Doutorando Felipe de Assunção Soriano, da PUCRS, apresenta tese que promete decifrar a autoria do documento encontrado em Itu.
Um enigma histórico guardado por séculos promete reescrever parte da história literária e pedagógica de São Paulo. Um pequeno manuscrito em formato de códice, com folhas descosturadas e dimensões reduzidas, foi encontrado na residência dos jesuítas de Itu, no interior paulista. O documento, que estava em péssimo estado de conservação e prestes a ser destruído, pode ser uma obra inédita de autoria do Padre José de Anchieta.
A revelação e os detalhes dessa investigação histórica serão apresentados ao público no próximo dia 27 de julho de 2026, durante a defesa de tese do historiador e doutorando Felipe de Assunção Soriano, pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS).
O resgate do documento que ia para o fogo
O texto, que atravessou os séculos sofrendo a ação de traças e outros insetos, estava literalmente destinado ao descarte e ao fogo antes de ser resgatado. Após as primeiras análises, o conteúdo foi classificado como uma selecta latina — um material didático voltado ao ambiente escolar jesuítico e fortemente alinhado ao programa formativo do Colégio das Artes de Coimbra, em Portugal.
A grande questão que intrigou os investigadores desde o início foi a falta de uma assinatura no códice de origem desconhecida. De acordo com os registros da pesquisa de Felipe de Assunção Soriano, o jesuíta que descobriu o manuscrito em Itu possuía vasta experiência com o acervo do poeta canário, tendo atuado diretamente na revisão e qualificação de documentos localizados no Arquivo Romano da Companhia de Jesus e com parentes do próprio Padre Anchieta. Foi esse olhar treinado que reconheceu no achado elementos idênticos à produção literária, intelectual e pedagógica de Anchieta.
Os impasses editoriais e o silêncio da história
Apesar dos indícios promissores, a comunidade acadêmica e a comissão literária jesuíta adotaram uma postura de extrema cautela ao longo dos anos. “A ausência de informações seguras sobre sua procedência e a impossibilidade de comprovar sua autenticidade impediram que o códice fosse incorporado à segunda etapa do projeto editorial anchietano”, explica o pesquisador em seu estudo.
Por causa disso, o documento permaneceu à margem das publicações oficiais: perto o suficiente para levantar interrogações profundas entre especialistas no Brasil e em Coimbra, mas distante das garantias científicas necessárias para uma atribuição definitiva.
Mesmo sob o manto da dúvida, o impacto do manuscrito de Itu já se fez notar nos bastidores da historiografia. As particularidades encontradas em suas páginas ajudaram especialistas a revisar e reavaliar o status de outros documentos fundamentais já conhecidos, como o “De Gestes Mendi de Saa” e o célebre “Poema da Virgem”.
Enigma de quinhentos anos decifrado
A pesquisa que será apresentada no final deste mês busca responder a perguntas que desafiam historiadores há décadas. Conforme aponta Soriano, o trabalho parte de um verdadeiro enigma:
“Como desvendar a autoria material e intelectual de um manuscrito quinhentista, sem assinatura, cuja trajetória documental permanece parcialmente desconhecida? Como interpretar as marcas deixadas em seu papel, em sua escrita, em suas abreviaturas, em seus temas e em suas formas de composição?”
Para solucionar o misterioso caso, a tese intitulada “Entre a crítica e a tradição: a construção da autoria em um manuscrito atribuído a José de Anchieta” reconstrói minuciosamente os caminhos da produção escrita e da tradição pedagógica dos jesuítas. A análise detalhada revela facetas inéditas sobre como os materiais didáticos eram elaborados, transmitidos e circulados no século XVI.
A defesa pública do estudo de Felipe de Assunção Soriano ocorrerá no dia 27 de julho de 2026, às 14h (Horário de Brasília), e promete ser um dos eventos mais importantes e comentados dos estudos anchietanos nos últimos tempos, jogando luz sobre as origens da formação cultural paulista.
Destaque – O historiador Felipe de Assunção revelará sua tese no próximo dia 27, na PUC do Rio Grande do Sul. Imagem: PUCRS / +aloart



