Marco da presença franciscana e da Faculdade de Direito, espaço histórico do Centro da capital entrelaça séculos de transformação acadêmica e memória paulistana
Gerson Soares
O Largo São Francisco teve origem na construção do Convento de São Francisco e foi inaugurado em 17 de setembro de 1647, acrescido das igrejas de São Francisco de Assis e da Venerável Ordem Terceira de São Francisco da Penitência — verdadeiras relíquias da era colonial paulistana.
Em 1825, o local abrigou a criação da primeira Biblioteca Pública da cidade e, em 1828, passou a sediar a Faculdade de Direito, consolidando-se como o mais importante polo de atividade acadêmica, literária e política da região.
No livro “Lembranças de São Paulo – A Capital Paulista nos Cartões Postais e Álbuns de Lembranças”, de João Emílio Gerodetti e Carlos Cornejo, obra imperdível para os amantes da história da capital, os autores citam o historiador Richard M. Morse, que faz uma observação marcante sobre a dinamicidade do território:
“A presença física de centenas de jovens teve repercussões mais imediatas na vida da cidade do que as doutrinas professadas pelos seus mestres. A produção literária e política dos estudantes, começando com ‘O Amigo das Letras’, em 1830, atingiu proporções surpreendentes.”
Da Revolução de 1932 às memórias da cidade antiga
O engajamento dos estudantes marcou momentos decisivos da trajetória do país. Durante a Revolução Constitucionalista de 1932, o icônico casarão assumiu um papel central nas mobilizações estaduais. “A faculdade constituiu-se em ‘quartel-general’ dos constitucionalistas do movimento MMDC, fornecendo voluntários para as frentes de combate, muitos dos quais tombaram nas trincheiras”, registram Gerodetti e Cornejo em sua obra.
A atmosfera do local e as transformações urbanas ao longo das décadas também deixaram marcas profundas na literatura da cidade. Em “Os fantasmas da São Paulo antiga”, o escritor Miguel Milano resgatou com saudosismo as memórias do perímetro:
“Quando passo pelo Largo de São Francisco e não vejo mais a estátua de José Bonifácio, o Moço, e vem o vetusto casarão da Faculdade com o relógio engastado na torre anti-estética que o adornava, que de recordações me assaltam o cérebro amadurecido na árdua e longa experiência de vida!…”
Destaque – Acervo histórico e tradição acadêmica marcam a trajetória no Centro de São Paulo: Academia de Direito e Convento de São Francisco em 1897. À esquerda da imagem, uma estilização da estátua de José Bonifácio, o Moço, instalada em 1890 no Largo São Francisco. Imagem: “Lembranças de São Paulo – A Capital Paulista nos Cartões Postais e Álbuns de Lembranças”, reproduzida com autorização dos autores.



