direito, também é 1º vice-presidente da Executiva Nacional do PSDB e presidente do Diretório Estadual do PSDB de São Paulo; foi prefeito de Santo André-SP de 2017 a 2024.


Destaque – Imagem: aloart / G.I.


Leia outras matérias desta editoria

A Corte no palanque: o custo institucional do STF nos bastidores da Política

Há uma distinção que a República exige preservar com rigor quase que ritualístico: a diferença entre a Política — aquela exercida sob o crivo do voto, do dissenso aberto e da responsabilidade democrática — e a política de bastidores, de articulação...

A reforma tributária avança; a incerteza se agrava

Sob a promessa de modernização, o Ministério da Fazenda e o Comitê Gestor, recentemente, detalharam as diretrizes da implementação da CBS e do IBS. No entanto, por trás das regras unificadas, o que se vê é a arquitetura de um novo e complexo sistema de...

O enfraquecimento da Advocacia em tempos de relativização de normas e de abusos do Judiciário

A segurança jurídica é um dos pilares do Estado Democrático de Direito. Mais do que da existência de normas, ela depende de previsibilidade em sua aplicação e da confiança de que todos, sem distinção, serão submetidos às mesmas regras. Quando isso se...

A toga que não veio: a resistência e o duro recado do Senado Federal a Lula

Acompanhei a sabatina de Jorge Messias, no Senado Federal, na quarta-feira (29/4), como deputada federal no exercício do segundo mandato, em Brasília-DF, mas, também, com o olhar de quem passou 25 anos no Jornalismo e aprendeu a ler o que não está dito....

O preço ambiental do fracking no Brasil

O fraturamento hidráulico (fracking) não é apenas uma técnica de extração de gás; é uma escolha política com impactos diretos sobre água, solo e produção agrícola. A técnica consiste na injeção de milhões de litros de água, areia e aditivos químicos sob...

O STF e a autocontenção

Pesquisa Atlas/Intel-Estadão aponta deterioração da imagem do STF, com 60% de desconfiança devido ao caso Banco Master e benefícios salariais. Insatisfação popular, antes restrita à direita, tornou-se majoritária, gerando tensões entre Poderes. Até o ano...

Justiça “analógica” no combate à violência sexual digital: dúvida técnica, demora institucional e revitimização

A Inteligência Artificial (IA) generativa mudou a natureza da violência sexual digital. O sistema de Justiça enfrenta, não de hoje, um fenômeno bem mais complexo do que antes: conteúdos íntimos inteiramente sintéticos, produzidos por algoritmos, mas...